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Agencia Museu Goeldi - www.museu-goeldi.br
29/09/2008
Expedicoes inventariam a Calha Norte do Rio Amazonas

A Estação Ecológica Grão-Pará, a maior unidade de conservação da Calha Norte do Rio Amazonas, recebeu entre 25 de agosto e 14 de setembro uma equipe de pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), que desde o início de 2008 inventaria a diversidade biológica de cinco novas unidades estaduais de conservação do Pará, que somam mais de 12 milhões de hectares contíguos de áreas protegidas. Além de se caracterizarem como mega unidades, algumas ainda têm o fascínio de serem terras desconhecidas pelos pesquisadores da natureza.

Para enfrentar o desafio de mapear a biodiversidade desta vasta porção do território paraense, o Museu Goeldi, com a parceira da Conservação Internacional e dando prosseguimento ao projeto Biota Pará, está colocando em campo duas dezenas de especialistas que cumprem uma agenda apertada para produzir avaliações ecológicas rápidas de 7 pontos distintos das unidades de conservação.

As expedições fazem parte de um grande projeto coordenado pela Secretaria Estadual de Meio Ambiente - SEMA que articulou um consórcio de instituições governamentais e da sociedade civil para prover dados socioambientais relativos as uc paraenses na Calha Norte e seu entorno, como também apoiar a elaboração dos planos de manejo e a formação dos conselhos gestores das novas unidades de conservação. O Consórcio é integrado pelo Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente), o Imaflora (Instituto de Manejo e Conservação Florestal Agrícola), a GTZ (Cooperação Técnica Alemã), o Ideflor (Instituto de Desenvolvimento Florestal do Pará), além do Museu Goeldi (MPEG) e da Conservação Internacional (CI).

Esforço - O secretário do Meio Ambiente Valmir Ortega destaca que o consórcio paraense é emblemático como ação de planejamento de mosaico de unidades de conservação na Amazônia, pois a Calha Norte é reconhecido como o maior bloco de unidades de conservação de florestas tropicais do mundo. Para Ortega, a credibilidade desse trabalho pode ser mensurada pela pluralidade de instituições envolvidas nas ações de implementação das UC´s estaduais na Calha Norte paraense. São organizações não governamentais nacionais, como o Imazon e o Imaflor; internacionais, como a CI e a GTZ e a comunidade científica, que tem à frente o Museu Emílio Goeldi. "Trata-se de uma rede de parcerias, atuando sob a liderança da Sema, concentradas em um esforço com dois grandes objetivos: proteger a biodiversidade da região mais conservada no Pará e encontrar saídas econômicas e sociais aos que estão assentados no entorno dessas áreas".

Ortega considera que o produto estratégico desse esforço inclui não só uma ação coordenada de proteção da biodiversidade, mas também um plano de desenvolvimento sustentável que contemple os municípios, as comunidades locais, incluindo os indígenas e quilombolas, a maioria deles dependentes economicamente dos recursos naturais, sobretudo da madeira. Segundo o secretário paraense, os planos de manejo vão apontar ainda outras possibilidades de exploração sustentável de produtos da economia florestal como o ecoturismo e produtos não-madeireiros. "O importante é que as comunidades estão fortemente inseridas no processo de consolidação das UC´s e tudo está sendo construído na base de muito diálogo", enfatizou Ortega.

Corredor - As cinco unidades de conservação estaduais inventariadas pelo MPEG no norte do Pará estão localizadas no escudo das Guianas e foram criadas ao final de 2006. Somadas às unidades federais (4), terras indígenas (5) e as estaduais (2) ali já existentes, essas novas unidades estaduais formam o maior bloco de florestas protegidas oficialmente - 22 milhões de hectares. Este grande bloco integra o maior corredor de biodiversidade do planeta, que engloba terras protegidas no Brasil (situadas nos estados do Pará, Amapá e Amazonas), Guiana, Guiana Francesa, Suriname e Venezuela.

O trabalho realizado pelo governo paraense e seus parceiros para viabilizar as novas UC estaduais é estratégico e preventivo: o território ainda bem preservado pode se tornar ponto de partida para uma ocupação humana mais intensa em toda a região.

