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Veja, Ambiente, p.114
04/05/2005
Cacada ecologica

Caçada ecológica
Cientistas e ambientalistas defendem o abate de jacarés na Amazônia
Leonardo Coutinho
O Ibama autorizou o governo do Amazonas a matar jacarés na reserva extrativista Mamirauá, a 450 quilômetros de Manaus. É a primeira vez que as autoridades liberam a caça de animais silvestres na Amazônia. O abate, ainda em fase de experiência, é uma recomendação científica. Pesquisadores que monitoram a vida desses répteis chegaram à conclusão de que a proibição da caça, desde 1967, fez mais do que livrar a espécie do risco de extinção. Os jacarés viraram uma praga que infesta os rios da região, produz prejuízos e atazana a vida dos pescadores. Lideranças de diversas comunidades reclamam até de ataques de jacarés a humanos e da rotina de destruição das redes de pesca. Em alguns pontos da Amazônia, os cientistas chegaram a contar 2.000 jacarés-açus em 1 quilômetro de rio. Nos lagos onde se realizaram as primeiras caçadas, estima-se que existam mais de 2 milhões de exemplares.
Nesta fase, o Ibama autorizou o abate de 200 animais de duas variedades – o tinga e o açu. Dependendo do resultado da análise sanitária da carne, mais 5.000 poderão ser mortos até outubro. Depois, concluída a construção de um abatedouro flutuante, deverá haver a liberação para a caça de até 100.000 répteis por ano. "Já existem empresários interessados nesse investimento", revela o veterinário Augusto Kluczkovski Júnior, chefe do departamento de animais silvestres da Agência de Florestas do Amazonas. Segundo a coordenadora do projeto de abate, a engenheira florestal Sônia Canto, o quilo de carne vale até 20 reais. O couro dos jacarés abatidos foi vendido para curtumes do Rio Grande do Sul. No mercado internacional, o centímetro linear do couro da barriga vale até 25 reais, de acordo com o biólogo Ronis da Silveira, da Universidade Federal do Amazonas. O jacaré-açu, o maior predador da Amazônia, pode ter 5 metros de comprimento e pesar 350 quilos. O comércio valoriza os exemplares com pelo menos 40 centímetros de circunferência na área da barriga. "Alguns animais que abatemos chegam a ter três vezes mais que isso", diz Sônia.
A caça – ou pesca, como dizem os caboclos – é realizada durante a noite. Embarcados em lanchas de alumínio, os ribeirinhos usam arpões para acertar os jacarés na cabeça ou na boca, evitando danos ao couro. Depois que o animal é arpoado, começa uma luta para cansá-lo que pode durar até meia hora. Quando o bicho é puxado para a lateral da embarcação, usa-se o foco de uma lanterna para cegá-lo e deixá-lo paralisado. Assim, pode-se amarrar sua boca sem risco de levar uma dentada. Ainda vivo, o jacaré é levado para uma balsa e pendurado de cabeça para baixo, a posição ideal para a sangria. A técnica é importante para garantir a qualidade da carne.
Para os ambientalistas, a caça pode ser recomendada como uma alternativa para o equilíbrio ecológico, em casos de superpopulação. No Rio Grande do Sul, o único estado brasileiro onde a caça esportiva é regulamentada, existem temporadas de abate de perdizes e marrecas-piadeiras, entre outros animais perniciosos às lavouras e a outras espécies. Só no ano passado, a temporada de caça ao canguru, na Austrália, deu cabo de 4,4 milhões de animais. Ainda restam mais de 50 milhões deles. Na Amazônia, só pescadores artesanais deverão participar das caçadas de jacaré.

Veja, 04/05/2005, p. 114