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FSP, Ciencia, p. B8-B9
14/05/2017
No extremo

No extremo
Território nacional mais próximo da África, arquipélago de São Pedro e São Paulo expõe particularidades que surpreendem cientistas e marinheiros

Naief Haddad e Marcus Leoni
Enviados especiais ao arquipélago de São Pedro e São Paulo (PE)

Com a pele maltratada pelo sol, Aristides Câmara de Melo, que comanda o barco Transmar 1, aparenta ter mais que os seus 59 anos. Os vincos no rosto de quem trabalha no mar desde os 16 anos ficam nítidos quando ele, homem de risada fácil, esboça um sorriso. No entanto, o mestre do barco, como é chamado, demonstrava preocupação quando a reportagem o acompanhou no Transmar 1.
A principal tarefa dele e dos seis homens da sua equipe é oferecer apoio aos cientistas de todo o país que desenvolvem pesquisas no arquipélago de São Pedro e São Paulo, a área mais oriental de todo o território do Brasil. Aristides e seus companheiros de mar não pertencem à Marinha, mas são pagos pela instituição para ajudar os pesquisadores, como nas atividades de mergulho.
Além desse apoio, eles se dedicam à pesca ao longo das duas semanas em que permanecem em torno das ilhas. Depois, são rendidos por outra equipe em outro barco, que vem de Natal -embora pertença a Pernambuco, o arquipélago fica mais próximo do Rio Grande do Norte.
"[O número crescente de tubarões] está atrapalhando a gente. Pode acabar a pesca por aqui", diz Aristides. Ele acredita que a população desses peixes tenha começado a aumentar há três, quatro anos.
À noite, hora de pescar, os homens do Transmar 1 buscam, sobretudo, o atum, de alto valor comercial, mas os tubarões têm afugentado o alvo da pesca. Nos 16 dias que antecederam a entrevista, a tripulação havia capturado 28 atuns. Em outros tempos, lembra Ramiro Teixeira da Silva, já teriam passado de 200 os peixes apanhados àquela altura.
Com 65 anos e três décadas de trabalho em barcos dedicados à pesca, Silva afirma nunca ter visto tamanha quantidade de tubarões na região como nos últimos cinco anos.
Por volta de 18h30 de 24 de março, o mar que rodeia o arquipélago, antes azul-turquesa, já havia dado lugar a uma enorme mancha escura. Era difícil distinguir onde acabava o mar e onde começava o céu.
O Transmar 1 chegou a uma área com grande incidência de peixes-voadores, e os seus tripulantes acenderam luzes fortes em direção ao mar para atraí-los. Não passaram sequer três minutos para que os bichos começassem a rodear o barco. As barbatanas peitorais longas servem como asas de um planador, que permitem aos peixes-voadores dessa região saltar por uma distância de até 4 m.
Em geral, esses "voos" não ultrapassavam 50 cm de altura, mas havia peixes capazes de ir além de 1 m, o que levava alguns deles a cair dentro da embarcação. Um atingiu as costas deste repórter -por sorte, era um exemplar pequeno. Nos arredores do arquipélago, há registro de peixes-voadores de até 36 cm.
O zigue-zague na superfície do oceano provocava fascínio em todos a bordo, mas o espetáculo principal estava por vir. Dois minutos depois de os peixes-voadores dominarem a área, surgiu um tubarão de cerca de 2 m à direita do barco. Após alguns segundos, outro é visto atrás do Transmar 1. Em menos de cinco minutos, os protagonistas ocuparam definitivamente a cena.
O Transmar 1 ficou rodeado por cerca de 50 tubarões, segundo estimativa do oceanógrafo Jorge Eduardo Lins, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que também estava no barco. Os peixes-voadores emergiam da água como raios enquanto os tubarões se movimentavam mais lentamente. A velocidade superior da presa, contudo, parecia inútil diante dos predadores.
Durante 30 minutos, a cena em que um tubarão tirou a cabeça da água para abocanhar o peixe-voador se repetiu incontáveis vezes.
