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G1 - http://g1.globo.com/
12/04/2015
Gado e pastagens invadem reserva extrativista Alto Jurua (AC)

Proposta era melhorar a extração do látex para produzir borracha.
O retorno era baixo e os moradores buscaram outras fontes de produção.

A reserva Alto Juruá é pioneira no modelo de reservas extrativistas do país. No entanto, a pressão do desmatamento e o avanço desenfreado da pecuária colocam em risco o futuro da floresta.

A equipe do Globo Rural segue a longa viagem pelos rios do Acre. Deixa a vila Restauração rumo ao outro extremo da reserva, comunidade Foz do Breu, fronteira do Brasil com o Peru. Rio acima enfrentam a correnteza do rio Juruá e pelo caminho encontram áreas desmatadas. O cenário atual da reserva ficou muito diferente do que se via há 25 anos.

As ameaças são as velhas conhecidas: derrubada da mata para vender madeira e formar pasto. Valdemar dos Santos é reincidente. Já foi flagrado destruindo além do permitido por lei e acabou multado derrubando mais uma área que não lhe pertence. "Para fazer pasto e para a sobrevivência. Porque se aqui a gente for viver à custa da caça e da pesca, a gente morre de fome", declara.

Quanto mais se sobe o Juruá, mais estragos. A floresta, em muitas áreas, desapareceu. virou pasto. A proteção das matas ciliares é uma exigência das leis ambientais. A desobediência é crime e é justamente o que se vê em muitas áreas da reserva extrativista. O capim avança até o último palmo das margens e aí o resultado são que as calhas desbarrancam e entopem os rios.

João Ferreira não esconde que alimenta um rebanho razoável dentro da reserva: "Temos 150 cabeças". A lei de uso da unidade prevê um rebanho de quinze cabeças, no máximo. Só na área dele, 80 hectares de floresta foram pro chão.

Pelo Código Ambiental, em rios do Porte do Juruá, a mata ciliar deveria ter pelo menos cem metros de largura em cada margem. Domingos, o chefe da reserva, reconhece que a fiscalização é precária. Segundo o ICMBIO, o Instituto Chico Mendes da Biodiversidade, uma das fazendas dentro da reserva pertence ao maior pecuarista da região e teria mais de 600 cabeças. O dono, Manoel Moura, também tem um mercado numa balsa flutuante.

Ele mostra documentos que comprovariam a compra da área antes da criação da Alto Juruá: um seringal de quase cinco mil hectares. "Faz 38 anos que moro na área e a reserva tem 25 anos. Nunca apareceu ninguém para comunicar, saber que o governo precisava, ou a respeito de indenização. Eu acredito que se o governo precisa de uma área, ele precisa indenizar. Enquanto não receber a indenização, eu não saio não", declara.

A equipe chega à Foz do Breu depois de uma exaustiva semana de viagem. A comunidade é menor que a Restauração, mas também tem escola e um pequeno comércio. A fronteira com o Peru fica bem pertinho, a menos de três quilômetros.

Um marco define onde termina a reserva extrativista e o estado do Acre. O local é uma das portas de entrada, no Brasil, do tráfico internacional de drogas. Do lado brasileiro, os traficantes descem o Juruá, sem perseguição, porque a única barreira que existe nesta região é o posto de fronteira da polícia peruana.

O posto deveria funcionar como repressão aos traficantes, mas os três policiais não dão conta. Como do lado brasileiro não há nenhuma barreira, a droga passa fácil e os moradores da reserva vivem em permanente tensão. "Barco passa sempre; de noite, na madrugada, sempre está circulando barco. Agora, ninguém sai das nossas casas para olhar", conta um morador.
Pressão do tráfico, falência da borracha, abandono da vida dentro da floresta. Vinte e cinco anos depois de criada, a primeira reserva extrativista do Brasil atingiu seus objetivos?

O geógrafo Miguel Scarcello trabalha há mais de dez anos na reserva e conhece bem o projeto Alto Juruá. Para ele, não há o que comemorar. "Perdeu sua referência histórica de economia extrativista. A intensidade da ocupação com a agricultura e com a pecuária fez com que ela mudasse esse referencial histórico", declara.

Em Brasília, o presidente do ICMBIO, Roberto Ricardo Vizentin, encara a situação da reserva sem pessimismo. "O desmatamento dentro desse imenso continente de 500 mil hectares é muito baixo, relativamente comparado com seu entorno. Em termos absolutos, menos de 3% do território foi desmatado. Diga-se de passagem, em boa parte um desmatamento consentido, porque faz parte do modo de vida e das atividades dos extrativistas, ainda que reconheçamos que há também desmatamentos ilegais. Até porque, no contexto dessa unidade de conservação, o processo de regularização, de indenização doa antigos proprietários, seringalistas, não foi concluído ainda", informa.

O valor caiu muito e isso acabou afastando os próprios moradores de manter a produção extrativista em alta. Optaram por caminhos que pudessem dar retorno melhor e mais segurança alimentar, melhores condições de vida. Mas ainda há quem acredite no extrativismo na floresta. A ONG SOS Amazônia percorre as colocações para ensinar técnicas de reflorestamento aos assentados, com árvores nativas, que dêem alguma renda.

Foi replantando a floresta que Antonio Costa, conhecido como Caxixa, encontrou o seu sonho. Banana, açaí, pupunha, buriti... Caxixa tem um pomar em sua colocação. "Tudo o que eu produzo eu levo pra vender no mercado em Marechal. Eu acredito que se tivesse um investimento para ter mercado e indústria para beneficiar, seria melhor", diz.

Mesmo sem explorar a borracha, ele aposta no extrativismo dentro da reserva. "Tem pessoas que falam assim: se tirar o gado da reserva, vamos passar fome. Eu vejo diferente: porque eu tenho o exemplo. Se continuar com ele, desmatando, os animais fogem mais e aí é que vamos passar fome. Mas se reflorestar, o pessoal vai viver melhor na reserva", comenta.

Nos 15 hectares que abriu, Caxixa plantou 800 pés de mogno. Quer deixar de herança para os filhos e netos. Mas sob uma condição: só poderão extrair metade das árvores. A outra parte quer deixar de presente pra natureza. Um agradecimento por tudo que ela já lhe deu. "Meu professor é a natureza", afirma.

Mas não há como negar: para cada exemplo como o de Caxixa, são muitos os casos de agressão à natureza ao longo desses 25 anos da reserva extrativista Alto Juruá.

Técnicas e conhecimento para produzir de modo sustentável e preservar a floresta existem, mas não vingam. Assim, fica difícil encarar o futuro com otimismo.

No domingo que vem, o Globo Rural mostra a maior reserva extrativista do Brasil, a Chico Mendes, que também fica no estado do Acre.

http://g1.globo.com/natureza/noticia/2015/04/gado-e-pastagens-invadem-re...