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O Globo, Rio, p. 10
07/05/2014
Alerta ligado no paraiso

Alerta ligado no paraíso
Moradores da Ilha Grande cobram controle no acesso de turistas e querem mais fiscalização

EMANUEL ALENCAR
emanuel.alencar@oglobo.com.br

A cena se repete nos feriados ensolarados: centenas de turistas ocupam a pequena faixa de areia da Vila do Abraão, na Ilha Grande, entopem as poucas lixeiras dispostas no vilarejo e se banham em águas impróprias. Ir ao banheiro é tarefa complicada: não há mictórios públicos na orla. Porta de entrada de um paraíso ainda preservado, a pacata rotina do Abraão, em Angra dos Reis, tem sido alterada por um crescente entra e sai de visitantes sem qualquer fiscalização pelo poder público. Ao insuficiente contingente da Polícia Militar na vila - são apenas cinco policiais atuando diariamente no Abraão, segundo a população local - se somam a falta de saneamento e a escalada do consumo de drogas, como cocaína e crack. Por isso, moradores são unânimes em afirmar: o Abraão é hoje um paciente que dá os primeiros sinais de uma doença que pode se tornar crônica, se não for tratada o quanto antes.
Com cerca de 4 mil moradores fixos, o vilarejo recebe nos feriados até 5 mil visitantes. Com mais gente circulando, comerciantes vibram com a escalada das receitas. Mas os ônus também assustam. No fim de junho de 2013, Samanta Raimundo Ramos foi esfaqueada, pelas costas, por uma adolescente. Vítima de uma discussão banal, deixou quatro filhos. No dia 19 de outubro, Cláudio Luiz de Souza Cabral, de 45 anos, foi morto durante uma discussão. Ele tentava apartar uma briga na região central do Abraão e recebeu um pontapé no peito. Desorientando, bateu com a cabeça no chão.
Ainda encarados por muitos moradores como episódios isolados, os fatos refletem as mudanças que vêm chacoalhando o pedaço de terra cercado por belas montanhas e praias. Esta é a avaliação de Alexandre Oliveira, morador do Abraão há 30 anos e membro do Comitê de Defesa da Ilha Grande (Codig).
- Esse processo de degradação vem acontecendo há algum tempo. A gente costuma achar que os problemas são pontuais. No final, cria-se um monstro. Falta estrutura para receber o pessoal. Como não tem nenhum controle, o crescimento dos problemas é exponencial. As polícias, no Brasil, não têm um olhar sistêmico e preventivo. Só atuam quando a crise se instala - analisa.
Só 0,47% do orçamento para o Turismo
A rede formal de hotelaria não vem dando vazão ao enorme contingente de turistas. São aproximadamente mil leitos oficiais no Abraão. Entretanto, as discussões em torno da necessidade de estabelecer a capacidade de suporte - uma espécie de "lotação máxima" permitida - num lugar que abriga uma Área de Proteção Ambiental (APA) e um parque estadual não avançam. O Instituto Estadual do Ambiente (Inea) ainda prepara um estudo definindo todos os parâmetros. Nada, porém, deve sair do papel em menos de um ano.
Militar aposentado e editor de um jornal local, Nelson Palma confessa se surpreender com o paradoxo de a ilha atrair cada vez mais gente ao passo em que a desordem aumenta a cada ano. Ex-dono de um camping, Palma defende há mais de uma década rigor maior no acesso ao Abraão. Ele mora numa casa de 200 metros quadrados e diz que venderia o imóvel por R$ 1 milhão, hoje. Há 20 anos, comprou o terreno por R$ 35 mil.
- Não se trata de proibir o acesso de ninguém. O que defendemos são normas claras. Tememos que o Abraão se transforme numa Porto Seguro de uns anos atrás. Os problemas podem acabar afastando os visitantes. Saneamento não existe: a estação de tratamento de esgoto é de primeiro mundo, mas não funciona. O problema das drogas é o mesmo enfrentado em várias partes do mundo - diz.
Uma análise do orçamento municipal da prefeitura de Angra para 2014 ajuda a explicar o descompasso na rotina da Ilha Grande. Dos R$ 973,5 milhões previstos para este ano, foram destinados para ações no meio ambiente somente R$ 14,9 milhões (ou 1,5% do total). Para a TurisAngra estão previstos R$ 4,5 milhões (ou 0,47%). As pastas que mais recebem recursos são Obras e Habitação, com R$ 134 milhões, ou 13,77%.
A prefeitura afirma que a Vila do Abraão será totalmente urbanizada com recursos do Programa de Desenvolvimento do Turismo (Prodetur), com contrapartida do município. As obras estão orçadas em R$ 23,7 milhões. O projeto prevê a retirada dos fios de iluminação e a instalação de um sistema subterrâneo, saneamento básico, além de iluminação especial e reurbanização da orla. A maior preocupação do poder público é com o lado direito do Abraão, onde ficam prédios estaduais, como o Inea. O processo atrasou porque, segundo a Secretaria estadual de Obras, a documentação foi encaminhada para análise do Tribunal de Contas do Estado. A concorrência está agendada para este mês, e as obras devem começar até julho.
- Vamos construir uma praça, que vai receber o nome do mestre Constantino Cokotós (funcionário do antigo presídio da Ilha Grande). Também ficará neste local a lancha Tenente Loretti, que reformaremos. A embarcação foi usada no transporte de presos do Rio para a Ilha Grande, pilotada por Cokotós. Vamos formar um comitê para acompanhar o andamento das obras. Ninguém será pego de surpresa - diz a prefeita de Angra, Conceição Rabha (PT).
Entre os moradores, porém, o clima ainda é de desconfiança. Muitos dizem que diversas reuniões para discutir melhorias no Abraão já foram feitas, nos últimos anos, sem que resultados concretos aparecessem. A falta de regulamentação do transporte marítimo, que liga Mangaratiba e Angra à Ilha Grande, é um dos principais problemas a serem enfrentados.
- Sinceramente, não acredito mais em mudanças. A prefeitura discute com a gente, promete fazer, mas até hoje, nada. Só recolhe o lixo, e olhe lá - afirma Cesar Augusto dos Santos, dono de uma das mais antigas pousadas do local.
O governo do estado estuda a implementação de um Batalhão de Policiamento em Áreas Turísticas (BPTur) no Abraão. Em nota, a Polícia Militar informou que, por uma questão de estratégia, não divulga efetivo da Ilha Grande.
*Colaborou Paulo Roberto Araújo

O Globo, 07/05/2014, Rio, p. 10

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