O oceanógrafo observava o embate no mar com a excitação de um artilheiro que vê a bola diante do gol. Lins logo colocou na água o apetrecho que acabara de montar para registrar a ação dos tubarões. Era uma GoPro (pequena câmera digital resistente à agua) amarrada na ponta de um bambu.
O fuzuê no mar exigia agilidade do oceanógrafo, que conseguiu fotografar os peixes embora tivesse que suspender o bambu rapidamente diversas vezes. Caso contrário, os bichos poderiam danificar a câmera. Ao lado de Lins, o mestre Aristides se divertia com o sobe-e-desce da haste.
Nessa meia hora, não houve pesca. Naquele início de noite, o objetivo dos homens do Transmar 1 era mostrar a Lins e à reportagem a quantidade espantosa de tubarões que vinham à superfície à procura dos peixes-voadores. De qualquer modo, caso tentassem pescar, dificilmente teriam sucesso.
Ao observar a movimentação ao redor do barco, mestre Aristides comentou: "Se está assim, cheio de tubarões perto da superfície, imagine quanto haverá mais abaixo".
'Fertilização'
Lins também crê que a população de tubarões nas proximidades do arquipélago tenha aumentado nos últimos anos, embora observe que é preciso um estudo mais detalhado para indicar a taxa de crescimento.
No entanto, diferentemente dos pescadores, o oceanógrafo não avalia o fato como negativo. "A pesca feita no entorno do arquipélago é artesanal, muito incipiente. A atividade pesqueira não está entre os objetivos principais das operações aqui", afirma Lins.
De fato, a única embarcação permanentemente na área é o pequeno barco responsável pelo apoio aos pesquisadores. O navio da Marinha, no qual viajou a reportagem da Folha, vai a São Pedro e São Paulo quatro ou cinco vezes por ano.
Para Lins, a alta do número de tubarões é, "a princípio, uma boa notícia" no que diz respeito à biodiversidade. De acordo com ele, esse crescimento pode ser decorrência de uma oferta maior de alimentos nos arredores do arquipélago. "É uma zona de grande fertilização", diz.
Mas o oceanógrafo lança ainda outra hipótese, complementar à primeira. A expansão pode ser uma consequência de decisão da Convenção sobre Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas de Fauna e Flora (Cites, em inglês), que proibiu no início de 2013 a captura de algumas espécies de tubarões.
A iniciativa da convenção foi muito influenciada por determinação da Comissão Internacional para Conservação do Atum do Atlântico (ICCAT, em inglês), de 2012, que já vetava a pesca de espécies como o tubarão-martelo. O Brasil é signatário da ICCAT.
A pesquisadora Danielle de Lima Viana, uma das organizadoras do livro "O Arquipélago São Pedro e São Paulo - 10 Anos", também celebra o aumento da quantidade de tubarões. Ela se recorda que um dos textos do livro, lançado em 2008, mencionava que o tubarão-das-galápagos estava praticamente extinto.
Agora, diz Danielle, há fortes sinais da existência desse tubarão, cujo nome científico é Carcharhinus galapagensis, entre os cardumes nos arredores de São Pedro e São Paulo. "Teremos um resultado mais definitivo nos próximos meses", afirma.
Um dos temas de pesquisa de Danielle foi o tubarão-baleia, o maior peixe dos oceanos -em 1987, em Taiwan, foi encontrado um espécime com 20 m e 34 toneladas. De acordo com a pesquisadora, é justamente São Pedro e São Paulo a área com maior probabilidade de encontrar o tubarão-baleia dentro da faixa oceânica sob jurisdição do Brasil. Entre 2000 e 2008, período do estudo realizado por ela, essa espécie foi vista mais de cem vezes nos arredores das ilhas.
Não se viu peixe-tubarão nos três dias em que a reportagem permaneceu no arquipélago. Entre os tubarões observados, de espécies ainda não identificadas, o maior media em torno de 3 m "apenas".

