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O Globo, Sociedade, p. 23
06/06/2017
Cinco animais resistem no Parque Nacional do Itatiaia

Cinco animais resistem no Parque Nacional do Itatiaia
Espécie não teria se recuperado da onda da doença ocorrida no Rio há mais de sete décadas

As florestas das montanhas do Parque Nacional do Itatiaia (PNI) são conhecidas pela diversidade. Mas, como em outras matas do Estado do Rio, também lá os bugios não são frequentes. No parque nacional mais antigo do Brasil, que este mês completa 80 anos, o inventário mais recente encontrou apenas cinco animais. E a febre amarela é apontada como a causa mais provável da baixa densidade da espécie. Há mais de sete décadas o vírus teria causado tamanha mortandade, que o bugio jamais se recuperou.
- Um estudo publicado em 1977 afirma que um surto de febre amarela silvestre exterminou a população de bugios do parque em 1939. Mas nessa época, as epizootias (surtos em animais) eram pouquíssimo estudadas - diz o biólogo Izar Aximoff, autor do estudo sobre a população atual de bugios e de levantamentos da fauna de mamíferos do PNI.
Um dos bugios identificados por Aximoff é uma fêmea loura, o que só aumenta a suspeita sobre problemas populacionais. A fêmea é portadora de uma condição conhecida como leucismo, isto é falta de pigmentação, possivelmente causada pela baixa diversidade genética.
- O leucismo pode acontecer em populações com muito cruzamento de parentes próximos, como em grupos pequenos e isolados. Esses animais se tornam vulneráveis a predadores e muitas vezes apresentam problemas imunológicos. A fêmea que vimos, porém, não pareceu doente - observa o pesquisador.
Também é dele o registro do macho do grupo no Vale do Campo Belo, a 2.470 metros de altitude:
- Esse é o registro mais elevado da espécie. E pode ser devido a alterações associadas a mudanças climáticas, em busca de novos habitats - acrescenta Aximoff.
MUTAÇÕES IMPROVÁVEIS
O diretor técnico do Núcleo de Doenças de Transmissão Vetorial do Instituto Adolfo Lutz, Renato Pereira de Souza, diz que a febre amarela pode ter dizimado populações de macacos no passado. E observa que até agora não se conhece qualquer alteração genética no vírus que tenha tornado o surto atual mais agressivo:
- Ainda há muito a estudar, mas considero improvável que a resposta para o tamanho do surto atual em seres humanos e macacos esteja em mutações do vírus, e sim em reflexos de novos arranjos do território no Brasil.
Ele alerta que, à medida que as cidades avançam pela floresta, a fronteira entre seres humanos e o mundo natural se dilui:
- A transformação é do território e da relação do homem com o meio ambiente. Num país megadiverso como o Brasil, a relação com a natureza é mais complexa e intensa do que se pode imaginar. A febre amarela é parte disso.

O Globo, 06/06/2017, Sociedade, p. 23

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