Invasões biológicas e a oportunidade da Amazônia

Autoria: 
Michele de Sá Dechoum (Bióloga, MSc Biologia Vegetal, doutora em Ecologia na UFSC - Instituto Hórus de Desenvolvimento e Conservação Ambiental - mdechoum@institutohorus.org.br)* (2010)

A introdução de plantas e animais além de sua área de distribuição natural tem sido cada vez maior como resultado de oportunidades de transporte, comércio, viagens e turismo entre diferentes países e continentes. Métodos de transporte novos, rápidos e seguros fornecem vetores para que plantas, animais e outros grupos de organismos vivos atravessem barreiras biogeográficas, as quais naturalmente seriam impeditivas para seu deslocamento natural1. Muitas vezes essas espécies são introduzidas propositadamente com algum fim específico, seja para uso comercial, produção de algum produto ou mesmo para pesquisa científica; já outras, chegam acidentalmente, de carona em embarcações, produtos e mercadorias que chegam ao Brasil.


Espécies de tucunaré (Cichla monoculus e Cichla ocellaris), nativas na Bacia Amazônica, são exóticas invasoras que provocam grandes impactos nas comunidades de peixes dos rios em Bacias das regiões Sudeste e Sul do Brasil. Essas espécies são carnívoras e predam muitas espécies nativas, incluindo invertebrados aquáticos e peixes, provocando a redução da biodiversidade local. Sabe-se que Cichla ocellaris, uma das espécies de tucunarés invasores, provocou uma redução de 99% nas populações de peixes no lago Gatún, no canal do Panamá, além de inúmeras extinções (Zaret e Paine, 1973).  / Michele Dechoum

Toda espécie que está fora da sua área de distribuição natural é denominada espécie exótica. A distribuição natural de uma espécie é determinada pela combinação de fatores abióticos, como condições de relevo e clima, com fatores bióticos, relacionados às características de cada espécie e às interações com outras espécies nativas.

Limites geográficos por nós estabelecidos, como divisas de municípios, estados ou países, não podem ser utilizados para definir se uma espécie é nativa ou não de uma região. Utilizamos as regiões biogeográficas de domínio dos diferentes Biomas e ecossistemas, e as diferenças determinadas pelo clima em diferentes regiões para determinar as distribuições das espécies. Com base nisso, uma espécie da região Amazônica, por exemplo, em um estado da região Sul do país, localizado no Bioma Mata Atlântica, deve ser chamada de espécie exótica, e pode ser chamada de invasora, caso possa provocar impactos ambientais.

Os impactos de invasões biológicas são mundiais e espécies exóticas invasoras são atualmente consideradas a segunda causa global de perda de diversidade biológica, perdendo apenas para a conversão direta de ambientes naturais. Estima-se que a introdução de espécies a novos ambientes possa levar à extinção da metade dos mamíferos que hoje habitam o planeta, promovendo a homogeneização e a empobrecimento da biota global3.

O reconhecimento de que espécies exóticas invasoras constituem ameaças sérias à diversidade biológica em escala mundial ocorreu de forma politicamente abrangente em 1992, por ocasião da ECO-RIO 92, quando se estabeleceram as bases da Convenção Internacional sobre Diversidade Biológica (CDB). De acordo com a Convenção, espécie exótica invasora é toda espécie exótica cuja introdução ou dispersão  ameaça a diversidade biológica. A definição é válida para animais, plantas, fungos e microorganismos e essas espécies podem afetar todos os tipos de ecossistemas. São atualmente signatários da CDB cerca de 200 países ou partes, incluindo o Brasil, que reconhecem ser uma necessidade urgente reconhecer os impactos provocados por espécies exóticas invasoras. No Artigo 8, que trata de conservação in situ, em seu item h, está disposto que os países signatários da Convenção devem “prevenir  introduções, controlar e erradicar espécies exóticas que ameaçam ecossistemas, hábitats ou espécies”. A CDB deve estabelecer prioridades globais, diretrizes,  coletar informações e auxiliar a coordenar ações internacionais sobre espécies exóticas invasoras.

