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ISA - http://www.socioambiental.org
02/05/2011
Extrativistas da Terra do Meio, no Para, comecam formacao em gestao territorial

A formação é parte de um conjunto de ações articuladas com o objetivo de melhorar a interlocução das famílias extrativistas com a sociedade na luta por seus direitos e ampliar a compreensão das expectativas que a sociedade deposita sobre as Reservas Extrativistas (Resex) na Terra do Meio.

O Instituto Socioambiental (ISA) e a Fundação Viver, Produzir e Preservar (FVPP), em conjunto com moradores das Reservas Extrativistas (Resex) Riozinho do Anfrísio, do Rio Iriri e do Rio Xingu, realizaram a primeira etapa da formação em gestão territorial da Terra do Meio, entre os dias 6 e 20 de abril. A iniciativa tem o apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

As Resex estão localizadas a distâncias consideráveis de Altamira - de seis horas até quatro dias viajando de voadeira e dependendo da época do ano (quando o rio está mais ou menos cheio). Ocupadas por famílias remanescentes do período de extração da borracha (1870 a 1970) que permaneceram na região mesmo após a queda de produção dos seringais, sofrem pressões por extração ilegal de madeira e avanço ilegal de fazendas nos últimos 20 anos.

A formação em gestão territorial da Terra do Meio terá a duração de três anos, compreendendo etapas intensivas, de 15 a 20 dias por semestre, chamadas de "tempo escola". Em seguida, entra o período denominado "tempo comunidade", momento em que cada estudante deverá realizar diversos trabalhos monitorados e acompanhados por educadores contratados pelo ISA e FVPP. Ao todo, serão seis etapas intensivas e cinco períodos de acompanhamento.

Na primeira etapa, realizada na localidade Morro, na Resex Riozinho do Anfrísio, 36 pessoas, entre homens, mulheres e seus filhos, se reuniram por 15 dias. Os principais conteúdos trabalhados foram alfabetização, leitura e escrita e a História do Brasil e da região. Foram também realizados exercícios de auto-conhecimento e noções de mapas. As atividades foram dinâmicas, com trabalhos em grupo, reflexão individual, e utilização de meios como o teatro, filmes, desenhos e música.

Nas aulas de alfabetização, leitura e escrita, algumas pessoas tiveram os primeiros contatos com a língua escrita e outras foram orientadas em exercícios de elaboração e interpretação de textos. Para Ciane, moradora da Resex do Xingu, participar do curso é um grande avanço. "Para a gente que nunca sentou numa sala de aula, estar aqui é uma vitória. Espero que até o final desses três anos, nós possamos administrar nossa reserva com mais sabedoria".

As aulas de História trouxeram vasto conteúdo, desde os mais remotos acontecimentos, como a "descoberta" do Brasil, em 1500, passando pelos principais ciclos de ocupação da região amazônica a partir do século XIX, a migração nordestina e o contexto socioeconômico que caracterizou os grandes deslocamentos destas populações. Também foram abordados o encontro dos migrantes nordestinos com os povos originários da região, a vida nos seringais, chegando aos conflitos entre o modo de vida das famílias que continuaram habitando a região e a ocupação ilegal de grileiros, madeireiros e fazendeiros, fatos que antecederam a criação das Reservas Extrativistas na região.

Antônia Martins, coordenadora pedagógica da FVPP, afirma que já é possível perceber o avanço dos participantes na leitura e escrita, o que deve ser aprimorado nas próximas etapas de formação. "Foi muito interessante observar o encanto de algumas pessoas ao perceber o encontro das histórias familiares com a história formal" ressalta.

O educador do Instituto Socioambiental, Cristiano Tierno, ressalta o interesse dos participantes do curso. "Ocorreu um ótimo intercâmbio de experiências e maior aproximação entre eles, o que é essencial para a melhoria da organização das famílias em torno de ações articuladas de reivindicação de direitos junto ao poder público. Entendemos também que esta etapa de formação alimenta a vontade que as famílias manifestam por conhecer melhor a leitura e a escrita. Este é um desejo histórico das famílias como também conhecer os caminhos de acesso a direitos".

Sobre a região da Terra do Meio

Localizada no centro do Pará, a Terra do Meio é uma das regiões mais importantes para a conservação da sociobiodiversidade da Amazônia, mas também o palco de um dos maiores conflitos fundiários do Brasil. Seu destino pode contribuir para melhor dimensionar a capacidade do Poder Público e da sociedade como um todo para promover ações de desenvolvimento sustentável e proteção da floresta amazônica.

A região da Terra do Meio é formada pelas Reserva Extrativista (Resex) do Rio Iriri com 399 mil hectares, Resex Riozinho do Anfrísio com 736 mil hectares, Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu, Estação Ecológica (ESEC) da Terra do Meio com 3,3 milhões de hectares, Resex do médio Xingu com 404 mil hectares, Parque Nacional (Parna) da Serra do Pardo com 445 mil hectares e as Terras Indígenas Cachoeira Seca, Xypaia, Curuaia, cobrindo assim uma área protegida de 8,48 milhões de hectares. A Terra do Meio é assim denominada por situar-se entre o Rio Xingu e seu afluente Iriri, e abrange os municípios de Altamira, São Félix do Xingu e outros da região da Rodovia Transamazônica

Atualmente, cerca de 2200 pessoas habitam a região, entre extrativistas e indígenas. São detentores de um conjunto de conhecimentos tradicionais de valor inestimável fundamentais para a manutenção dos ecossistemas locais. A Terra do Meio possui mais de 95% de seu território muito bem conservado. Porém, por situar-se na região do arco do desmatamento, vem sendo fortemente pressionada com o avanço da extração ilegal de madeira e da fronteira agrícola.

http://www.socioambiental.org/nsa/detalhe?id=3312