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Gazeta Digital - http://www.gazetadigital.com.br
05/04/2011
Bolsoes verdes guardam surpresas

A Cuiabá de Silva Freire, de Manuel de Barros e tantos outros poetas sempre foi um lugar de muitas matas, rios abundantes e animais do Cerrado e Pantanal que podiam ser avistados em muitos cantos da cidade, pertos de lagoas e nas margens dos córregos e rios. No seu percurso pelo século 21, a paisagem mudou e a vegetação típica do Cerrado mato-grossense está apenas em fragmentos onde ainda é possível avistar pequenos mamíferos, roedores e aves. O processo de ocupação da área urbana de Cuiabá foi e continua sendo feito, predominantemente, sem planejamento ou de forma inadequada às necessidades de manutenção do equilíbrio ambiental que permita a conservação das nascentes e dos córregos e das áreas verdes.

Mesmo com unidades de conservação como os parques Mãe Bonifácia, Massairo Okamura, Tia Nair, Zé Bolo Flô, Morro da Luz, Horto Florestal e áreas de preservação permanentes (APPs) em boa parte dos 24 córregos e dos rios Cuiabá e Coxipó, a cidade vem perdendo sua vegetação de maneira acelerada, mais intensamente nos últimos cinco anos.

As matas mais conservadas estão na região do rio Coxipó e no Parque Mãe Bonifácia. Ainda com poucos estudos realizados, a de maior importância é o extenso corredor de vegetação entre a rodovia do Moinho (bairros Santa Cruz, Recanto dos Pássaros, Parque Universitário, Jardim Imperial), a mata ciliar do rio Coxipó, Horto Florestal, Hotel Fazenda Mato Grosso e o bairro São Gonçalo Beira Rio.

O pesquisador e ornitólogo da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Dalci de Oliveira, ressalta que o corredor de áreas verdes neste ponto da cidade permite a conectividade entre elas. "Como não existe ali uma fragmentação das áreas, os animais circulam melhor e sobrevivem com facilidade. Essa região mantém a vegetação típica de Cuiabá e por isso sua característica é de temperaturas mais baixas que no centro da cidade", diz.

A Faculdade de Ciências Biológicas da UFMT iniciou este ano um diagnóstico da distribuição e status da fauna de todas as áreas verdes da capital. Lideram as pesquisas de campo os professores Dalci Oliveira e Viviane Maria Guedes Layne, do Departamento de Botânica e Ecologia, especialista em população de mamíferos. De binóculos e máquina fotográfica nas mãos, os biólogos vão registrando as populações de cutias, esquilos, macacos e aves. "São bichos que habitam a cidade, mas que correm o risco de desaparecer por causa da fragmentação das áreas verdes", diz Dalci. Viviane alerta para a presença de animais exóticos como os gatos e cachorros que acabam entrando nas áreas verdes e atacando a fauna local. "As cutias, esquilos e aves são os mais atacados. Eles acabam desaparecendo destas áreas e o resultado pode ser observado por qualquer pessoa, as matas ficam vazias, silenciosas", comenta.

Dalci diz que a maioria dos projetos de conservação da fauna e flora é em grandes áreas no interior do Estado e a ecologia urbana fica sempre de fora. Não faz sentido já que a maioria da população vive nas cidades e os seres humanos precisam da natureza para sobreviver. As áreas urbanas, principalmente em lugares quentes como Cuiabá, necessitam de áreas verdes para garantir qualidade de vida", destaca.

"Notamos também o desaparecimento dos quintais e ruas arborizadas, além do insuficiente número de praças públicas convenientemente arborizadas e de parques municipais que formam áreas de descontração e lazer para a população em geral, especialmente a mais carente", diz o geólogo e professor Prudêncio Rodrigues da UFMT. Uma solução já apontada pelos pesquisadores é a preservação de Zonas de Interesse Ambiental (Zias) para impedir a ocupação desordenada e a degradação ambiental. Três destas áreas estão localizadas na nascentes do córrego Baú, no setor Norte da cidade, com uma área de 174,137 hectares, e na Barra do rio Coxipó, na confluência com o Cuiabá, nas proximidades da avenida Beira Rio e da colônia São Gonçalo, apresentando área de 99,833 hectares.

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