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O Globo, Rio, p. 12
27/06/2012
Onde as aguas sao atracao

Onde as águas são atração
Estado também tem cursos hídricos livres da poluição, procurados por turistas e pesquisadores

Rafael Galdo
rafael.galdo@oglobo.com.br
Rogério Daflon
daflon@oglobo.com.br

O estado que abandonou seus rios ao esgoto e ao lixo, como O GLOBO vem mostrando desde o último domingo, guarda recantos onde os recursos hídricos são respeitados e admirados.
Visconde de Mauá, Tinguá, Cachoeiras de Macacu... Todos lugares onde os rios são a atração. E, agora, a promessa é que mais cursos d'água componham esse cenário. A Secretaria estadual do Ambiente anunciou ontem que o projeto Sena Limpa, até então restrito às praias, será levado a seis rios do estado, dois deles já escolhidos: o Carioca, na capital, e o Sarapuí, na Baixada Fluminense. Já o programa Rio Rural inclui a proteção de nascentes até as Olimpíadas de 2016.
Mas há rios no estado que não dependem de promessas. E nem precisa ir muito longe para encontrá-los. Em plena Baixada, há água tão límpida que se pode beber da fonte. Na protegida Reserva Biológica do Tinguá, nascentes e riachos cristalinos contrastam com os leitos imundos em que se transformaram os rios a poucos quilômetros dali, como o Iguaçu. Para manter essa área tão preservada, as regras são rígidas. Na reserva, só são permitidas atividades de educação ambiental e pesquisa científica. Nem o turismo é autorizado.
Assim, cachoeiras como a da Boa Esperança, com mais de 60 metros de queda, permanecem intactas. A água ali é tão limpa que, desde o Império, parte dela é captada para abastecer a Região Metropolitana.
- Na época, dom Pedro II percebeu que, com o desmatamento da Floresta da Tijuca, havia escassez de água na capital. O engenheiro Paulo de Frontin foi o encarregado de levar água de Tinguá para a cidade. Assim, foram feitas captações como a da Boa Esperança - conta Flávio Silva, chefe da reserva.
ONG plantou 100 mil mudas em reserva
Dali, seguindo pelo sopé da Serra dos Órgãos, chega-se à Reserva Ecológica de Guapiaçu, em Cachoeiras de Macacu. Há dez anos, a área estava devastada. Até uma ONG, com apoio de voluntários, começar a reflorestá-la. O objetivo era preservar o alto do Rio Guapiaçu, um dos que abastecem São Gonçalo e Niterói. Em cinco anos, foram plantadas cem mil mudas de Mata Atlântica. E o lugar virou destino de pesquisadores e turistas.
- Hoje temos 14 projetos de pesquisa de diferentes universidades.
Recebemos observadores de pássaros, biólogos e botânicos de vários países. E temos 50% de nossa renda gerada pelo ecoturismo. Esta é uma região que mistura características da Mata Atlântica do Norte e do Sul do país - diz Jorge Bizarro, coordenador de pesquisa da reserva.
Da Serra dos Órgãos, o Guapiaçu encontra o Macacu e, depois, o Guapi, antes de desaguar na Baía de Guanabara numa das áreas mais belas do estado: a Área de Proteção Ambiental de Guapimirim.
A APA é sobrevivente da tragédia ambiental da região. São 14 mil hectares onde desembocam os rios mais limpos que chegam à Baía de Guanabara, como o Guapi-Macacu e o Guaraí, que serpenteiam pelo manguezal preservado, transformando-se em honrosas exceções na Região Metropolitana.
- A APA e a Estação Ecológica da Guanabara, dentro dela, são tão importantes que posso afirmar que, se não fossem essas unidades, não haveria mais pescado na baía - diz Breno Herrera, chefe da APA.
Mesmo tão importante, a APA corre perigo. A maior ameaça, realça Breno, é a construção, a apenas dez quilômetros dali, do Complexo Petroquímico do Rio (Comperj), em Itaboraí. Segundo ele, só a impermeabilização do solo já traz impactos ao mangue. Com a expectativa de crescimento populacional na região, diz Breno, o manguezal sofrerá mais pressão, incluindo o aumento do esgoto despejado nos rios.
Em Visconde de Mauá, no Sul do estado, os efeitos positivos do tratamento do esgoto para preservar os rios já podem ser sentidos. Paraíso dos hippies na década de 70, a região ganhou três estações de tratamento, em funcionamento desde 2011, com resultados já perceptíveis no Rio Preto.
- Com as estações, o fundo do rio ficou mais claro. Agora, todo mundo toma banho no rio sem medo - afirma o morador Marcos Paulo dos Santos.
Em Mauá, todas as casas foram ligadas à rede, como prometido, mas há um porém: no lado mineiro do Rio Preto, no município de Bocaina de Minas, ainda não há tratamento. O Instituto Estadual do Ambiente (Inea) já propôs à cidade mineira ligar seu esgoto às estações fluminenses. Mas, por enquanto, não há solução.
Sem tratamento também, o esgoto continua a poluir outra joia do estado: o São João. O rio abastece a Região dos Lagos, mas recebe os efluentes de cidades como Barra de São João. Ali, qualquer um, quando perguntado qual o principal problema do rio, responde: é o lançamento de esgoto. Mas já foi pior: grande parte do lixo local ia parar dentro d'água. Realidade que se modificou graças a ações de educação ambiental, de iniciativa de particulares.
- Passei a levar alunos de colégios da cidade a um passeio pelo rio. Eram até 800 jovens por mês. E, aos poucos, começamos a obter resultados. Hoje não se vê mais uma garrafa PET aqui. Fico zangado com o fato de um rio bonito desse receber esgoto - diz o comerciante Walter Almeida, de 77 anos.
Governo tem planos para limpar rios
l O secretário do Ambiente, Carlos Minc, afirma que, à semelhança do Sena Limpa das praias, a secretaria vai coordenar ações com diferentes órgãos, como Rio-Águas e Cedae, para limpar os rios escolhidos e fazer com que as iniciativas sejam contínuas:
- Faremos a ligação do esgoto das casas à rede formal. Mas, no caso do Carioca, o trabalho só poderá ser realizado com a criação da UPP dos morros dos Guararapes e do Cerro-Corá, no Cosme Velho.
Enquanto isso, o projeto Água Limpa Para o Rio Olímpico, do Rio Rural, repassará a cada produtor R$ 7 mil para proteger nascentes com técnicas sustentáveis, como evitar o contato de animais com os leitos dos rios. Até agora, 393 agricultores aderiram.

O Globo, 27/06/2012, Rio, p. 12