Os jornalistas Naief Haddad e Marcus Leoni viajaram ao arquipélago de São Pedro e São Paulo a convite da Marinha do Brasil

A viagem de Darwin

"Nos rochedos só encontramos duas qualidades de aves -uma espécie de pelicano e outra de gaivota, ambas tão mansas e estúpidas, talvez em virtude de não se acharem acostumadas a ver visitantes, que eu poderia ter abatido quantas quisesse com meu martelo geológico."
São observações do ambientalista inglês Charles Darwin (1809-1882) sobre o arquipélago de São Pedro e São Paulo, por onde passou em 16 de fevereiro de 1832.
Ao falar a respeito de "uma espécie de pelicano", ele provavelmente se referia aos atobás, aves de bico pontudo que vivem às centenas no local. A passagem por essas ilhas do oceano Atlântico integrou a primeira parte de sua viagem ao redor do mundo, a bordo do HMS Beagle. A expedição, que se estendeu de 1831 a 1836, resultou no livro "A Viagem do Beagle".
Três décadas depois, Darwin se consagrou ao lançar "A Origem das Espécies", obra em que apresenta a Teoria da Evolução.
O naturalista ficou impressionado quando se viu "rodeado de pássaros por todos os lados e, não menos importante, observou que eles permaneciam imóveis diante da presença humana", como registra o livro "O Arquipélago São Pedro e São Paulo - o Brasil no Meio do Atlântico", lançado em 2015.
Segundo o livro, organizado pela Marinha e por professores de universidades de Pernambuco e Rio Grande do Norte, "Darwin adquiriu fascínio sobre o arquipélago, sendo um dos primeiros a sugerir que era único entre as ilhas oceânicas".
Essa singularidade sinalizada pelo ambientalista relaciona-se à formação geológica dessas ilhas. Darwin não avançou no detalhamento a respeito da coluna rochosa sobre a qual está São Pedro e São Paulo -os estudos minuciosos sobre o tema por pesquisadores do Brasil e do exterior só começaram no final do século 20. Mas o inglês estava certo ao apostar em um fenômeno muito particular.
Batismo
Darwin foi o mais notável entre os navegadores que passaram por São Pedro e São Paulo, mas não o primeiro.
Em 1511, um acidente levou à descoberta do arquipélago. "Um dos seis navios guiados por Dom Garcia de Noronha, que navegava do Brasil para a ilha de São Tomé, na costa africana, perdeu-se durante a noite e chocou-se com os rochedos", descreve "O Brasil no Meio do Atlântico". Chamava-se São Pedro o navio que afundou.
Em 1513, o navegador espanhol Juan da Nova de Castello fez o primeiro registro a respeito das pequenas ilhas. Após seis anos, o arquipélago apareceu nas anotações do cartógrafo português Jorge Reinel.
A partir daí, o nome, ao ser abreviado, começou a ser confundido com São Paulo, o que tornou corrente o uso de São Pedro e São Paulo. Essa é uma versão para o batismo do arquipélago.
Outra versão conta que, durante o naufrágio, a tripulação do São Pedro foi socorrida por um outro navio da frota, o São Paulo. Daí a associação dos nomes.
Naufrágios
Com pequenas dimensões (a área emersa é de cerca de 13 mil m²) e baixas altitudes (18 m é o ponto máximo), os rochedos se tornaram uma armadilha para navios e barcos.
Há cerca de uma década, uma expedição da Universidade Federal Rural de Pernambuco e do Instituto Oceanário de Pernambuco encontrou destroços de uma embarcação de 50 metros de comprimento, que havia afundado nos arredores do arquipélago entre os séculos 17 e 19.
Muito por conta dessas dificuldades, as passagens pelas ilhas eram muito breves até meados do século 19. Foi o zoólogo escocês Charles W. Thompson, em 1873, o primeiro a permanecer por dois dias no arquipélago. Nesse período, os cientistas que o acompanhavam recolheram exemplares da fauna local.
Ao longo das décadas seguintes, a atenção do Brasil a esses rochedos não se equiparava à curiosidade de britânicos e franceses. Sinais de mudança da visão do governo do país só vieram à tona em 1931, com a expedição do professor de geologia da Escola de Minas Odorico Menezes para estudar São Pedro e São Paulo.
Entretanto, foi outro episódio da primeira metade do século 20 que, de fato, chamou a atenção para o arquipélago. Em julho de 1945, o cruzador Bahia, navio de guerra da Marinha brasileira, afundou nas proximidades dos rochedos, levando mais de cem marinheiros à morte.
Questão estratégica
O interesse do Brasil pelas ilhas só cresceu efetivamente na década de 1980, e a razão era, sobretudo, estratégica.
Assinada pelo Brasil em 1982, a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar fortaleceu o conceito de Zona Econômica Exclusiva (ZEE), que previa "direitos de soberania" ao país por uma extensão de 200 milhas a partir da costa marítima.
A ZEE também contemplava as ilhas, desde que fossem habitadas. Ao tomar posse de São Pedro e São Paulo, o Brasil ampliaria em 15% a área oceânica sob sua jurisdição.
Foi o que, enfim, se concretizou em 1998, quando o país inaugurou a estação científica no arquipélago, sob os cuidados da Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (Secirm).
"São Pedro e São Paulo é um caso único de formação de ilhas em todo o Atlântico, o que atrai um interesse muito forte da comunidade científica", afirma o capitão-de-corveta Marco Antônio Carvalho de Souza, gerente do Programa Arquipélago de São Pedro e São Paulo (Proarquipelago), órgão submetido à Secirm.
"O arquipélago desperta também um interesse estratégico significativo", diz Carvalho. "Está localizado já no hemisfério norte, bastante afastado da nossa costa, o que dá ao Brasil uma área de zona econômica exclusiva gigantesca. Forma-se uma circunferência com raio de 200 milhas ao redor das ilhas, resultando em 450 mill km² sob jurisdição do país."
Com a instalação da estação científica, o arquipélago que havia fascinado Darwin ganhava, 166 anos depois, relevância nacional.

