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27/08/2010
Incendios destroem florestas

Ao chegar à cidade de Cujubim, a 170 quilômetros da Capital Porto Velho, a impressão que se tem é de estar dentro de uma grande olaria, com muita fumaça e poeira. E é assim que se sente a população do município, estimada em 14 mil habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Desde o dia 18 passado, brigadistas do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo) do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama) estão no local combatendo os insistentes incêndios que invadem cinco Florestas Estaduais de Rendimento Sustentado (FERS), a Floresta Nacional (Flona) Jamari e a Reserva Extrativista (Resex) Jacundá.

"O trabalho é de formiguinha", compara o coordenador Estadual do PrevFogo, Roberto Fernandes Abreu. O Diário da Amazônia esteve quarta-feira em Cujubim e acompanhou uma equipe de brigadistas que saiu para atender um pedido de socorro. Uma propriedade a aproximadamente seis quilômetros do acampamento do Prevfogo dentro da Floresta Estadual de Rendimento Sustentável Gavião estava pegando fogo, segundo informou um agricultor.

Os brigadistas saem em cinco camionetes levando os equipamentos para enfrentar uma pequena queimada ou um grande incêndio. Quando o fogo é em mata fechada são utilizados água, ramos verdes e aceiros. No caso de mata aberta, os combatentes usam abafadores. A água é retirada - por meio de motobombas- de igarapé, riacho, rio ou o que estiver perto do incêndio.

O que se vê a caminho do provável incêndio é desolador. Árvores, talvez centenárias, destruídas pelo fogo. Muitas ainda queimam, soltam fumaça como se acusassem quem passa: "Veja, eu estou morta". É assim todo o percurso até a propriedade. A destruição está por toda parte. Em alguns pontos ela se esconde, não dá para ser vista na copa das árvores, que estão verdes. Mas ao olhar para baixo se percebe que ali o incêndio foi superficial. "Ele vai se alastrando por baixo, seguindo as folhas secas", diz Natanael da Silva Oliveira, chefe de Brigada.

Após quase uma hora na estrada poeirenta e cheia de curvas em busca do incêndio, percebe-se que aquele não é o caminho até o local indicado pelo agricultor. Meia-volta. Uma outra estrada pode ser a direção correta. A passagem é estreita e a floresta fica mais fechada e depois interditada. Uma enorme árvore impede a passagem do comboio, o fogo destruiu a sua raiz. A motosserra é a saída e a diligência segue.

Fim da picada. Os brigadistas se espalham em busca do incêndio. Nada. A casa próxima a área estava fechada, apenas dois cães e algumas galinhas rodavam pelo barraco de palha. "É possível que não seja aqui o local informado. É difícil nesta situação crítica alguém aplicar trote", comenta Douglas Lobato, coordenador de Operação de Campo do Prevfogo. Mas não há como saber a coordenada correta. Falta um rádio para a comunicação entre as equipes de campo e a base. "Estamos aguardando o envio do aparelho", diz o Roberto Fernandes, coordenador Estadual do Prevfogo. Sem outra opção, os brigadistas comandados por Douglas retornam para o acampamento. Há incêndios em outro lugar.

"Não existe isso de combustão espontânea. O que está acontecendo aqui é incêndio mesmo, alguém que coloca fogo", afirma Roberto Fernandes Abreu, coordenador Estadual do Prevfogo. Ele explica que, normalmente, o pecuarista coloca fogo em pastagem na época próxima do período chuvoso, que é setembro, para dar tempo do pasto se recuperar. O que está acontecendo, segundo o coordenador, é que estão ateando fogo para queimadas em áreas de derrubadas e roças, a queima fica fora de controle e torna-se um grande incêndio. "Estão colocando fogo, se não pararem, vamos ficar até quando apagando incêndio?", questiona em tom de desabafo, Roberto Abreu.

Ele conhece a área de Cujubim desde 1985, época da demarcação das terras do atual município e garante que situação como a deste ano não tinha acontecido antes. Há três tipos de incêndios florestais: superficiais, aéreo ou de copa e subterrâneo. Segundo Roberto, em Cujubim há casos em que ocorrem os três tipos em uma só área. "A mortandade da flora e da fauna é imensa. Os animais morrem queimados ou fugindo o fogo", lamenta.

Os dados diários anotados em uma prancheta apontam que do dia 21 a 24 passados foram combatidos 97 quilômetros de linha de fogo. Não há, ainda, cálculos de quanto foi queimado.

Desde o dia 18 passado, um dia após a reunião do Comitê de Combate a Incêndios, os brigadistas do Prevfogo estão em Cujubim. Na quarta-feira, quando o Diário esteve no acampamento, a equipe perdeu 14 parceiros. Os brigadistas do Instituto Chico Mendes (ICMBio) deixaram Cujubim e seguiram para uma outra missão. Os trabalhos continuam com os brigadistas do Prevfogo de Rondônia, 35 brigadistas do Prevfogo do Mato Grosso do Sul, quatro bombeiros da Defesa Civil e três militares da Marinha. Os bombeiros dão apoio em casos de emergências, como acidentes, e a Marinha trabalha na logística. Os brigadistas de Rondônia são dos municípios de Cujubim, Nova Mamoré, Porto Velho, Buritis e Machadinho do Oeste.

