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O Globo, Sociedade, p. 26
28/05/2014
Parques da Copa ficam no 0 x 0

Parques da Copa ficam no 0 x 0

Emanuel Alencar

RIO - O plano era ambicioso: investir R$ 668 milhões na infraestrutura de 23 parques federais, que passariam a ter melhores condições de receber turistas durante a Copa do Mundo. Passados quatro anos do anúncio pelo governo federal, o programa Parques da Copa virou mera abstração. O Ministério do Turismo, parceiro do Ministério do Meio Ambiente na ideia, só garantiu investimentos de R$ 10 milhões, mas apenas R$ 1 milhão foi efetivamente empenhado até agora - sendo metade para o Parque Nacional de Anavilhanas (AM), e a outra metade, para o Parque Nacional de Itatiaia, no Rio. O valor gasto representa tão somente 0,15% do total.
O programa que naufragou vinha sendo encarado pela área ambiental do governo como uma excelente oportunidade para destravar o ecoturismo no país. Os 26 parques federais brasileiros que contabilizam seu público - de um total de 69 - receberam cerca de 6 milhões de visitantes em 2013. Tijuca, no Rio, e Iguaçu, no Paraná, reuniram nada menos do que 80% desse contingente. Uma realidade bastante tímida, se comparada à dinâmica das unidades de conservação de países desenvolvidos. Nos Estados Unidos, os parques receberam 280 milhões de visitantes no ano passado.
Manifesto ambientalista
Organizações ambientalistas lançaram no início do mês, na Câmara dos Deputados, um manifesto em defesa do uso público das unidades de conservação. O documento, assinado por entidades como WWF-Brasil e SOS Mata Atlântica, reforça que a visitação nos parques naturais poderia gerar até R$ 1,8 bilhão por ano até os Jogos Olímpicos do Rio.
- Perdemos uma boa oportunidade de valorizar nosso patrimônio natural - afirmou o vice-presidente da ONG Conservação Internacional no Brasil, André Guimarães. - É uma situação anacrônica, porque o turista, quando vem para o Brasil, tem absoluta convicção de que vai entrar em contato com o meio ambiente. No entanto, o governo não mostra interesse pelas unidades de conservação.
A coordenadora do Programa Mata Atlântica da WWF-Brasil, Anna Carolina Lobo, lamenta que o ecoturismo não esteja na agenda governamental do país.
- O Parques da Copa foi interrompido junto com outros projetos. Não resistiu às mudanças que aconteceram no Ministério do Turismo, um de seus principais financiadores. O turismo ecológico não é uma prioridade dos governos. Tanto é assim que o orçamento anual do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável por todas as 313 unidades de conservação federais, é de apenas R$ 516 milhões. Temos, em média, um funcionário para 150 mil hectares. O Chile tem um funcionário para cada cada 27 mil hectares. E a Argentina, um para 3 mil - compara Anna Carolina.
Fundador do Instituto EcoBrasil, organização focada no turismo sustentável, Roberto Mourão acompanhou de perto a derrocada do Parques da Copa. Ele coordenou um projeto-piloto cujo objetivo era alavancar o turismo no Parque Nacional do Pantanal, na divisa do Mato Grosso com o Mato Grosso do Sul. A ideia era aproveitar o período de reprodução dos peixes para inserir os pescadores da região num programa focado na observação de aves. Quem fosse assistir aos jogos na Arena Pantanal, em Cuiabá, poderia esticar a estada e aproveitar as belezas naturais de um circuito turístico pantaneiro. Um ofício divulgado pela Coordenação Geral de Visitação do ICMBio, em janeiro de 2010, previa aporte de R$ 9,5 milhões no parque. O dinheiro seria investido na construção de um centro de visitantes, postos de informação e controle e infraestrutura viária.
- Me pagaram R$ 18 mil pelo desenvolvimento do programa piloto. E foi só. A gente tinha esperança de que alguma parcela dos R$ 9,5 milhões fosse realmente aplicada. Foi uma ducha de água fria para quem trabalha no parque. Criou-se uma grande expectativa, e não deram um real. Só falta agora inventarem o Parques das Olimpíadas. Que legado é esse? - questiona Roberto.
As áreas verdes federais do Rio também não viram a cor do dinheiro do programa. O Parque Nacional da Tijuca, que espera fechar 2014 com visitação recorde de 3,2 milhões de pessoas - o Cristo Redentor responde historicamente por 80% do contingente -, receberia a maior parcela: R$ 14 milhões. Os parques da Serra dos Órgãos (R$ 6,5 milhões), Itatiaia (R$ 7 milhões) e Serra da Bocaina (R$ 11 milhões) e a Reserva Extrativista Marinha de Arraial do Cabo (R$ 4,5 milhões) completariam a lista.
Prazo, agora, é 2020
Em nota, o ICMBio explicou que o nome Parques da Copa era "apenas uma marca" para tentar atrair investimentos para a infraestrutura dos parques. Desde o ano passado, o órgão, vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, afirma que tem trabalhado com uma "ideia mais ampla de estruturação dos parques nacionais a médio prazo". Agora, o prazo para efetuar as melhorias necessárias para que os parques recebam visitantes é 2020. "Para isso, além de recursos orçamentários (inclusive via Ministério do Turismo), contaremos com recursos de projetos internacionais."