Ciência
Ilha de pesquisa

"Esse arquipélago não é para amadores", afirma o zoólogo Estevam Araújo, 37, referindo-se a São Pedro e São Paulo, onde ele permaneceu entre 23 de abril e 8 de maio deste ano.
"É um ambiente hostil, que requer grande preparo de pesquisadores como eu. Por outro lado, é isso que eu esperava do arquipélago, que esteja assim, preservado", diz Araújo, que prepara o doutorado na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).
Seu tema de estudo é o Collembola, inseto minúsculo (os maiores no local têm 1 mm, no máximo), que se alimenta de algas, fungos e animais em decomposição.
Para se tornar apto para o trabalho no arquipélago, sob condições severas de mar e vento, o zoólogo participou de treinamento de uma semana em Natal, promovido pela Marinha. Ele teve orientações sobre primeiros socorros, combate a incêndio e sobrevivência no mar e aprendeu a manejar equipamentos, como o sistema dessalinizador, que produz água potável a partir da água do mar. Também passou por uma rigorosa avaliação de saúde.
Antes de Araújo, mais de 1.300 pesquisadores de 20 universidades brasileiras passaram por essa preparação antes desembarcar em São Pedro e São Paulo. Desde que foi inaugurada, em 1998, a estação científica do local recebe quatro cientistas ou estudantes por vez. Eles permanecem no local por duas semanas, em média.
"O arquipélago funciona como um laboratório para a formação de recursos humanos voltados para as ciências do mar", afirma o capitão-de-corveta Marco Antônio Carvalho de Souza, gerente do Proarquipélago (Programa Arquipélago de São Pedro e São Paulo).
Construída sobre rochedos, a estação recebe alunos de graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado oriundos de áreas como biologia, zoologia, geologia, oceanografia e farmácia.
De acordo com Carvalho, a manutenção da estação pela Marinha custa em torno de R$ 2 milhões por ano, gasto que inclui ainda o treinamento dos pesquisadores e o deslocamento deles até o arquipélago em pequenos barcos. "Em função da proximidade do mar, a deterioração dos equipamentos é muito acentuada", acrescenta o capitão-de-corveta sobre as despesas do programa.
Durante a visita da reportagem às ilhas, técnicos se dedicavam ao conserto do sismógrafo e da antena da Embratel, que serve de local de pouso para os atobás.
Habitués
Para desenvolver os estudos em São Pedro e São Paulo, não basta ao acadêmico o treinamento em Natal. Antes, ele terá que se submeter a um edital do CNPq.
Se a metodologia científica for aprovada pelo conselho de pesquisadores da agência de fomento, o projeto é enviado para uma equipe do Proarquipélago, que analisa as condições logísticas para levá-lo adiante.
Cumpridas essas etapas, o pesquisador viaja em um pequeno barco por quatro dias para chegar a São Pedro e São Paulo.
As dificuldades de acesso não impedem que alguns cientistas se tornem habitués dessas ilhas rochosas a meio caminho da África.
A bióloga Danielle de Lima Viana, ligada à Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), assistiu a uma palestra sobre São Pedro e São Paulo em 2003, quando ainda estava na graduação.
