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OESP, Vida, p. A30
14/03/2010
Escola na mata e coisa de gringo

Escola na mata é coisa de gringo
Os únicos professores permanentes na região são europeus; irmãos escoceses sofrem com desconfiança das autoridades

O cajueiro carregado de frutos vermelhos é mau sinal para os moradores da comunidade Samaúma. É um lembrete amargo das dezenas de filhos, filhas e netos que abandonaram a vila nos últimos anos para buscar educação nas cidades rio abaixo.

"Quando a criançada estava aqui não sobrava um caju amarelo no pé. Pegavam todos. Agora cai no chão e apodrece", lamenta Aluísio Barrosos do Nascimento, de 41 anos, que precisou mandar dois filhos (uma menina de 9 anos e um menino de 15) morar com a avó em Manaus, para não ficarem sem ensino.

A comunidade até tem escola. O prédio está lá, desde 2008. Falta quem dê aula. No ano passado, o professor só apareceu em maio. "Este ano, é provável que não venha ninguém", prevê Aluísio, "porque não tem mais criança; todo mundo já foi embora". O local sofre de um silêncio incômodo. Nada de crianças seminuas correndo por entre as casas, arrastando algum brinquedo artesanal pelo chão de terra. Das 15 famílias de outrora, restam 10, e outras 2 já estão de malas prontas para descer o rio.

A falta de escolas e professores é a principal reclamação das famílias ribeirinhas, que se sentem esquecidas pelo poder público na floresta, mas não têm nenhum desejo de mudar para a cidade. As poucas escolas que existem ao longo do rio só ensinam até a 4ª série. Quando funcionam.

No fim das contas, dezenas de crianças do Jauaperi só sabem ler e escrever graças ao esforço de estrangeiros. Mais especificamente, um par de irmãos escoceses e suas esposas italianas.

Paul Clark, o mais velho, de 51 anos, veio morar na Amazônia em 1994. Professor de formação, estabeleceu-se na comunidade Xixuaú, a mais distante de Manaus, que seu irmão mais novo, Christopher, ajudara a fundar quatro anos antes. Ambos já haviam visitado a Amazônia várias vezes como turistas e se apaixonaram pelo Jauaperi. Com dinheiro de doações, montaram uma escola e começaram a alfabetizar as crianças ribeirinhas - em português. "Aprendi a língua devagarzinho, ensinando mesmo", conta Paul, em português com sotaque, mas fluente. "Alfabetizar não é um trabalho muito difícil."

Em 1998, Paul deixou o Xixuaú para construir uma outra escola rio abaixo, que batizou de Vivamazônia. Foi acompanhado da mulher, Bianca, que também é professora, e do melhor amigo, o ribeirinho Valdemar da Silva Brazão.

Hoje a escola é a única opção de estudo para mais de 30 crianças da região - principalmente das comunidades Gaspar e Itaquera. Paul e Bianca ensinam, Valdemar busca os alunos de barco todos os dias e sua mulher, Socorro, se encarrega da merenda. Tudo gratuito.

O dinheiro para manter a escola é levantado por uma associação que eles fundaram, com sede na Itália. A Prefeitura de Novo Airão não dá dinheiro. Em 2009, Paul foi até contratado como professor, após prestar concurso, mas está com 20 salários atrasados.

Além de não receber ajuda, Paul e Chris sofrem com a desconfiança do poder público. "Eles sempre acham que tem alguma coisa por trás de eu estar aqui. Acham que tenho algum plano secreto", conta Christopher, mais conhecido como "o gringo do Xixuaú" - termo que serve tanto como apelido quanto ofensa, dependendo da ocasião. "Não aceitam que seja possível um estrangeiro como eu escolher viver no mato só porque gosta da floresta e das pessoas."

Chris conta que pisou pela primeira vez no Xixuaú em 1984, quando só havia uma família no local. Lá conheceu o Baixote, um caboclo que o acompanhou em várias viagens pela Amazônia.

Em 1990, fundou a Associação Amazônia, uma ONG para captar recursos e atrair turistas da Europa. Desde então o número de famílias aumentou para dez.

