As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos.

OESP, Nacional, p. A10
13/10/2011
No PA, vida de extrativista vale R$ 80 mil

No PA, vida de extrativista vale R$ 80 mil
Ameaçado por invasores de reserva no Pará, líder é protegido por 2 homens, mas pede base policial na área de 736 mil hectares

FERNANDO GALLO

Para grileiros e madeireiros que aos poucos voltam a invadir a reserva extrativista Riozinho do Anfrísio, 736 mil hectares protegidos em Altamira (PA), a vida de Raimundo Belmiro vale R$ 80 mil. Para ele, líder extrativista nascido e criado na região, a vida da floresta não tem preço. "A floresta é a nossa vida."
Há um mês e meio, o Ministério Público Federal enviou ofício à Polícia Federal pedindo proteção a Belmiro. Na avaliação de procuradores da República do Pará, o valor é muito alto para os padrões da pistolagem local - sinal de que as denúncias feitas pelo extrativista de que grileiros, madeireiros e fazendeiros invadem a reserva estão incomodando.
Por ora, Belmiro é protegido por dois policiais, que o escoltam na reserva e nas viagens mensais a Altamira. "Mas quando eu venho para a cidade, minha família e todas as outras pessoas que vivem lá ficam desprotegidas dentro da reserva."

Quando começaram as ameaças de morte?

No inicio da Resex (reserva extrativista), em 2004. Nessa época, fui tirado da Resex e levado para Brasília, a pedido da Marina Silva, que era ministra.

Você sempre morou na região?

Nasci e me criei lá. Fomos eu e meu tio, Herculano Porto, que lutamos pela criação da Resex. Por isso, os grileiros, e os madeireiros, que estavam invadindo, tomaram a atitude de nos ameaçar, de querer nos matar.

Como as ameaças chegaram até vocês?

Em 2004, chegaram até a botar placa na boca do igarapé. E mandaram pessoas virem falar pra gente. Chegaram a dizer isso pessoalmente. Diziam que não reconheciam a área como federal, que era uma área que eles tinham comprado. E que não adiantava eu me mexer. Esse pessoal você sabe como é... vem com pistoleiro e tudo o mais.

E então?

O governo federal enxergou isso e mandou tirar a gente de lá. Criaram a Resex e montaram uma base do Exército dentro, junto com o Ibama e a polícia. Estava bom até este ano. Em 2007, eles voltaram a invadir a Resex. Em 2011, voltaram a me ameaçar, porque eles pensam que sou eu que faço todas as denúncias contra eles. E não é bem assim. Mas eu tenho que explicar para os órgãos federais, como o ICMBio (Instituto Chico Mendes, autarquia vinculada ao Ministério do Meio Ambiente responsável pela fiscalização da reserva) o que está acontecendo. Sou presidente da associação de moradores e um dos diretores da Resex. Se eu não explicar, a culpa cai sobre mim.

Como funcionava essa base?

Tinha uma base do Exército que durou oito meses. Depois, o clima ficou tranquilo e eles saíram. Aí, em 2008, 2009, eles voltaram para dentro da Resex.

Quem são eles?

É um grupo, um pessoal aí que eu não sei bem informar.

Não sabe ou teme dizer?

Eu tenho receio. Eu sei quem é, a PF sabe, o ICMBio sabe.

São madeireiros e grileiros?

Isso. E fazendeiros. Tudo junto.

E eles alegam que a área pertence a eles?

Desde 2001, 2002. Mas o governo em 2004 os retirou. Os que eles pegaram, prenderam. E os que não foram pegos são alguns dos que estão me ameaçando.

Eles foram indenizados?

De jeito nenhum. Eles estavam ilegalmente, com documento frio, falando que o documento estava em dia. Diziam que tinham tirado os documentos de propriedade das terras em Brasília. Mas na época, em 2004, quando se criou a reserva, eu conversei pessoalmente com o presidente Lula. Ninguém em Brasília conhecia esse pessoal.

Quando as ameaças voltaram?

As invasões de madeireiros voltaram em 2007, mas foi em 2011 que voltaram as ameaças. Pra andar na cidade (Altamira), eu tenho que ter dois seguranças comigo. Estou andando com dois seguranças. Porque disseram que vão tirar a minha vida daqui para o fim do ano.

Quem paga pela segurança?

O ICMBio.

Você se sente seguro?

Pra mim, o melhor é ter uma base do ICMBio lá dentro, com a polícia, para poder fazer vistorias na área. Porque veja, quando eu venho para a cidade, minha família e todas as outras pessoas que vivem lá ficam desprotegidas.

Você é casado?

Sou. Tenho nove filhos.

Vocês são em quantos moradores na reserva?

São 58 famílias cadastradas. Uma base de 280 a 300 pessoas.
O sr. tem conversado com quem no governo?
Com gente da Casa Civil, dos Direitos Humanos, e com o chefe do ICMBio em Brasília, o Paulo Carneiro. Eles estão correndo atrás de ver essa base.

O sr. disse que uma tragédia poderia ocorrer se nada fosse feito. A que se referia?

Se o governo não tomar providências, a tragédia é acontecer como vem acontecendo com lideranças da região. Em 25 de agosto, aconteceu em Marabá com aquele rapaz (Valdemar Barbosa Oliveira, líder de assentados morto a tiros após ameaças).

E em Nova Ipixuna (PA), com o casal José Cláudio e Maria do Espírito Santo.

Esse rapaz pediu proteção. O governo não se ligou. O que aconteceu? Perdeu a vida defendendo o que tinha que defender. A floresta é a nossa vida.

Como o sr. recebeu a notícia de que sua vida vale R$ 80 mil?

Fiquei sorrindo, não sabia se era verdade. Depois vi que era.

OESP, 13/10/2011, Nacional, p. A10

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,no-pa-vida-de-extrativista-v...