O arquipélago, sobre o qual nunca tinha ouvido falar, tornou-se uma obsessão para a pesquisadora de 36 anos, que viajou ao local pela primeira vez em 2005. Realizou uma primeira pesquisa sobre os tubarões-baleias -nos mares brasileiros, São Pedro e São Paulo é onde há maior incidência da espécie.
No mestrado, seu tema foi a cavala, peixe com grande presença na região do arquipélago. No doutorado, Danielle estudou o peixe-prego da espécie Ruvettus pretiosus, que vive nas profundezas do mar.
Ela já perdeu a conta de quantas vezes viajou a São Pedro e São Paulo -pelo menos 30, arrisca a pesquisadora.
Outro grande conhecedor do arquipélago é o oceanógrafo Jorge Eduardo Lins de Oliveira, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Ele também acredita que suas visitas ao local já tenham passado das três dezenas.
"Fazendo analogia com as corridas de carros, o arquipélago é como um 'pit-stop', onde os peixes se abastecem. Fica numa região acima da linha do Equador onde passam os grandes pelágicos, como baleias, tubarões e golfinhos. Há uma formação rochosa em torno da qual se desenvolveu uma rica cadeia alimentar", afirma Lins de Oliveira.
"Além disso, por conta do isolamento geográfico, existem na área seres vivos que não se distribuíram ao longo do tempo. Só são encontrados lá [endêmicos]", complementa o professor, que cita espécies de algas e corais.
De acordo com estudo publicado no livro "O Arquipélago São Pedro e São Paulo: 10 anos de Estação Científica", há no local 60 espécies de peixes que vivem em torno dos arrecifes. Desses, cinco só são encontrados no arredores do arquipélago, como o Stegastes sannctipauli, um tipo de peixe-donzela, herbívoro e de cor amarela.
Quando entrevistado pela Folha, Araújo, da UFRJ, ainda coletava os Collembolas. Embora estivesse em fase inicial da pesquisa, ele acreditava que eram grandes as chance de identificar espécies endêmicas do inseto devido ao ambiente insular.
Nova estação
Junto com outros três pesquisadores, o zoólogo usou a estação científica como espaço de trabalho, mas também como dormitório.
Trata-se de uma construção de madeira de 45 metros quadrados, que se sustenta em colunas pré-fabricadas de concreto, com 1,80 m.
A atual estação foi erguida em 2008, em substituição à primeira, que é de 1998. Ambas foram projetadas pelo Laboratório de Planejamento e Projetos da Universidade Federal do Espírito Santo.
Como uma nova estrutura é montada a cada década, o arquipélago deve ganhar nova estação científica em 2018. Desta vez, o projeto será feito em "casa" -ficará a cargo do Centro Tecnológico da Marinha, em São Paulo.
De acordo com Carvalho, não há uma estimativa de custo para essa construção porque sua equipe busca empresas que atuem em parceria com a Marinha, doando materiais, por exemplo.
Na nova obra, cada coluna será mais alta, com 3 m. Assim, os estragos causados pelas marés altas -comuns especialmente nos primeiros anos de estação- devem se tornar mais improváveis.
Outra preocupação na elaboração do projeto é a frequência de terremotos. "No arquipélago, a gente sente tremidinhas, mas nunca sabemos se é um abalo sísmico ou a força da batida das ondas", conta Araújo.