A comunidade tem escola, barco, telefone público e computadores com internet banda larga, via satélite. "Nossa associação é provavelmente a única que já passou por quatro CPIs, uma municipal, uma estadual e duas federais", conta Chris. Uma vez a Polícia Federal e o Exército baixaram por lá, empunhando metralhadoras, e a primeira pergunta que fizeram foi: "Cadê o laboratório?".

Funcionários do Instituto de Terras e Colonização de Roraima (Iteraima), que demarcavam terras na região durante a visita do Estado, falavam em "ocupação estrangeira", "cobiça internacional", repetiam jargões como "A Amazônia é nossa" e diziam que os ribeirinhos eram "escravos" do gringo.

"O governo acha que porque a gente é do interior a gente não tem cabeça para pensar sozinho, que a gente só faz o que o gringo manda", revolta-se Elton Leite da Encarnação, o Elinho, de 32 anos, filho do falecido Baixote. Ele é o presidente da Cooperativa Xixuaú, criada no ano passado para desenvolver atividades de artesanato, extrativismo e turismo sustentável.

Enquanto a associação traz recursos de fora, a Cooperativa (composta só de ribeirinhos) tentará gerar renda dentro da própria comunidade. O objetivo maior, segundo Elinho e Chris, é fazer do Xixuaú uma "comunidade modelo" de conservação ambiental.

"Eu tenho um plano secreto, sim, que é provar que é possível viver com dignidade na floresta, sem destruir a natureza", afirma Chris.

Nesse ponto, a associação de fato estabelece algumas regras: não pode desmatar, não pode caçar sem autorização da comunidade, evita-se andar de barco a motor nos igarapés e todo o lixo não reciclável tem de ser enviado para Manaus.

Seu Manuel Ribeiro Marim, um simpático pescador de 63 anos, conta que já viveu em muitas comunidades, mas nenhuma melhor do que Xixuaú. "Se você fala em derrubar um pau aqui, vixe maria, o gringo fica doido", conta ele, rindo. "No começo eu não concordava, não, mas depois percebi que ele tava certo. Se desmatar espanta os bichos, aí os turistas vêm e não conseguem ver nada."

A associação chegou a construir uma escola em Samaúma, desativada em 2008, quando a escola pública foi inaugurada. Com a falta de professor para os filhos, o agricultor Pedro da Silva Barbosa agora procura um quartinho de aluguel para acomodar a família em Novo Airão. Só não sabe como vai se manter por lá.

"Aqui no rio a gente sobrevive sem dinheiro. Se tiver peixe e farinha tá bom. Na cidade o senhor sabe como é: se não tiver dinheiro, fica difícil", pondera o pai de quatro filhos, há 32 anos na comunidade.

Ibama diz que falta união no local
Chefe do instituto admite falhas na fiscalização, mas diz que solução precisa partir das próprias comunidades

