Corredor ecológico

O processo de conversão de áreas naturais em larga escala, causado pelo desflorestamento e pela ocupação do território por práticas produtivas e de convivência (manchas urbanas) - ou seja, o processo no qual, após dado distúrbio, uma grande extensão de hábitat é subdividida em um número de fragmentos menores, que apresentam menor área total do que o habitat inicial e estão isolados um do outro por uma matriz de habitat diferente do original1, pode também ser denominado fragmentação de habitat. Assim, uma paisagem contínua, a partir do processo de fragmentação, torna-se uma paisagem com elementos antes inexistentes, e as características desses elementos e a forma como eles interagem entre si promovem respostas abióticas e bióticas que alterarão a composição e a estrutura da comunidade, bem como o padrão espacial da paisagem, que se refere ao número, tamanho e justaposição dos elementos.

As mudanças drásticas na geometria e atributos da paisagem alteram o microclima do habitat, expondo organismos à insolação, ventos e dessecação2, alterando a composição e estrutura da comunidade, uma vez que algumas espécies são extremamente dependentes de condições abióticas ideais para germinação, crescimento, estabelecimento, florescimento e polinização. A fragmentação influencia também nas interações entre plantas e animais, consequentemente afetando a densidade populacional de polinizadores e dispersores e a demografia e o recrutamento das plantas3.

O Corredor Central da Amazônia localiza-se integralmente no estado do Amazonas e é composto por 76 áreas protegidas, sendo 14 UCs federais (6 de Proteção Integral e 8 de Uso Sustentável ), 14 UCs estaduais (3 de Proteção Integral e 11 de Uso Sustentável) e 48 Terras Indígenas, compreendendo 52 milhões de hectares.

Assim, são reconhecidos como componentes da paisagem fragmentada: a matriz, componente mais extenso da paisagem, altamente conectado, que controla a dinâmica regional4 – ou seja, uma plantação de soja, pinheiro ou pasto, dentre outras, ou mesmo a mancha urbana, no caso de cidades; fragmentos, remanescentes do habitat original, agora reorganizado espacialmente em manchas menores e de menor área total, que apresentam certo grau de isolamento entre si; e os corredores, que vêm a ser unidades  que diferem da matriz e conectam os fragmentos5.

A composição da matriz é uma das variáveis que altera a conectividade da paisagem, sendo a conectividade a capacidade da paisagem em facilitar os fluxos biológicos, ou seja, a continuidade espacial do habitat original4. Portanto, em uma paisagem cuja matriz possui baixa permeabilidade, a mobilidade dos organismos e sua consequente dispersão e colonização de novos fragmentos é comprometida. É fácil entender isso se pensamos em um remanescente de mata incrustado no meio urbano e na probabilidade de atropelamento da fauna. Uma matriz mais permeável seria um ambiente cujas alterações não tivessem sido tão drásticas, ou seja, aproximasse-se no ambiente original.

A conectividade da paisagem depende da proporção da paisagem que os fragmentos ocupam, característica diretamente relacionada ao tamanho dos fragmentos e ao grau de isolamento entre os fragmentos, sejam barreiras espaciais ou ecológicas. Fragmentos maiores e com maior diversidade de habitats, teriam mais condições de manter os processos ecológicos e um maior número de espécies e populações viáveis. Está também intimamente relacionada com a existência de corredores - além da capacidade de conectar fragmentos, facilitando a sobrevivência dos organismos durante seu fluxo entre as manchas, eles podem apresentar as condições necessárias de habitat temporário ou permanente para algumas populações.

Desde o surgimento da proposta dos corredores como importante elemento na conectividade da paisagem, muitos estudos têm mostrado seus efeitos positivos no movimento das espécies6, havendo também quem afirme que muitas vezes a recolonização de fragmentos não se dá devido à inospicidade do habitat, mas sim devido à impossibilidade das espécies colonizadoras chegarem às manchas, muitas vezes pela ausência de corredores7.

