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O Globo, Rio, p. 7
06/01/2018
O perigo que ressurge

O perigo que ressurge
Morte de macaco faz estado reforçar vacinação e pedir à população que evite reserva na Baixada

ANA LUCIA AZEVEDO
ala@oglobo.com.br

A vacinação contra a febre amarela será intensificada em Nova Iguaçu, Miguel Pereira e Tanguá, onde macacos foram mortos pela doença.
O verão trouxe o temor da febre amarela de volta ao Estado do Rio: foi constatado que o vírus da doença circula junto a uma das principais áreas de lazer da Baixada Fluminense. A Secretaria de Saúde informou ontem que um macaco infectado morreu na Reserva Biológica do Tinguá, em Nova Iguaçu. Toda a população do bairro de mesmo nome será imunizada, e o órgão pede às pessoas que não estão vacinadas para evitarem a região. Rural, Tinguá tem menos de dois mil habitantes, mas, nos fins de semana, recebe um grande número de moradores de vários municípios da Baixada, por causa de suas muitas piscinas naturais. O cenário preocupa porque é formado por bares e restaurantes numa margem de rio; na outra, está a floresta e mosquitos transmissores da forma silvestre da doença.
A Secretaria de Saúde ofereceu à prefeitura de Nova Iguaçu um hospital de campanha e cem mil doses extras de vacina, e pediu à administração municipal a montagem de um esquema de alerta a visitantes da reserva. Quem não está imunizado será aconselhado a dar meia-volta. O mesmo valerá para quem foi vacinado há menos de dez dias. Ontem, já houve reforço nos trabalhos de imunização, mas, de acordo com o estado, não há epidemia nem casos confirmados de pessoas infectadas.
BAIXA COBERTURA DE IMUNIZAÇÃO
Apesar de o Sudeste brasileiro ter registrado, nos últimos dois anos, a pior epidemia de febre amarela silvestre da América do Sul, Nova Iguaçu permanece com baixíssima cobertura vacinal. A prefeitura informou à Secretaria de Saúde que apenas 24,1% da população da cidade está imunizada. O percentual considerado eficaz por especialistas é 90%. Na verdade, a cobertura é baixa em todo o estado - gira em torno de 50%. No município do Rio, o índice é de 40%, segundo Alexandre Chieppe, subsecretário estadual de Vigilância em Saúde.
De acordo com Chieppe, cinco milhões de doses foram aplicadas em cidades fluminenses no ano passado. Ele assegura que há vacina suficiente nos postos de saúde. A título de comparação, as áreas fortemente afetadas pela epidemia em Minas Gerais, o estado mais atingido, tinham percentuais de cobertura vacinal semelhantes aos do Rio de Janeiro. O município de Ladainha, que registrou os primeiros casos, tinha 47,51% dos habitantes vacinados. Piedade de Caratinga, 48,27% de cobertura vacinal no período pré-epidemia. Imbé de Minas, 28,81%. Todos mais que Nova Iguaçu.
- Temos uma situação de relativa tranquilidade, com um milhão de doses no estado, entre as distribuídas aos municípios e as que estão em nosso estoque. A cobertura é baixa, mas há vacina disponível nos postos de saúdes. Infelizmente, a população, principalmente a de centros urbanos, não tem feito a imunização. Houve uma correria no ano passado, mas, depois de alguns meses, a procura caiu muito. Precisamos que a população colabore e procure se vacinar, o que pode ser feito com tranquilidade. Nossa recomendação é que toda a população se vacine, à exceção de idosos, imunodeprimidos e alguns casos específicos sobre os quais há informação disponível nos postos - disse Chieppe.
Segundo ele, o ministro da Saúde, Ricardo Barros, deverá anunciar uma estratégia nacional de vacinação de febre amarela na terça-feira, com foco no Rio, na Bahia e na Grande São Paulo, que teve de fechar fechar 29 parques nas últimas semanas devido à morte de macacos com febre amarela. Oficialmente, o acesso à Reserva do Tinguá é restrito, mas suas matas são frequentadas praticamente todos os dias por caçadores e palmiteiros .
VÍRUS FAZ O CAMINHO PREVISTO POR ESPECIALISTAS
A morte de um bugio, a espécie de macaco mais suscetível à febre amarela, diz muito. Confirma que o vírus da doença está presente e ativo. O corpo do animal foi encontrado numa mata perto da divisa entre Nova Iguaçu (Tinguá) e Duque de Caxias (Xerém). Além de Nova Iguaçu, receberam recomendação de ampliar a vacinação Tanguá e Miguel Pereira, que também tiveram mortes de macacos por febre amarela confirmadas.
As mortes dos animais comprovam que o vírus faz o caminho previsto por especialistas desde o início de um surto, no verão passado. Ele se espalha pelos corredores de florestas e mata macacos, que são preciosos aliados do ser humano, sentinelas involuntárias da presença da febre amarela.
- O vírus fez o que se esperava. Ele continua a se expandir pelo Sudeste. O que espanta é o Estado do Rio continuar com uma cobertura vacinal tão baixa. O Ministério da Saúde decretou o fim do surto no ano passado. Infelizmente, macacos, mosquitos e vírus não se importam com anúncios oficiais, algo que agora está óbvio. A vacinação é fundamental. Um estado em crise como o Rio não pode correr o risco de enfrentar uma epidemia de uma doença da gravidade da febre amarela - destaca Maurício Lacerda Nogueira, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia.