Entre as decisões tomadas nas reuniões da Convenção sobre Diversidade Biológica, a Decisão VI/23, de 2002, apresenta princípios norteadores para a implementação do artigo 8(h) e diretrizes aos governos e organizações signatárias para desenvolver estratégias para minimizar a disseminação e os impactos de espécies exóticas invasoras.

O Contexto Nacional

Constam atualmente na base de dados nacional sobre espécies exóticas invasoras 353 espécies animais e vegetais, com ocorrências registradas em todos os Estados brasileiros4. Cerca de 60% das espécies exóticas invasoras em ambientes terrestres no Brasil foram introduzidas intencionalmente. O problema é particularmente complexo, uma vez que muitas atividades com objetivos econômicos e sociais levam à introdução de espécies exóticas invasoras. Essas atividades podem ser agrupadas em:

  • introduções intencionais de espécies para uso em sistemas produtivos (agricultura, atividade florestal, pesca) e com fins ornamentais e recreativos, em contato direto com ambientes naturais;
  • introduções intencionais de espécies para uso em sistemas sob contenção ou em cativeiro (zoológicos, aquicultura, maricultura, aquariofilia, horticultura e comércio de animais de estimação), para os quais se tem conhecimento do risco de escape para ambientes naturais; e
  • introduções não-intencionais de espécies, organismos ou patógenos por meio rotas e vetores de comércio e viagens (parasitas de produtos comercializados, organismos aderidos em cascos de navios e em rodas de veículos, organismos transportados via água
    de lastro).

Água de lastro é a água do mar captada pelo navio para garantir a segurança operacional do navio e sua estabilidade. Usada desde o século XIX para aumentar a estabilidade de embarcações, a água de lastro é essencial para a segurança e a eficiência da navegação moderna, proporcionando equilíbrio para navios sem carga.  Ao mesmo tempo, representa uma ameaça séria ao  ambiente marinho, à economia e à saúde humana pelo fato de muitas espécies exóticas serem transportadas na água que preenche os tanques dos navios.

Introduções também podem ocorrer como resultados de alterações ambientais em diferentes níveis, incluindo perturbações nos ecossistemas, alterações nas práticas de uso do solo e mudanças climáticas5. Dessa forma, invasões biológicas podem ocorrer em decorrência de outras mudanças ao invés de serem os agentes de mudança elas próprias6,7.

Como ocorre frequentemente com ciclos que se retroalimentam, a degradação ambiental, seja por super-exploração ou por conversão de hábitats, promove o desequilíbrio, o que permite o estabelecimento de novas espécies exóticas que invadem e geram um processo de empobrecimento da biota e dos ciclos naturais (água, nutrientes, etc)8. Essas alterações, por sua vez, geram mais degradação e abertura de espaço para invasões secundárias - invasões facilitadas por espécies invasoras previamente estabelecidas - e assim por diante.

Invasões biológicas atuam como agentes de mudança em diversas escalas e esferas. Enquanto o comércio global é a principal causa de transporte de organismos, as maiores consequências estão antecipadamente observadas em pequena escala, com o comprometimento da pesca, por exemplo, por pequenas comunidades que dependem diretamente de recursos locais para sua sobrevivência3,9,10.

Considerando o exposto acima, entende-se que são necessários políticas, ferramentas e procedimentos nos níveis internacional, nacional e local para dar base à avaliação dos riscos associados à introdução de espécies exóticas invasoras e para estabelecer um equilíbrio entre atividades sócioeconômicas legítimas e salva-guardas apropriados para a saúde de comunidades e de ecossistemas e o bem-estar da população humana1.

O governo federal brasileiro e alguns governos estaduais estão trabalhando na elaboração e implementação de estratégias sobre o tema, que têm como objetivo a construção de políticas públicas voltadas à prevenção contra introduções, ao controle e monitoramento de espécies já presentes e à execução e apoio a atividades de capacitação, educação, informação pública e pesquisa. Para tanto, tem sido fundamental o envolvimento e a articulação com outros órgãos governamentais de educação, saúde e agricultura, da sociedade civil organizada e de setores econômicos diretamente envolvidos, para a discussão de possíveis medidas que conciliem os diferentes interesses, e que possam ser executadas por meio de instrumentos e ferramentas de gestão pública.

