As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos.

Valor Economico, Brasil, p.A2
06/03/2018
Cientista defende urgencia da protecao marinha no pais

Cientista defende urgência da proteção marinha no país

Daniela Chiaretti

A cientista americana: Sylvia Earle: "Nosso futuro depende de nossas escolhas" criação do mosaico de unidades de conservação marinhas que o Ministério do Meio Ambiente espera anunciar este mês ganhou uma defensora lendária - a oceanógrafa americana Sylvia Earle, considerada o maior nome mundial em pesquisas sobre oceanos. "Estamos vivos porque os oceanos existem", disse ela ontem, em São Paulo. "Nosso futuro depende de nossas escolhas".
"Agora, no mundo e no Brasil, há um forte movimento de proteção de áreas no oceano", celebrou a cientista pela manhã, no auditório da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), durante o lançamento de seu livro "A Terra é Azul", publicado pelo Sesi-SP, A expectativa é que no Fórum Mundial da Água, no fim de março, em Brasília, o presidente Michel Temer assine os decretos de criação das UCs marinhas nos dois pontos mais remotos do território nacional - nos arquipélagos São Pedro e São Paulo, a 1010 quilômetros de Natal (RN), e no de Trindade e Martim Vaz, a 1000 quilômetros a leste de Vitória (ES).
Nos dois casos há a combinação de uma Área de Proteção Ambiental (APA) com outra menor mas de uso bem mais restrito, a chamada Monumento Natural (Mona). A proteção ambiental das APAs e a definição do que pode ser explorado ali, de que forma, e em qual quantidade, depende do seu plano de manejo.
Em São Pedro e São Paulo a APA terá 40,7 milhões de hectares e a Mona, 4,2 milhões de hectares, disse em coletiva, em Brasília, o ministro do Meio Ambiente José Sarney Filho. Em Trindade e Martim Vaz, a área proposta é de 40,2 milhões de hectares de APA e 6,9 milhões de hectares de Mona.
"Com estas UCs, o Brasil sai de 1,5% de proteção marinha para 25%", celebrou Sarney Filho, dizendo que a iniciativa foi costurada com os ministérios da Defesa e Marinha. O ministro do Meio Ambiente lembrou que, desta forma, o Brasil cumpre seus compromissos internacionais de proteger 10% de áreas marinhas e costeiras.
"A proposta de criação das áreas é muito boa e coloca o país em sintonia com outras nações que estão protegendo oceanos", diz Leandra Gonçalves, especialista em mar da Fundação SOS Mata Atlântica. Chile, Colômbia, México e Estados Unidos têm criado unidades de proteção marinhas. "O importante é que as áreas de proteção integral incluam o coração das regiões, que são as ilhas", continua ela.
Uma carta enviada a Temer e assinada por 108 cientistas brasileiros pede, contudo, ampliação em dez vezes da área originalmente proposta pelo governo para os Monumentos Naturais. Há registros de atividades predatórias ali. "APAs organizam o processo", defendeu Sarney Filho. "É o plano de manejo que irá indicar a atividade econômica que será permitida, de que forma, e quanto", continuou.
Sylvia Earle não entrou nesta polêmica. Em seu livro ela diz claramente que "desde a metade do século XX, centenas de milhões de toneladas de vida marinha foram retiradas do mar, e milhões de toneladas de resíduos foram despejados nele".
Ela cita que diversas espécies de peixes tiveram suas populações reduzidas em 90% desde os anos 1950. Nas últimas décadas formaram-se mais de 400 "zonas mortas" em áreas costeiras. "Talvez o mais problemático de tudo seja a grande e difusa ignorância sobre o papel vital dos oceanos para a vida de todas as pessoas".
O ambientalista americano Bill McKibben diz que Sylvia Earle "talvez conheça o oceano melhor do que qualquer pessoa viva". A cientista americana de New Jersey, 82 anos, batizada pela revista New Yorker de "Vossa Profundeza" é oceanógrafa, autora de mais de 175 publicações, coordenadora de mais de 100 expedições e soma mais de sete mil horas debaixo dágua. Foi também cientista-chefe da Noaa (National Oceanic and Atmospheric Administration).
A iniciativa de se editar o livro de Sylvia Earle no Brasil partiu do jornalista e ambientalista João Lara Mesquita. Depois da palestra na Fiesp ela seguiu para Brasília encontrar-se com Temer.

Valor Econômico, 06/03/2018, Brasil, p.A2