Estrutura

Segundo Roberto, o contingente está suficiente para a realidade atual. Não a realidade dos incêndios, mas o da estrutura. No acampamento as barracas utilizadas pelos brigadistas pertencem ao Ibama e não são exatamente apropriadas para a situação. Foram improvisadas latrinas. Cozinha não há, as refeições vêm em marmitas. "Quem come meia marmita, desperdiça. Quem come duas, fica com fome", comenta um brigadista. Até a tarde de quarta-feira não havia chegado os esperados banheiros químicos e a cozinha no acampamento. Improvisa-se.

De acordo com o major Walber Andrade, do setor de Comunicação da 17ª Brigada de Infantaria de Selva (BIS) de Porto Velho, nesta sexta-feira membros do Comando do Exército se reunirão com representantes do Ibama para verificar de que forma será o apoio do Exército ao Comitê de Combate a Incêndios.

O Prevfogo conta com dois helicópteros do Ibama para fazer a identificação dos focos de incêndio, uma frota de camionetes para o deslocamento da equipe, uma ambulância para atendimentos de saúde, entre outros veículos.

Trabalho para homens e mulheres

Andréia do Amaral Lourenço é brigadista pelo segundo ano, mas está é a primeira vez que ela saiu do município de Nova Mamoré, onde mora, para combater incêndios. Em casa ficou a avó ficou a única filha de cinco anos. O marido veio junto. Dorvalino Cardoso fez o curso de brigadista e acompanha a mulher. Na tarde de quarta-feira, enquanto a brigada dela não era acionada para o combate, ela trabalhava em uma antiga atividade feminina, a costura. "Faço para ganhar um trocadinho", justifica. Ela garante que gosta mesmo é de atuar como brigadista.

Este é o terceiro contrato do chefe de brigada Natanael da Silva Oliveira. "Não estava dando certo trabalhar com meu pai, me inscrevi na seleção e passei", conta. Para ele, pior do que sentir o desconforto provocado pelo incêndio é ver tudo se destruindo. "Frustrante saber que não conseguimos prevenir", diz.

Considerado um brigadista experiente, Natanel confirma que este ano bateu o recorde de combates. No ano passado, segundo ele, houve cerca de 50 combates durante os cinco meses de duração do contrato de brigadista. Neste ano esse número foi alcançado em menos de três semanas. Ele diz que o ocorre com frequência é o proprietário colocar fogo para preparar a lavoura, perder o controle sobre a queimada e depois pedir socorro para conter o incêndio.

Contrato

O contrato do brigadista segue as regras do serviço público, mas é por tempo determinado de cinco meses e pode ser prorrogado por mais um mês. Após ser selecionado, o brigadista - que pode ser chefe de esquadrão, brigadista de combate a incêndio ou chefe de brigada - passa por treinamento e um curso de formação.

Sedam não sabe quantas famílias ocupam as florestas

As Florestas Estaduais de Rendimento Sustentado (FERS) Gavião, Mutum, Arara, Periquito e Tucano estão localizadas no município de Cujubim. Assim como a população da localidade, essas florestas estão sofrendo na perda de inúmeras vidas. Desde o musgo até a mais alta e valiosa árvore, do que pequeno ao animal de maior porte. Todos perecem por onde o fogo passa. A Coordenadoria das Unidades de Conservação da Secretaria de Desenvolvimento Ambiental de Rondônia (Sedam) ainda não tem uma estratégia definida de como será a recuperação das áreas atingidas pelos incêndios. No entanto, segundo o engenheiro florestal Renato Berwanger, da coordenadoria, o usual é "deixar a área parada para que ela se recupere naturalmente".

De acordo com Berwanger, desde o mês passado técnicos de quatro coordenadorias da Sedam (unidades de conservação, fundiária, fiscalização e geociência) trabalham em um levantamento para identificar as famílias que ocupam essas florestas. "Vamos conhecer o perfil dessas pessoas, saber se elas são extrativistas ou produtoras e qual o impacto que elas geram nessas unidades".

As pessoas que ocupam áreas dessas florestas estaduais são consideradas invasoras. Elas não estavam nessas unidades em 1996, ano da criação das Fers de Cujubim. "Essas pessoas entraram depois, possivelmente incentivadas por alguém", avalia o engenheiro da Coordenadoria das Unidades de Conservação.

As unidades de conservação de todo o Estado representam 9,36% de todo o território rondoniense. As federais são 17,43%.

Bom para os negócios

Elizete Cristina Gonçalves nasceu em Terra Roxa (PR), chegou a Rondônia em 1991, morou em Mirante da Serra e em 2007 se estabeleceu em Cujubim com o marido e a filha. Para ela, o único fator negativo de morar na cidade é, sem dúvida, a fumaça e a poeira. Mas isso não chega a ser um problema. É neste período de seca que os negócios ficam mais movimentados em Cujubim, que tem as madeireiras como um dos pilares de sua tímida economia. "A seca é ruim para a saúde e boa para os negócios", garante.

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