Terra que treme
A 1.100 km de Natal (RN), o arquipélago de São Pedro e São Paulo está entre os pontos habitados do território brasileiro com maior frequência de terremotos.
O professor Aderson Nascimento, coordenador do Laboratório Sismológico, conhecido como LabSis, da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), chama a atenção ainda para a situação de cidades como Caruaru (PE), Irauçuba (CE) e João Câmara (RN), todas no Nordeste.
A estação sismográfica do Labsis foi instalada no arquipélago em 2011. Desde então, já foram registrados mais de 350 tremores, que vão de 2 a 5 na escala Richter -a escala vai de zero a dez.
De acordo com Nascimento, a média é de três a quatro ocorrências por semana. Mas já foram registrados dez terremotos de baixo impacto em um só dia. Durante a visita da reportagem a São Pedro e São Paulo, entre 23 e 25 de março, tremores não foram percebidos.
É rara a incidência no local de abalos sísmicos de intensidade entre moderada e forte, o que, evidentemente, não significa que não ocorram. No início de junho de 2006, uma série de tremores -o mais intenso atingiu a magnitude de 6 pontos- somada à ressaca do mar deu origem a ondas de até 5 m de altura.
O fenômeno obrigou os pesquisadores a se refugiar no farol, o ponto mais alto de São Pedro e São Paulo, e levou à destruição de parte da estrutura da estação científica, reconstruída nos dias seguintes.
De acordo com estudos recentes de geólogos, a ocorrência de um tsunami no local é muito improvável.

Falha transformante
Por que, afinal, os tremores são tão frequentes no arquipélago?
A resposta está, sobretudo, na localização dos rochedos. Pense numa enorme fenda, que rasga o fundo do oceano. Assim é a chamada falha transformante, situada entre duas placas tectônicas.
O arquipélago fica justamente sobre a chamada Falha Transformante de São Paulo, uma das maiores do planeta, com cerca de 630 km de extensão e 120 km de largura. Ela separa as placas africana, ao norte, e a sul-americana, ao sul.
O que se vê na superfície é apenas o cume de uma estrutura de cerca de 4 km de profundidade.
Conforme explica o coordenador do LabSis, a falha transformante está sujeita a constantes movimentos de compressão e deslizamento das placas tectônicas. Como sua base está sobre a falha, o arquipélago sofre os efeitos dessa dinâmica.
São Pedro e São Paulo é, aliás, um prato cheio para os geólogos. Nenhuma outra ilha no Atlântico tem a mesma formação rochosa.
As demais são vulcânicas, o que implica serem formadas por magma e terem crescido sobre as placas tectônicas, e não entre elas, como ocorre com São Pedro e São Paulo.
O arquipélago é formado por rochas ultramáficas, que possuem alto teor de ferro e magnésio.
As pesquisas geológicas, contudo, ainda estão em fase preliminar. "Como o arquipélago está sob compressão, a tendência é que esteja subindo alguns milímetros por ano. Mas ainda não temos detalhes da movimentação dessas rochas", afirma Nascimento.
"Há muito por estudar", diz o professor da UFRN. A frase dele se refere à geologia nas dez ilhas que formam São Pedro e São Paulo. Mas as mesmas palavras caberiam para áreas como biologia, oceanografia, pesca e até farmacologia.
Descoberto há 506 anos, o pequeno arquipélago ainda guarda um universo de possibilidades para a ciência.

FSP, 14/05/2017, Ciência, p. B8-B9

http://arte.folha.uol.com.br/ciencia/2017/arquipelago/#/fauna-marinha

http://arte.folha.uol.com.br/ciencia/2017/arquipelago/#/historia