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O Globo, Opiniao, p. 7
31/10/2011
A ilha onde nada acontece

A ilha onde nada acontece

Rodrigo Terra

Fernando de Noronha é o bicho, mas a estrutura é de cão chupando manga, principalmente para quem não se dispuser a pagar a diária de R$ 1.500 por pessoa da melhor das suas pousadas. Logo no aeroporto, a taxa de proteção ambiental arrepia os cabelos. Uma família de quatro deixa de cara mil pratas para ficar uma semana se perguntando por que então a situação do aeroporto é de petição, com infiltração nas paredes e pista quase curta demais.
Quanto mais se fazem os programas incríveis da ilha, mais chama a atenção o recorrente abandono material. A consciência da necessidade de preservação ambiental despertada na população não se transfere para a de cidadania. Politicamente, o arquipélago é um não-nada, coitado.
Pertence a Pernambuco, que o recebeu de mão beijada do Rio Grande do Norte, de onde fica 200 quilômetros mais perto, mas não tem autonomia político-administrativa, governado por um nomeado do governador.
Noronha talvez seja, por isso, o único recanto do Brasil onde nada acontece no dia 3 de outubro.
Entre um mergulho de garrafa e uma visita à terceira praia mais bonita do Brasil, a Baía do Sancho, se aprende com o atlético Cachorrinho, 28 anos, nascido e criado na ilha, dono de uma birosquinha que serve fritas as sardinhas pescadas em frente, que não pode simplesmente ir à loja de ferragens e comprar uma privada para substituir a que quebrou.
Precisa-se antes pedir uma autorização formal do administrador para, com o papel em mãos, fazer a substituição, depois de receber a visita do fiscal que verificará se o problema de fato existe.
A situação é para durar. Protestos também são controlados. Dona Menina, que se transferiu para Noronha há 25 anos para acompanhar o médico Lauro, seu marido, com quem acabou abrindo uma pousada, cochicha para um hóspede que quem resolve exigir que os 30 milhões de reais arrecadados por ano só com a taxa que deveria proteger o meio ambiente fiquem na ilha sofre ameaça de morte.
O clima de patrulhamento do uso dos recursos naturais e da vida no ecossistema é com certeza justificado, mas acontece sob uma atmosfera ditatorial. Na Baía dos Porcos, verdadeiro santuário de espécies aquáticas, um fiscal da natureza postado sobre uma falésia de formação vulcânica a 30 metros de altura desanda a soprar o seu apito assim que enxerga o garoto de 11 anos se aproximar de uma piscina natural encravada na pedra lá embaixo, onde, grita, "é proibido tomar banho!"
Quem já visitou Formentera, no mar Mediterrâneo que banha a Espanha, garante que ficamos a anos-luz de distância em termos de infra. E, é claro, o arquipélago ainda rende algumas outras taxas para o tesouro de Pernambuco. Os trezentos reais por cabeça do caríssimo mergulho de garrafa, por exemplo, embutem outra taxa para o Ibama, e as pousadas que recebem os hóspedes que já pagaram para entrar na ilha também são obrigadas a dar a sua contribuição para o governo.
Mas é difícil pensar em qualquer outra coisa senão a maravilha de estar vivo depois de emergir da aventura que transporta para um mundo indescritível de cores e formas. O contato com esse universo submarino só é possível porque Noronha é a ponta de um maciço vulcânico com setenta metros de base submersa onde a profundidade não passa de cem metros. Ali, vindo da África, desemboca a morna corrente marinha subequatorial, carregadinha de plânctons, atraindo toda espécie de vida.
Ao redor, a fossa do Atlântico mergulha a 4.000 metros de profundidade.
No aeroporto de Noronha, há, como em Cuba, um sistema rigidamente controlado por catracas para entrada e saída, onde quem não tiver pagado a salgada taxa não entra ou, conforme o caso, não sai, até que a pague. Aliás, o que faz o santuário sobreviver com tanta exuberância é que, como qualquer pescador sabe, quem violar as regras de proteção ambiental é expulso da ilha. Isto depõe contra a ideia de que o jeitinho brasileiro é imbatível e dá a impressão de que o continente teria a ganhar com a importação dessa conscientização para outros setores.
Mas o som da catraca que divide o saguão e a sala de embarque do castigado aeroporto desperta do sonho.
Noronha ainda é assombrada pela sua história recente de sede do presídio para onde eram mandados presos políticos como o governador Miguel Arraes e deve à consolidada democracia brasileira uma detalhada prestação de contas.

Rodrigo Terra é promotor de justiça no Rio.

O Globo, 31/10/2011, Opinião, p. 7