O conceito de corredor ecológico foi incorporado às políticas ambientais através do SNUC, que atribuiu ao Ministério do Meio Ambiente o reconhecimento desta unidade territorial. O Sistema nacional de Unidades de Conservação define Corredores Ecológicos como porções de ecossistemas naturais ou seminaturais, ligando UCs, que possibilitam entre elas o fluxo de genes e o movimento da biota, facilitando a dispersão de espécies e a recolonização de áreas degradadas, bem como a manutenção de populações que demandam para sua sobrevivência áreas com extensão maior do que aquela das unidades individuais. Através deles busca-se proteger grandes áreas por meio de um conjunto integrado de unidades de conservação de diferentes categorias, próximas ou contíguas, e suas respectivas zonas de amortecimento e corredores ecológicos, integrando as diferentes atividades de preservação da natureza, uso sustentável dos recursos naturais e restauração e recuperação dos ecossistemas.

 

O Projeto Corredores Ecológicos

(Fonte: MMA – Projeto Corredores Ecológicos, acesso em outubro de 2014)

O Projeto Corredor Ecológico foi concebido no âmbito do Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais do Brasil (PPG7) como uma área extensa de grande importância ecológica, composto por ecossistemas prioritários para a conservação da biodiversidade, unidades de conservação, terras indígenas e áreas de interstício. O Projeto Corredores Ecológicos vem sendo construído dentro do MMA desde 1997 passando por um longo processo de elaboração. Em 1993, no IBAMA, foi objeto de várias discussões, sendo que em 1995 uma equipe de consultores, contratada pelo Banco Mundial e liderada por Márcio Ayres e Gustavo Fonseca, apresentou uma primeira proposta sugerindo que fosse testada a implementação de corredores ecológicos. No processo de discussão dessas propostas, havia a busca por procedimentos além do financiamento da implementação de UCs por meio de planos de manejo, investimento em infra-estrutura e capacitação de pessoal. O Projeto propunha construir quadros econômicos, sociais e políticos sustentáveis para conservar a biodiversidade nos corredores. São objetivos principais do Projeto:

  • Planejar a paisagem, integrando unidades de conservação, buscando conectá-las e, assim, promovendo a construção de corredores ecológicos na Mata Atlântica e a conservação daqueles já existentes na Amazônia;
  • Demonstrar a efetiva viabilidade dos corredores ecológicos como uma ferramenta para a conservação da biodiversidade na Amazônia e Mata Atlântica;
  • Promover a mudança de comportamento dos atores envolvidos, criar oportunidades de negócios e incentivos a atividades que promovam a conservação ambiental e o uso sustentável, agregando o viés ambiental aos projetos de desenvolvimento.

Devido à característica de ser uma unidade territorial de grande extensão, com multiplicidade e heterogeneidade de cobertura vegetal e usos e ocupações do solo, o corredor ecológico é intimamente dependente da mobilização, envolvimento e ações integradas dos diversos setores: governo, empresas e sociedade civil. Assim, o Projeto Corredores Ecológicos desenvolve uma abordagem abrangente, descentralizada e participativa, permitindo que governo e sociedade civil compartilhem a responsabilidade pela conservação da biodiversidade, podendo planejar, juntos, a utilização dos recursos naturais e do solo; envolvendo e sensibilizando instituições e pessoas, criando parceiras em diversos níveis: federal, estadual, municipal, setor privado, sociedade civil organizada e moradores de entorno das áreas protegidas2.

Foram identificados sete grandes corredores, representando cerca de 25% das florestas tropicais úmidas do Brasil, dos quais cinco localizam-se na Amazônia (Corredor Central da Amazônia, Corredor Norte da Amazônia, Corredor Oeste da Amazônia, Corredor Sul da Amazônia, Corredor dos Ecótonos Sul-amazônicos) e dois na Mata Atlântica (Corredor Central da Mata Atlântica e Corredor Sul da Mata Atlântica ou Corredor da Serra do Mar).

