'A floresta é minha vida': extrativistas driblam desequilíbrio ambiental para manter Amazônia de pé

Terra - www.terra.com.br - 25/02/2026
'A floresta é minha vida': extrativistas driblam desequilíbrio ambiental para manter Amazônia de pé
Reserva Cazumbá tenta blindar devastação e tem 98% da floresta preservada

Adrielle Farias
25 fev 2026 - 04h58

Para quem vê de fora, pode ser um pouco complicado entender a relação que os povos da Amazônia têm com a floresta. Isso porque não é algo palpável - e até difícil de descrever - mas completamente cheio de sentidos. Essas pessoas escolhem todos os dias preservar o território em que vivem e tirar para elas apenas o que é subsistência. Esse cuidado faz com que a Amazônia ainda tenha árvores em pé e com que os efeitos das mudanças climáticas não se agravem de maneira abrupta inclusive para aqueles que moram a quilomêtros de distância dali.

Esta matéria especial foi produzida com o apoio da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) em parceria com o Instituto Talanoa

E foi justamente esse sentimento do inexplicável que moveu a minha viagem até Reserva Extrativista do Cazumbá-Iracema, no Acre. Queria olhar nos olhos e ouvir dos protagonistas desta história como eles ainda mantém a Amazônia de pé mesmo marginalizados da discussões oficiais sobre o futuro do planeta.

Para chegar até a Reserva, encarei 2h15 de viagem da capital Rio Branco até Sena Madureira em uma estrada de solo argiloso que sofre atoleiros frequentes. Foi necessário dormir na cidade do interior acreano para seguir viagem no dia seguinte, quando peguei mais 10 km de estrada cheio de solavancos por causa dos buracos até chegar ao município de Manoel Urbano.

No local, o barqueiro Jerivã me aguardava para me levar para o destino. O caminho até o porto improvisado era todo enlamaçado. Meus pés ficaram escondidos embaixo da lama, que atingiu a altura do meio das minha canelas.

Como a região Norte está no inverno amazônico, as chuvas têm sido intensas no Acre desde o mês de dezembro. O rio enche, transborda, e seca novamente. Esse movimento que antes era padronizado, por assim dizer, agora não tem mais data para acontecer.

Deixamos o local por volta das 6h e seguimos pelo Rio Caeté, cheio de curvas ao som dos pássaros e bichos da floresta. O caminho parecia cena de filme. Ora estreito, ora largo. Árvores por todos os lados. O som que ecoa da floresta se mistura com o barulho do motor ao mesmo tempo em que o sol ilumina as árvores como quem dá bom dia. Com esse cenário, fica muito difícil não romantizar a grandiosidade da maior floresta tropical do mundo e, ao mesmo tempo, se gabar do privilégio que é estar no meio dela às 6 horas da manhã de uma terça-feira qualquer.

Depois que o barco parou para abastecer duas vezes no 'meio do nada', chegamos à Resex Cazumbá por volta das 9 horas. Lá, fui recebida por seu Manoel Maia, meu guia. Ele me apresentou todo o núcleo da reserva, onde fica, inclusive, o escritório do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio), responsável por administrar o território.

A Reserva Extrativista do Cazumbá-Iracema é uma unidade de conservação federal criada em 19 de setembro de 2002. Compreende uma área de 750.794 hectares, ou seja, quase cinco vezes o tamanho do município de São Paulo. Ela é banhada pelas águas dos rios Caeté e Macauã, além de ter igarapés no entorno. A divisa é feita com os municípios de Sena Madureira e Manoel Urbano.

Idealizadas por Chico Mendes (1944-1988), as Reservas Extrativistas foram criadas para proteger as florestas e a biodiversidade, além de garantir o modo de vida e cultura das populações tradicionais sem agredir o meio ambiente. A Cazumbá é a segunda maior Resex do Acre e está entre as maiores do Brasil.

Cerca de 60 famílias vivem no núcleo da região, enquanto outras 500 pessoas estão espalhadas pelo restante do território. A unanimidade são os impactos do clima extremo: a seca demasiada, o rio intrafegável, a morte dos peixes e plantações que não vingam.

Os principais produtos extraídos da floresta são açaí, patauá, pupunha, buriti, castanha e o látex. A subsistência da população também tem como base a pesca, a caça e a criação de gado.

Enquanto converso com os moradores da comunidade, percebo que eles preferem ficar fora de suas casas. Questionei a alguns deles sobre o motivo e a resposta foi consensual: "Muito quente". As árvores que rodeiam a Resex são o refúgio de sombra e vento.
'Floresta é minha vida'

Manoel Cerqueira Maia, o meu guia, tem 52 anos e nasceu na Resex, onde vive até os dias de hoje com a família. Ele é casado e pai de três filhos. Todos os dias, nesta época de inverno amazônico, levanta cedo para colher castanhas, acompanhado de outros extrativistas da região. A parte da tarde é dedicada à roça ou aos trabalhos de pasto.

Já no verão amazônico, que vai de julho ao mês de novembro, o trabalho é dedicado ao corte da seringa, mas, de uns tempos pra cá, ele precisa se levantar cada vez mais cedo por conta do calor.

"Quando estou cortando seringa, eu saio de casa 1h da manhã. Volto por volta das 12h, tomo um banho, almoço e depois vou para a roça ou para a pastagem. No verão, a gente também planta feijão de praia, melancia, batata doce.. Com tudo eu mexo um pouco", conta.

Agora, precisa acordar de madrugada para cortar seringa por causa do tempo. "Está muito quente. Depois que o dia amanhece, se você for cortar a seringa já quando o sol está quente, ela não produz o leite. Nem sempre foi assim. Dos tempos desses para cá foi que a gente começou a notar que de dia ela dá pouco leite, mas com a frieza da noite o leite é melhor. De uns 15 anos pra cá já teve uma mudança grande."

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Florestas:Reflorestamento

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