Em se tratando de invasões biológicas, a prevenção contra a introdução voluntária ou acidental de espécies é a melhor opção em termos de custos e esforços necessários ao manejo de áreas naturais. Caso não ocorra a prevenção e, uma vez que uma espécie exótica potencialmente invasora chega a um novo ambiente, a detecção precoce desta ocorrência e a resposta rápida de controle pode levar à solução do problema em um curto intervalo de tempo e com baixos custos. Ações tardias de controle de espécies exóticas invasoras podem levar a extensos processos de invasão para os quais é necessário se estruturar planos de controle de longa duração, sendo em muitos casos impossível se pensar em erradicação.

As ameaças e a oportunidade da prevenção na Amazônia


O mexilhão-dourado (Limnoperma fortunei), espécie nativa do sudeste asiático, foi introduzido na América do Sul via água de lastro, em 1990, no estuário do rio da Prata, na Argentina, e expandiu-se rapidamente para os trechos superiores da Bacia do rio Paraná, numa velocidade de cerca de 240 km por ano.  Em 2001, sua presença foi reportada na Usina de Itaipu e, em 2002, a espécie foi encontrada nas usinas hidrelétricas (Porto Primavera e Sérgio Motta) à jusante do Rio Paraná, em São Paulo.  Impactos econômicos relacionados ao funcionamento das usinas hidrelétricas e à pesca, bem como impactos ambientais e relacionados à saúde pública têm sido crescentes em decorrência da expansão da área e da densidade de invasão da espécie no Brasil.  / Michele Dechoum

Na Amazônia, é alarmante o ritmo de desmatamento causado pela retirada ilegal de madeira, construção de estradas, hidrelétricas, crescimento populacional e urbanização, acompanhados de infra-estrutura sócio-econômica débil ou inexistente. No entanto, ainda é notória a presença de extensas e densas áreas de floresta  remanescentes ao processo desenfreado de devastação. Algumas áreas naturais ainda se encontram mais isoladas e portanto não perturbadas. Suas populações tradicionais ainda apresentam um padrão de uso do território, recursos e práticas associadas próprias, ou seja, muito menos impactantes do que o uso e práticas produtivas convencionais. Todos estes fatores são ferramentas únicas de ação preventiva e mitigadora frente à problemática da invasão de espécies exóticas.

Esse contexto regional oferece uma oportunidade rara no mundo atual. Trata-se da oportunidade de desenhar e estabelecer um programa regional de prevenção à problemática e aos impactos de espécies exóticas invasoras sobre ambientes naturais, assim como sobre a economia, a saúde humana e animal e os aspectos culturais únicos da região. Paralelamente, abre-se a oportunidade de desenvolver, a nível regional, uma forma de uso dos recursos naturais e modos de produção fundamentados na visão de sustentabilidade social, econômica e ambiental.

Essas oportunidades já foram perdidas para a grande parte do país, onde os modelos estabelecidos se encontram consolidados e, embora não sejam irreversíveis, já modificaram a maior parte da paisagem e consumiram porção significativa dos recursos naturais originalmente disponíveis. Dentro do enfoque da oportunidade de se trabalhar preventivamente na região amazônica contra as maiores ameaças, considera-se de extrema importância que atividades como a aquicultura e a produção de biocombustíveis sejam ostensivamente controladas e monitoradas.

Temos a maior diversidade mundial de água doce no Brasil e seguimos repetindo os modelos e pacotes tecnológicos com espécies exóticas para produção aquícola, que são utilizados em todo o país e em todo o mundo, com espécies como tilápias, carpas e bagres, que trazem impactos diversos aos ecosistemas aquáticos e em pouco beneficiam financeiramente as pessoas que as cultivam. Impactos de espécies exóticas invasoras aquáticas são quase que irreversíveis na maioria dos casos, e hoje já há países, como a África do Sul, que não autoriza mais a introdução de peixes para nenhum fim no territorio e que se dispôs a incentivar a produção de peixes nativos.