Sem dinheiro, funcionários fazem mutirão e instalam placas no RS
Falta de investimentos públicos desanima gestores, que apelam para o improviso

RENATO GRANDELLE
renato.grandelle@oglobo.com.br

Os cânions dos parques nacionais de Aparados da Serra e Serra Geral, ambos na cidade gaúcha de Cambará do Sul, são de uma beleza incontestável. Mas quem quiser visitar os paredões de até 700 metros de altura também vai contemplar a precariedade das unidades de conservação. Faltam mapas, abrigos e atendentes aos turistas. Uma questão fundamental, a sinalização, foi atenuada, mas não pelo governo. Os funcionários fizeram um "mutirão" e construíram placas de madeira, pintadas com tinta que eles mesmos compraram.
O cenário de abandono das unidades gaúchas não é excepcional. A falta dos investimentos que viriam na esteira da Copa do Mundo desanimou os administradores das unidades de conservação.

- O clima entre os gestores dos parques é de desânimo devido à dificuldade orçamentária - conta o chefe dos parques de Aparados e Serra Geral, Deonir Zimmermann. - Tenho apenas oito funcionários para atender aos visitantes, sendo que ambas as unidades, somadas, ocupam 30 mil hectares. Nosso trabalho é só para quem gosta do assunto, porque a remuneração não é satisfatória, e não há expectativa de melhorias.

Presidente do ICMBio entre 2007 e 2008, João Paulo Capobianco confessa sua tristeza com o destino do programa Parques da Copa.

- Não reconheço qualquer ação importante que sirva como um legado para os parques - lamenta. - Nenhuma unidade recebeu um investimento significativo que supere a situação vexaminosa de abandono.

As falhas, segundo Capobianco, estão na gênese do projeto. Muitas unidades de conservação eleitas para integrar o programa estão longe das cidades-sede da Copa do Mundo - tais parques, então, não receberiam a visita dos turistas que viajarão para assistir aos jogos.

- Não houve uma visão estratégica na escolha das unidades. Com a distância geográfica, é difícil oferecer ao turista um pacote que integre o local dos jogos com a visita aos parques - destaca Capobianco. - O parque da Serra da Bocaina, por exemplo, fica isolado entre Rio e São Paulo. É um exemplo de unidade pouco acessível.

Dos 69 parques nacionais, 50 não têm qualquer controle de acesso. Há, no máximo, uma guarita e um espaço que serve como estacionamento. Em muitos casos, os limites das unidades de conservação ainda não foram aplicados, mesmo décadas depois de seu estabelecimento pela lei.

- São regiões de beleza cênica incomparável e que poderiam gerar alternativas econômicas regionais, mas elas não são vistas assim pelo poder público - ressalta o ex-presidente do ICMBio.

Segundo ele, o Brasil investe uma quantia irrisória em unidades de conservação, mesmo se comparado a outros países em desenvolvimento. Em 2010, o governo federal destinava cerca de R$ 4 para cada hectare de suas regiões protegidas. Na Argentina, por exemplo, eram R$ 21,37 para mesma área; na Costa Rica, ainda mais: R$ 32,29.

O Globo, 28/05/2014, Sociedade, p. 26

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