Iniciou-se um processo de discussão e ajustes sucessivos, com a realização de seminários, reuniões, emissão de pareceres técnicos por parte de especialistas e ONGs. Uma segunda versão dessa proposta foi objeto de extensas discussões no âmbito de um grupo técnico com representantes do IBAMA, do AM, ES e BA, Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e ONGs, com o objetivo de analisar detalhadamente a proposta elaborada pelos consultores.

Foram elaboradas várias versões do PCE e ocorreram extensas discussões que envolveram, além do Grupo Técnico (GT) acima referido, representantes do Banco Mundial (gestor do Fundo Fiduciário para a Proteção de Florestas do Brasil/RFT), KfW, GTZ e Comunidade Européia- CE, instituições que se propunham a financiar o projeto. Após o trabalho do GT, a coordenação do Projeto passou para o MMA, sendo que atualmente encontra-se vinculado ao Departamento de Áreas Protegidas da Secretaria de Biodiversidade e Florestas.

Dentre os sete grande corredores identificados, foi priorizada a implementação do Corredor Central da Amazônia (CCA) e do Corredor Central da Mata Atlântica (CCMA), com o propósito de testar e abordar diferentes condições nos dois principais biomas e, com base nas lições aprendidas, preparar e apoiar a criação e a implementação de demais corredores.

 

Categoria Unidade de conservação Instância responsável Área (ha) Ano de criação
CEC Caatinga Federal 2006
CEC Central da Amazônia Federal 52.159.206 2002
CEC Mata Atlântica Federal
CEC Parna da Serra da Capivara/Parna da Serra das Confusões Federal 414.565 2005
CEC Santa Maria (CEC) Federal 2001

 

Saiba Mais

Site dos Corredores de Biodiversidade da Mata Atlântica. Disponível clicando aqui.

Ayres, J.M., Fonseca, G.A.B., Rylands, A.B., Queiroz, H.L., Pinto, L.P., Masterson, D. & Cavalcanti, R.B. 2005. Corredores Ecológicos das Florestas Tropicais do Brasil. Belém: Soc. Civil Mamirauá, p. 256.

Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis(IBAMA)/ MMA. 2007. Corredores Ecológicos: Experiências em Planejamento e Implementação. Brasília: MMA, p. 57.

Notas e Referências

  1. WILCOVE, D.S., McLELLAN, C.H. & DOBSON, A.P. 1986. "Habitat fragmentation in the temperate zone". In: Soulé, M.S. (ed.) Conservation biology: the science of scarcity and diversity. 1986. Sunderland, Massachussets: Sinauer Associates.584p. 237-256.
  2. LOVEJOY, T.E., BIERREGAARD, R.O., RYLANDS, A.B., MALCOM, J.R., QUINTELA, C.E., HARPER, L.H., BROWN, K.S., POWELL, A.H., POWEL, G.V.N, SCHUBART, H.O.R & HAYS, M.B. 1986. "Edge and other effects of isolation on Amazon forest fragments". In: Soulé, M.E. (ed.). Conservation biology: the science of scarcity and diversity. 1986. Sunderland, Massachussets: Sinauer Associates.584p. 257-285.
  3. AIZEN, M.A. & FEINSINGER, P. 1994. "Forest fragmentation, pollination, and plant reproduction in a chaco dry forest, Argentina". ECOLOGY 75(2): 330-351.
  4. FORMAN, R.T.T. 1998. Land Mosaics: the ecology of landscapes and regions. Cambridge: Cambridge University Press. 632p.
  5. FORMAN, R. T. T. & GODRON, M. 1986. Landscape ecology. New York: John Wiley Press. 619p.
  6. HADDAD, N. 2000. "Corridor length and patch colonization by a butterfly, Junonia coenia". CONSERVATION BIOLOGY 14(3): 738-754.
  7. TAYLOR, P.D. 1993. "Connectivity is a vital element of lanscape structure". OIKOS 68(3): 571-573.