Os ribeirinhos do Jauaperi "não estão preparados como comunidade para ter uma unidade de conservação", diz o chefe do Núcleo de Recursos Pesqueiros do Ibama em Manaus, James Bessa. Segundo ele, uma reserva extrativista depende de união entre os seus membros para funcionar. O que não existe no Jauaperi.
Em contraponto ao esforço de algumas lideranças, muitas das irregularidades praticadas no rio contam com a conivência - e até a participação - dos próprios ribeirinhos. Vários trabalham nos geleiros e caçam quelônios ilegalmente.
"O conflito é entre eles mesmos. É quase uma briga de família", afirma Bessa, aludindo ao fato de que a maioria das famílias são aparentadas. "A solução precisa vir das próprias comunidades. Enquanto eles não quiserem remar todo mundo na mesma canoa, vai ser difícil resolver alguma coisa." Bessa não concorda que o Ibama esteja ausente na região - como acusam muitos ribeirinhos -, mas não esconde as dificuldades da fiscalização.
Nem o fato de que a pesca ilegal ocorre no Jauaperi - assim como em vários outros rios da Amazônia. Ou o fato de que o Ibama pouco consegue fazer a respeito. "Assim que o nosso barco sai de Novo Airão alguém avisa pelo rádio e todo mundo some do rio. Podemos ficar 30 dias navegando que não vamos pegar ninguém."
Esconderijos não faltam. Em meios às centenas de igarapés, ilhas e curvas que emaranham o rio, fica fácil fugir das autoridades. Nos seis dias em que a reportagem do Estado percorreu os Rios Negro e Jauaperi, avistou só dois geleiros - um deles com o nome raspado na proa. Bastou chegar à primeira comunidade para descobrir o por quê: espalharam uma notícia no rio de que era o Ibama que estava chegando.
A fiscalização poderia ser feita nos portos, no momento em que as mercadorias são descarregadas. Mas, segundo Bessa, não há como saber onde cada peixe foi pescado, se é ilegal ou não. "Para fazer uma apreensão, tem de ser flagrante. Tem de pegar o barco no rio", diz.
Uma solução seria colocar uma base flutuante de vigilância na boca do rio, mas Bessa acha improvável que isso aconteça enquanto a área não for unidade de conservação.
A Resex, se criada, fecharia um dos últimos pedaços de rio ainda abertos para pesca comercial na região. "Quase tudo aqui já é área protegida. Se o Jauaperi virar reserva, vamos ficar sem nada", diz o vice-presidente da colônia de pescadores de Novo Airão, Raimundo Sarmento de Almeida. Ele reconhece o impacto sobre a quantidade de peixes no rio, mas diz que os barcos continuam a pescar por falta de opção. "O caboclo vai fazer o quê? Precisa alimentar a família dele, se vestir, comprar calçado para os filhos. Poderia até sair do rio e ir para terra, mas na terra também não pode fazer roça, não pode derrubar árvore, não pode criar gado", argumenta o pescador - "criado na proa da canoa de meu pai, graças a Deus".

Disputa com Roraima trava criação de reserva

O projeto da Reserva Extrativista do Baixo Rio Branco-Jauaperi peregrina há quase dez anos em Brasília. Foi iniciado pelos próprios ribeirinhos, em 2001, passou um longo período de análises técnicas, sociais e ambientais, recebeu aval do Ministério do Meio Ambiente (MMA) em maio de 2007 e foi encaminhado à Casa Civil para aprovação final.
Procurada pela reportagem no dia 3 de março, a Casa Civil informou (no dia 9) que havia devolvido o projeto ao MMA no dia 1 para esclarecimentos. "O processo foi e voltou algumas vezes, por questões técnicas, que cabem exclusivamente aos órgãos ligados ao meio ambiente resolver", informou a assessoria de comunicação da Casa Civil.
O principal entrave à criação da reserva, porém, não seria técnico, mas político, segundo apurou o Estado. É a oposição do governo de Roraima, que não aceita ceder mais território para áreas de proteção ambiental - especialmente depois de ter perdido a disputa pela demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em 2009. O governo federal, não querendo se indispor com o Estado, estaria relutando em aprovar a reserva.
"Você olha o mapa de Roraima hoje e pensa: "Vou sair daqui". É tudo área protegida ou terra indígena! Onde é que eu vou botar meu gado, fazer minha plantação? Como é que vou atrair investimento para a agricultura?", argumenta o chefe do escritório regional do Instituto de Terras e Colonização de Roraima (Iteraima), Orlando Farias.
A reportagem encontrou Farias na comunidade Itaquera, onde uma equipe do Iteraima demarcava lotes de 60 a 100 hectares para os ribeirinhos - processo que deverá ser realizado em todo o Rio Jauaperi. "Não estamos assentando ninguém, só regularizando. É só para as pessoas que já vivem aqui", enfatiza.
Ribeirinhos e organizações favoráveis à criação da Resex veem a demarcação como parte de uma estratégia do governo de Roraima para minar o projeto da reserva. Há uma briga sobre a titularidade das terras. O Iteraima diz que são do Estado. O MMA diz que são da União.
Outra parte da estratégia teria sido a criação de uma Área de Proteção Ambiental (APA) na mesma região proposta para a reserva, em 2006, o que geraria uma sobreposição. A APA é uma unidade estadual, bem menos restritiva do que a reserva extrativista. que seria uma unidade de conservação federal, tutelada pelo Instituto Chico Mendes (ICMBio).

OESP, 14/03/2010, Vida, p. A30