Alexandre Chieppe diz que há duas preocupações básicas. A primeira é garantir que os moradores da região não fiquem doentes por falta de vacina. É a mais simples, devido à baixa densidade demográfica de Tinguá. A segunda, impedir que moradores de outras áreas sejam contaminados, o que poderia urbanizar a febre amarela no estado.
As formas urbana e silvestre da febre amarela têm o mesmo vírus. O que muda é a transmissão. A forma da doença que causou epidemia em 2017 é a silvestre, transmitida pelos mosquitos Sabethes e Haemagogus, que só vivem em áreas de mata ou contíguas a elas e, por isso, não se espalham com facilidade. O grande medo é que o vírus chegue às cidades infestadas pelo Aedes aegypti, o transmissor da forma urbana. Ele é extremamente eficiente na propagação do vírus, e causou algumas das piores epidemias da História. A febre amarela urbana foi erradicada no país em 1942.
- O maior problema é o visitante sem vacina, que se expõe ao risco de ser picado por mosquitos silvestres infectados e que vive em bairros populosos da Região Metropolitana. A Reserva do Tinguá é frequentada por moradores de Nova Iguaçu, Mesquita, Belford Roxo e São João de Meriti, entre outros municípios. Também recomendamos fortemente a vacina para os turistas que vão a Miguel Pereira - frisa Chieppe.
Considerado uma dos maiores especialistas do mundo em febre amarela, o virogista Pedro Fernando da Costa Vasconcelos, diretor do Instituto Evandro Chagas, no Pará, destaca que vacinação deve ser uma prioridade nacional:
- Desde que o inverno reduziu os mosquitos e, com isso, o surto perdeu a força, autoridades pararam de falar sobre a importância da vacinação, o que foi muito ruim. O Brasil todo tem que se vacinar. Abaixo de 90% não há garantias. Isso não precisa ser feito de uma vez, até porque não há vacina suficiente para todo o país. Mas São Paulo e Rio de Janeiro têm de agir logo. Não é uma operação trivial, mas é necessária.
"O vírus fez o que se esperava. Ele continua a se expandir pelo Sudeste. O que espanta é o estado continuar com uma cobertura vacinal tão baixa" Maurício Lacerda Nogueira Presidente da Sociedade Brasileira de Virologia
Alexandre Chieppe diz que há duas preocupações básicas. A primeira é garantir que os moradores da região não fiquem doentes por falta de vacina. É a mais simples, devido à baixa densidade demográfica de Tinguá. A segunda, impedir que moradores de outras áreas sejam contaminados, o que poderia urbanizar a febre amarela no estado.
As formas urbana e silvestre da febre amarela têm o mesmo vírus. O que muda é a transmissão. A forma da doença que causou epidemia em 2017 é a silvestre, transmitida pelos mosquitos Sabethes e Haemagogus, que só vivem em áreas de mata ou contíguas a elas e, por isso, não se espalham com facilidade. O grande medo é que o vírus chegue às cidades infestadas pelo Aedes aegypti, o transmissor da forma urbana. Ele é extremamente eficiente na propagação do vírus, e causou algumas das piores epidemias da História. A febre amarela urbana foi erradicada no país em 1942.
- O maior problema é o visitante sem vacina, que se expõe ao risco de ser picado por mosquitos silvestres infectados e que vive em bairros populosos da Região Metropolitana. A Reserva do Tinguá é frequentada por moradores de Nova Iguaçu, Mesquita, Belford Roxo e São João de Meriti, entre outros municípios. Também recomendamos fortemente a vacina para os turistas que vão a Miguel Pereira - frisa Chieppe.
Considerado uma dos maiores especialistas do mundo em febre amarela, o virogista Pedro Fernando da Costa Vasconcelos, diretor do Instituto Evandro Chagas, no Pará, destaca que vacinação deve ser uma prioridade nacional:
- Desde que o inverno reduziu os mosquitos e, com isso, o surto perdeu a força, autoridades pararam de falar sobre a importância da vacinação, o que foi muito ruim. O Brasil todo tem que se vacinar. Abaixo de 90% não há garantias. Isso não precisa ser feito de uma vez, até porque não há vacina suficiente para todo o país. Mas São Paulo e Rio de Janeiro têm de agir logo. Não é uma operação trivial, mas é necessária.
"O vírus fez o que se esperava. Ele continua a se expandir pelo Sudeste. O que espanta é o estado continuar com uma cobertura vacinal tão baixa" Maurício Lacerda Nogueira Presidente da Sociedade Brasileira de Virologia "Desde que o inverno reduziu os mosquitos e, com isso, o surto perdeu a força, autoridades pararam de falar sobre a importância da vacinação. O Brasil todo tem que se vacinar. Abaixo de 90% não há garantias" Pedro Fernando da Costa Vasconcelos Diretor do Instituto Evandro Chagas

O Globo, 06/01/2018, Rio, p. 7

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