"A implementação de uma unidade de conservação é fundamental para que ela possa funcionar de forma efetiva, cumprindo seu papel social de preservação da biodiversidade e dos serviços ambientais de que a sociedade depende, além de proporcionar a melhoria da qualidade de vida das populações sob influência destas áreas", observa Renata Valente, gerente do programa Amazônia da Conservação Internacional (CI). "O estado do Pará assumiu este compromisso e este é o primeiro passo para demonstrar que os governos estaduais têm capacidade técnica para gerenciar suas próprias unidades de conservação, estabelecendo parcerias para manejá-las e protegendo-as contra possíveis pressões econômicas que possam romper a delicada rede de relações ecológicas existentes nestes ecossistemas únicos e tão importantes para o planeta. Além disso, esta é a primeira vez em que estudos científicos intensivos são realizados em tão curto espaço de tempo e por equipe técnica tão especializada, garantindo a qualidade dos dados que vão subsidiar o plano de manejo dessas unidades."

As unidades de conservação estaduais da Calha Norte paraense hoje estão divididas entre as de uso sustentável - como a Floresta Estadual de Faro (635 mil hectares), a Floresta Estadual do Paru (3,6 milhões de hectares) e a Floresta Estadual de Trombetas (3,1 milhões de hectares) - e as de proteção integral - como a Reserva Biológica do Maicuru (1,1 milhão de hectares) e a Estação Ecológica do Grão-Pará (a maior de todas, com 4,2 milhões de hectares).

As unidades de proteção integral são áreas onde só se admite o uso indireto de recursos naturais. Nesse contexto estão as Estações Ecológicas (ESECs), destinadas a estudos científicos, e as Reservas Biológicas (Rebios). Ambas têm visitação pública limitada apenas a objetivos educacionais. Entre as unidades de uso sustentável, onde é permitido o uso dos recursos naturais de forma racional, se enquadram as três Florestas Estaduais (Flotas), onde está prevista a exploração de produtos florestais madeireiros e não-madereiros.

Expedições Biológicas - Enquanto Imazon, Imaflora, Ideflor e SEMA são responsáveis pela organização dos dados socioeconômicos das Florestas Estaduais (flotas) e seu entorno, o Museu Goeldi, com o apoio da CI e SEMA, produz um diagnóstico da biodiversidade aplicando a técnica da Avaliação Biológica Rápida (RAP). Desenvolvidas para conseguir extrair o máximo de resultados em períodos menores de aplicação, as RAPs neste projeto estão concentradas na busca de informações sobre a herpetofauna (anfíbios e répteis), avifauna, mamíferos, peixes e flora (tipos de vegetação).

"O Museu Goeldi fortalece uma tradição institucional - a realização de expedições científicas para inventário da fauna e flora amazônica. As expedições à Calha Norte do Pará permitem a descoberta de novas espécies, o avanço do conhecimento científico sobre a região amazônica, o enriquecimento das coleções científicas e a sistematização de informações sobre uma extensa região onde existe uma grande lacuna de conhecimento. A pesquisa está produzindo informações estratégicas que vão apoiar decisivamente a consolidação das unidades estaduais de conservação. A formação do Consórcio permite darmos continuidade no apoio a formulação de políticas públicas direcionadas para a conservação ambiental", ressalta Ima Vieira, diretora do Museu Goeldi, centro de pesquisa vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia.

Instituição científica responsável pelo levantamento biológico das novas Ucs estaduais na Calha Norte do Rio Amazonas, o Museu Paraense Emílio Goeldi iniciou ainda em janeiro de 2008 as expedições no chamado Corredor de Biodiversidade do Norte do Pará. Sob a liderança de Alexandre Aleixo - pesquisador da Coordenação de Zoologia e Curador da Coleção Ornitológica do Museu Paraense Emílio Goeldi - a equipe da instituição congrega cerca de 20 pesquisadores especialistas em biodiversidade amazônica.

As metas da equipe biológica são reunir o máximo de conhecimento disponível sobre a região da Calha Norte Paraense e seu entorno, executar levantamentos de campo inéditos sobre a biodiversidade nas unidades de conservação estaduais e consolidar um diagnóstico sobre a biodiversidade da área, integrando as novas informações com aquelas encontradas na literatura especializada e em coleções científicas. Ao final, as informações levantadas integrarão um banco de dados sobre a biodiversidade daquela região para uso das instituições parceiras.

"Estamos visitando áreas nunca antes amostradas por cientistas da biodiversidade e o resultado tem sido a descoberta de novas espécies e o registro de várias outras nunca encontradas anteriormente na região da Calha Norte. As novidades são tantas e o ritmo de campo tão intenso que não tivemos tempo ainda de 'digerir' com calma a enorme quantidade de informações levantadas", comemora o coordenador Alexandre Aleixo.

Embora ainda seja cedo para contabilizar o legado final a ser deixado por essas investidas científicas na região, um balanço prévio da equipe do Museu Goeldi já levantou uma diversidade de mais de duas mil espécies de aves, mamíferos, anfíbios, répteis, peixes, plantas superiores e samambaias, número registrado apenas com as três primeiras excursões.

