Raízes do Cerrado

@Helena Chiaretti Leonel Ferreira

Pela valorização do conhecimento tradicional e da sociobiodiversidade do Cerrado, reuniram-se dezenas de representantes de comunidades tradicionais residentes do bioma, em sua maioria do estado de Goiás. A segunda edição do evento “Raízes: encontro de raizeiros, parteiras, benzedeiras e pajés na Chapada dos Veadeiros”, ocorreu entre os dias 25 e 28 de maio, no vilarejo de São Jorge, onde fica a sede do Parque Nacional.

Em meio a toda a sua diversidade, uma condição é comum a todos: o conhecimento ancestral associado ao difícil acesso à medicina convencional. Historicamente distantes (física ou socialmente) de hospitais e postos de saúde, essas comunidades desenvolveram práticas e saberes avançados e condizentes com a sua realidade, usando dos recursos ali disponíveis - as plantas do Cerrado.

A própria natureza de seus conhecimentos se justifica pela relação desses povos com o bioma, visto por eles como uma verdadeira farmácia viva. “Cura para vitiligo, lúpus, rosácea, artrite reumatóide, tudo no Cerrado”, afirma dona Neide, raizeira moradora de Pirenópolis. O preparo de chás, xaropes, unguentos e garrafadas foi patrimônio herdado de seus pais e avós e agora buscam novos aprendizes. Mas esse conhecimento não é estático e o desafio atualmente é descobrir como mantê-lo vivo apesar da crescente perda de espécies e espaços.

Os saberes dos povos do cerrado são ameaçados junto com o que resta do bioma. Onde antes era cerrado, hoje há soja, milho e capim braquiária. As plantações também afetam criticamente as pequenas áreas preservadas do entorno, que se contaminam por ar e água pela pulverização de agrotóxicos. Como fazer remédio de uma planta que cresceu coberta de veneno? É uma das questões levantadas por eles. Wilson Morais, raizeiro e filho da conhecida parteira Dona Flor do Moinho, conta que há também uma dificuldade de acesso a áreas que, embora particulares, foram tradicionalmente usadas para coleta de ervas medicinais: “Não ligavam de a gente entrar e pegar, hoje não deixam mais”.

Segundo Daniela Ribeiro, organizadora do evento e bióloga especialista em fitoterapia pela Universidade Federal de Goiás, o manejo incorreto de espécies por aqueles que não conhecem os procedimentos adequados (como e quando fazer a coleta) acaba por ameaçá-las. É o caso do barbatimão, usado como cicatrizante, que dificilmente se encontra exemplares adultos. Também aponta a necessidade do replantio, prática que foi tema de uma das oficinas ministradas pelos comunitários no encontro.

A superexploração dos recursos também representa grave ameaça às espécies, na medida em que seus benefícios tornam-se conhecidos pela sociedade e a demanda por seu consumo cresce. Apesar de a Convenção da Diversidade Biológica (CDB), tratado internacional que regulamenta a questão do acesso a recursos genéticos e conhecimentos tradicionais, prever a repartição justa e equitativa dos benefícios gerados a partir do uso desses recursos, isso raramente se reflete em ganhos para as comunidades que desenvolveram e que mantém essa sabedoria.

A necessidade de valorização dos conhecimentos tradicionais está intrinsecamente associada à valorização do bioma, na medida em que a perda desses conhecimentos acompanha a perda de biodiversidade, e vice versa. No entanto, o que se vê é o movimento contrário. Os raizeiros, assim como os pajés, parteiras e benzedeiras, sofrem retaliações e desmoralizações por parte de órgãos do governo, indústrias farmacêutica e cosmética, mídia e instituições religiosas, afirma Daniela. O sofrimento que isso causa é uma constante nos depoimentos dos participantes do evento, e muitas vezes partem de dentro da própria comunidade: “Eu sempre tive vergonha de falar o que eu era, o que eu sabia. Me livrei desse medo. Não sou feiticeiro, não sou charlatão. Eu sou defensor da vida”, afirma seu João Vicente da Costa, raizeiro e benzedeiro da região de Sanclerlândia, Goiás.

A contradição está no fato de que a maior parte dos remédios da medicina alopática e dos cosméticos e produtos de higiene contém uma enorme bagagem de conhecimentos tradicionais embutida. Em rodas de conversa, foi apontada a necessidade de união dos conhecimentos tradicionais aos científicos e de políticas públicas que viabilizem a construção compartilhada do sistema de saúde com as comunidades, que valorize a multiculturalidade e biodiversidade do país.

Parque Nacional

Na manhã de sexta-feira, os raizeiros guiaram grupos de participantes para um reconhecimento de plantas medicinais do cerrado pelo Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Nessa caminhada foram encontradas espécies que, embora de uso tradicional, são raramente vistas em suas regiões hoje em dia. Respeitando as condições da unidade de conservação, toda a coleta do material usado nas oficinas foi feita somente em áreas externas ao parque.

Por se tratar de um dos maiores contínuos de cerrado preservado remanescente, o Parna protege diversas espécies sensíveis da fauna e da flora, ou seja, que precisam de grandes áreas para manter uma população ecologicamente viável. Atualmente, diversas espécies endêmicas e ameaçadas de extinção são encontradas quase unicamente dentro do parque.

Além de trazer benefícios econômicos para a região através do turismo sustentável, as comunidades vêem o parque como uma proteção contra o avanço da agropecuária extensiva, que ameaça seus territórios tradicionais com a especulação fundiária.

A existência da UC contribui para a manutenção dos processos ecológicos, biodiversidade e dos cursos d’água regionais, fatores indispensáveis para preservar esses conhecimentos centenários para as próximas gerações. A ampliação de seus limites, ação presente na pauta socioambiental dos últimos anos e na iminência de se concretizar, irá assegurar que essa capacidade se exerça de forma efetiva para toda a região.