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FSP, Opiniao, p. A4
31/10/2017
A caminho do desastre

A caminho do desastre

Nabil Bonduki
Arquiteto e urbanista, é professor da FAU-USP. Em São Paulo, foi vereador, relator do Plano Diretor Estratégico e secretário municipal de Cultura. É autor de 12 livros.
Escreve às terças-feiras.

Dia 6 de novembro inicia-se em Bonn, na Alemanha, a 23o COP (Conferência de Mudanças Climáticas), e o Brasil tem "ótimas" notícias para levar. O Observatório do Clima divulgou que as emissões de gases de efeito estufa aumentaram 8,9% em 2016 em relação a 2015, alcançando 2,278 bilhões de toneladas de gás carbônico equivalente (CO2e).
O incremento, o maior desde 2004, causa perplexidade, pois ocorreu em um ano em que o PIB nacional recuou 3,6%. O país é a única grande economia do mundo que aumenta as emissões sem gerar riqueza. Uma proeza, pois, normalmente, as emissões se relacionam com crescimento.
Com essa performance, ocupamos o 7o lugar de maior poluidor do planeta, contribuindo com 3,4% do total mundial de CO2e. Uma porcentagem superior ao peso da população e do PIB brasileiros no planeta (respectivamente, 2,7% e 2,5%), apesar de a base enérgica do país ser predominantemente limpa, baseada em hidroelétricas.
O desafio do desenvolvimento sustentável é combinar crescimento econômico com proteção ambiental e distribuição de riquezas. Mas o modelo econômico que está sendo implementado no país caminha exatamente no sentido oposto.
A agropecuária, único setor que cresce no PIB de 2017, responde por 74% das emissões. Baseada em desmatamento ilegal, abertura de pastagens com pecuária extensiva e produção de grãos com uso intensivo de fertilizantes e agrotóxicos, a agricultura está muito distante de ser de baixo carbono.
O agronegócio tem grande peso no Congresso e negocia o apoio ao governo em troca de flexibilização de restrições ambientais. Se a questão ambiental já não era priorizada com Dilma, no governo Temer a sensação é que "liberou geral".
Na última semana, edifícios e equipamentos do Ibama e do Instituto Chico Mendes (ICMBio) em Humaitá (AM) foram destruídos por garimpeiros descontentes com a ação fiscalizadora dos órgãos ambientais.
Incêndio destruiu 68 mil hectares do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (28% da cobertura vegetal); suspeita-se de uma ação criminosa de agricultores contrários à sua ampliação. A seca que afeta o Distrito Federal está relacionada com a expansão da monocultura no cerrado.
São fenômenos isolados, mas que, combinados com muitos outros, geram resultados globais desastrosos.
Com enormes reservas de água, biodiversidade e florestas, o Brasil poderia ser uma potência ambiental. No futuro, a água será mais importante que o petróleo. Mas a visão econômica vigente desconsidera o desenvolvimento sustentável.
O descaso do governo, do Congresso e até mesmo da sociedade com o desastre ambiental é impressionante. É uma conta que já estamos pagando e que ficará mais cara no futuro.

FSP, 31/10/2017, Opinião, p. A4

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