Invasão de Elaies guineensis (dendezeiro) em Área de Preservação Permanente no sul da Bahia.  / Michele Dechoum

A conversão maciça de áreas naturais para o plantio de dendê (Elaies guineensis), principalmente em áreas ciliares, inclusive por meio de sistemas agroflorestais em Áreas de Preservação Permanente, é uma séria ameaça à conservação da diversidade biológica terrestre, tanto pela conversão em si quanto por processos de invasão biológica que podem ser originados a partir dessas áreas. Estima-se que, apenas no Estado da Bahia, existam 20.000 hectares de dendezeiros subespontâneos11, ou seja, que não foram plantados. O potencial de invasão da espécie na região amazônica é alto e o risco de impactos não valem a perda da diversidade biológica de plantas e animais no maior e mais bem conservado Bioma que nos restou.

 

 

Saiba Mais

Rede Temática sobre Espécies Exóticas Invasoras da Rede InterAmericana de Informação sobre Biodiversidade (IABIN). Acesse aqui.

Programa Global sobre espécies exóticas invasoras. Acesse aqui.

Rede global de informação sobre espécies exóticas invasoras. Acesse aqui.

Grupo de especialistas em espécies exóticas invasoras. Acesse aqui.

*O Instituto Hórus de Desenvolvimento e Conservação Ambiental é uma ONG focada no trabalho com espécies exóticas invasoras, tendo como principais linhas de atuação atividades de capacitação técnica, educação e informação pública sobre essas espécies, desenvolvimento de ferramentas de manejo e gestão e apoio a governos para o desenvolvimento de políticas públicas sobre o tema. O Instituto gerencia ainda a base de dados nacional sobre espécies exóticas invasoras, integrada à Rede Inter-Americana de Informação sobre Biodiversidade (IABIN).

Notas e Referências

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  2. ZARET, T. M. & PAINE, R. T. 1973. "Species introductio in a tropical lake". Science, 182: 449-455.
  3. WITTENBERG, R., COCK, M.J.W. (eds.). 2001. Invasive Alien Species: A Toolkit of Best Prevention and Management Practices. CAB International, Wallingford, Oxon, UK, xvii – 228 p.
  4. Base de Dados Espécies Exóticas Invasoras no Brasil do Instituto Hórus de Desenvolvimento e Conservação Ambiental. 2010. Acesso clicando aqui
  5. MOONEY, H. A. & HOBBS, R. J. (eds.). 2000. Invasive species in a changing world. Island Press, Washington, DC.
  6. RICHARDSON, D.M., HOLMES, P.M., ESLER, K.J., GALATOWITSCH, S.M., STROMBERG, J.C., KIRKMAN, S.P., PYSEK, P., HOBBS, R.J. 2007. "Riparian vegetation: degradation, alien plant invasions, and restoration prospects". Diversity and Distributions, 13, 126 – 139.
  7. VITOUSEK, P.M., D'ANTONIO, C.M., LOOPE, L.L., WESTBROOKS, R. 1996. "Biological invasions as global environmental change". American Naturalist, 84(5), 468 – 479
  8. SIMBERLOFF, D. & VON HOLLE, B. 1999. "Positive interactions of nonindigenous species: invasional meltdown?" Biological Invasions, 1, 21–32.
  9. GISP. 2007. The Economic Impact and Appropriate Management of Selected Invasive Alien Species on the African Continent. Report prepared by CSIR, South Africa
  10. VAN WILGEN, B.W., MARAIS, C., MAGADLELA, D., JEZILE, N., STEVENS, D. 2002. "Win-win-win: South Africa’s Working for Water programme". In: PIERCE, S.M., COWLING, R.M., SANDWITH, T, MACKINNON, K. (eds.) Mainstreaming biodiversity in development: case studies from South Africa. The World Bank, Washington D.C. p 5 - 20.
  11. MOURA, J.I.L., CIVIDANES, F.J., SANTOS-FILHO, L.P., Valle, R.R. (2008) "Polinização do dendezeiro por besouros no Sul da Bahia". Pesquisa agropecuária brasileira, 43(3), 289 – 294.