Cronograma apertado - A primeira área visitada pelos pesquisadores foi a Floresta Estadual de Faro, em janeiro deste ano. Em março a equipe inventariou a Floresta Estadual de Trombetas. Para a Estação Ecológica Grão-Pará, a maior unidade de conservação da Calha Norte do Rio Amazonas, foi desenvolvida uma estratégia diferente: ela foi divida em 3 pontos de coleta, sendo que dois pontos já foram percorridos, a primeira expedição a ESEC aconteceu em junho.

Sem muito tempo para processar o material coletado, dar andamento às atividades de laboratório e analisar os dados obtidos, a equipe do Museu Goeldi já se prepara para a próxima expedição. No período de 14 de outubro a 2 de novembro eles pesquisam a Reserva Biológica de Maicuru, localizada na fronteira das Terras Indígenas de Tumucumaque e Rio Paru d'Este.

Mosaico de paisagens - Ao contrário do imaginado, a Amazônia não é uma região homogênea e este dado afeta diretamente a maneira como os levantamentos de biodiversidade da Calha Norte do Pará vêm sendo feitos. A Amazônia reúne mais de 30 diferentes ecorregiões e pelo menos oito centros de endemismo, caracterizados por abrigarem contingentes únicos de espécies, o que exige políticas específicas direcionadas à conservação da biodiversidade. Além disso, as diferenças de estratégias de conservação a serem implementadas em cada um desses centros de endemismo também são acentuadas por diferentes taxas de desmatamento existentes nas várias regiões.

Para a biologia, chamam-se de endêmicos aqueles grupos taxonômicos que se desenvolvem em regiões muito restritas. O maior centro de endemismo de espécies na Amazônia é conhecido pelo nome de Guiana. Tem mais de 1,7 milhões de quilômetros quadrados de área e se estende por territórios de cinco países (Brasil, Guiana, Guiana Francesa, Suriname e Venezuela). Mais da metade do centro de endemismo Guiana (50.8%) se encontra em território brasileiro, o que dá ao País um papel crucial na sua preservação. Atualmente, a porção brasileira do centro de endemismo Guiana é uma das mais conservadas (apenas 4,06% da sua área total foi desmatada), somando um dos maiores percentuais de área protegida por unidades de conservação e terras indígenas (45,4%).

Parte do território do Pará situada ao norte do rio Amazonas, a Calha Norte Paraense se encontra praticamente toda na área de formação geológica chamada Escudo das Guianas. Apesar da predominância da vegetação de florestas, há importantes ocorrências de cerrados e campos naturais. A região sul da Calha Norte Paraense é a mais impactada pela presença do homem, sendo ocupada em sua maior porção por pastagens e concentra quase toda população daquela área.

Historicamente, a ocupação da porção norte da Calha Norte Paraense sempre foi dificultada pelo relevo acidentado e pelo regime de chuvas da região, que desfavorecem a navegação até nos rios mais caudalosos entre os que deságuam no Amazonas, como o Nhamundá, o Mapuera, o Trombetas, o Cumiá, o Curuá, o Maicuru, o Paru e o rio Jari.

Os mesmos entraves, porém, se refletem num vazio de conhecimento existente sobre a região. As dificuldades logísticas impõem necessidades como o uso quase obrigatório de aeronaves para expedições de campo. O resultado disso é que, ainda hoje, são escassas as informações sobre a sua biodiversidade, dispersas em literatura restrita e algumas coleções biológicas. Enquanto a porção sul da Calha Norte já vem sendo estudada desde o final do século 19, a área norte vem sendo inventariada biologicamente apenas de forma esporádica, a partir da década de 80.

Por isso a necessidade de realização das atuais sete expedições de campo para inventariar áreas prioritárias com metodologias e esforços de amostragem padronizados. Além dos cursos d'água já citados, os registros de ocorrências de espécies vêm atingindo áreas dos municípios paraenses de Faro, Terra Santa, Oriximiná, Óbidos, Curuá, Alenquer, Monte Alegre e Almerin.

"Qualquer estimativa feita hoje sobre o legado a ser deixado por esse projeto ainda será bastante prematura, pois precisamos de tempo para trabalhar os dados com mais calma, o que só deve acontecer após o encerramento das expedições de campo em fevereiro próximo. De todo modo, para a pesquisa, vamos poder falar em conhecimento produzido antes e depois desta série de expedições. Para a conservação, vamos ter um dos melhores bancos de dados já utilizados no zoneamento de unidades de conservação, o que é excepcional quando se considera o imenso tamanho das cinco áreas que são alvos do estudo", avalia Alexandre Aleixo.