Na Serra dos Órgãos, a biodiversidade floresce em cores e encanta
Estudo mostra que o parque no Estado do Rio tem a mais exuberante flora entre as áreas de conservação do país, superando até as da Amazônia
28/12/2025
Ana Lucia Azevedo
Em tons de vermelho, roxo, rosa, amarelo e verde, muito verde, a exuberância da biodiversidade se mostra mais no Parque Nacional da Serra dos Órgãos (Parnaso) do que em qualquer outra área protegida do Brasil. Um novo estudo revelou que a unidade de conservação na Região Serrana fluminense tem a maior diversidade de flora, superando inclusive as da Amazônia, mesmo que algumas delas sejam centenas de vezes maiores.
O Parnaso tem 3.026 espécies, quase 500 a mais do que o segundo parque com maior riqueza registrada - o Parque Nacional do Itatiaia, também no Rio. Há 102 ameaçadas de extinção e 28 outras exclusivas.
Publicada na revista científica Discover Conservation, a pesquisa evidencia a biodiversidade da Mata Atlântica, o mais devastado dos biomas, do qual restam meros 12,5% das florestas originais.
Floresta impressionou alemão
De autoria de Marcus Nadruz e Cecília Cronemberger, o estudo comprova que, a despeito de toda a pressão à sua volta, as florestas da Serra dos Órgãos preservam o encantamento que fez Carl Von Martius se derramar em elogios por elas no início do século XIX. O alemão, organizador da Flora Brasilienses (ainda hoje a Bíblia da botânica do Brasil), percorreu mais de dez mil quilômetros indo até a Amazônia, mas nada o impressionou tanto quanto a riqueza da Mata Atlântica fluminense.
"Embora eu tenha visto em outras partes do Brasil muitas e variadas florestas primitivas, nenhuma me pareceu mais bela e mais amena do que aquelas que, perto da cidade do Rio de Janeiro e recobrindo as encostas dos montes que recebem o nome de Serra do Mar (Serra dos Órgãos), se estendem por boa parte desta província de São Sebastião. Estas florestas me agradaram muito mais que as outras e ficaram para sempre gravadas no meu espírito, não só porque fossem primitivas e, com isso, um presente para os meus olhos espantados, mas na verdade porque excedem em beleza e suavidade", escreveu Martius.
A Mata Atlântica é reconhecida por ter a maior diversidade de árvores por hectare do mundo, um recorde atestado no sul da Bahia, no Parque Estadual da Serra do Conduru. Lá foram encontradas 454 espécies diferentes em apenas um hectare (cerca do tamanho de um campo de futebol), superando a Amazônia em densidade. O estudo é de 2005, mas segue como referência, e o recorde permanece a despeito do avanço das pesquisas na Amazônia, muito maior e mais bem preservada.
O parque fluminense tem meros 20 mil hectares, ainda assim cerca de 4,5 vezes mais espécies do que o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque (PNMT), 200 vezes maior e localizado em Amapá e Pará. O PNMT é a maior unidade de conservação federal do país.
- Isso dá ideia da magnitude impressionante da flora do Parnaso. É uma joia da natureza e tão perto de áreas urbanas. Isso é um assombro - destaca o chefe do Parnaso, o biólogo Ernesto Viveiros de Castro.
O botânico Marcus Nadruz, do Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio, explica que a riqueza das unidades de conservação da Mata Atlântica se deve, sobretudo, a dois fatores. O primeiro é o elevado número de espécies exclusivas, uma característica marcante da Mata Atlântica. O outro é o fato de o bioma ser mais bem estudado.
Viveiros de Castro, ressalta, porém, que todos os estudos até agora apontam uma concentração de riqueza maior na Mata Atlântica. Ele explica que isso se deve também à grande variedade de relevo e de clima dentro do bioma.
A Mata Atlântica, em especial a da Serra do Mar, da qual os Órgãos são parte, tem grandes variações de altitude (do nível do mar a mais de 2.200 metros) e de umidade (entre as faces voltadas para a costa e a do interior). Isso permitiu que uma variedade de ecossistemas, muito diferentes entre si, tenha se desenvolvido.
- Por mais que a Mata Atlântica tenha sido estudada, ela ainda nos surpreende. Não raro se descobrem novas espécies e o nível endemismos, de espécies exclusivas, é elevadíssimo - frisa Viveiros de Castro.
Microclimas especiais
Exclusividade é uma característica da Mata Atlântica da qual o Parnaso é vitrine. Espécies de orquídeas, bromélias e de outras flores silvestres se adaptaram a condições de temperatura e umidade muito específicas.
No parque, que se estende por Guapimirim, Magé, Petrópolis e Teresópolis, a floresta muda à medida que sobe a serra e isso fica visível, sobretudo, em forma de flor.
- Temos microclimas muito especiais. Nos campos de altitude do parque, temos flores como a cravina-do-campo que é um símbolo do montanhismo. Mas a mata, ela toda, é cheia de orquídeas, bromélias - diz Viveiros de Castro
https://oglobo.globo.com/um-so-planeta/noticia/2025/12/28/na-serra-dos-orgaos-a-biodiversidade-floresce-em-cores-e-encanta.ghtml
Biodiversidade:Flora
Related Protected Areas:
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