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24/07/2009
RESEX - 20 anos: Processo participativo de pesquisa e gestao se perdeu no Jurua

Como a criação da categoria de Reservas Extrativistas (RESEX) completará 20 anos em Janeiro de 2010, e como a primeira unidade dessa categoria foi criada em nossa região, o Portal JuruaOnline realizará reportagens que mostrarão as diversas faces desse modelo de gestão de Unidades de Conservação que emergiu dos movimentos sociais acreanos da década de 1980. Numa reviravolta histórica, resultante da falência da Economia da Borracha, os seringueiros se colocaram na vanguarda da modernidade e tornaram a Ecologia o alicerce de um movimento que tinha como principal objetivo manter os sistemas e práticas tradicionais de produção. A institucionalização do movimento pela criação e operacionalização do conceito de RESEX, que visa conciliar desenvolvimento social e conservação ambiental, representou a materialização dos sonhos do líder Chico Mendes - que décadas mais tarde daria nome à instituição responsável pelo sistema de Unidades de Conservação brasileiro.

Programa Piloto

Ao longo da década de 1990, após a Rio-92, diversas iniciativas surgiram buscando alavancar o modelo RESEX. O mais destacado deles foi o projeto "Pesquisa e Monitoramento Participativos em Áreas de Conservação Gerenciadas por Populações Tradicionais", desenvolvido no âmbito do Programa Piloto para a Conservação das Florestas Tropicais do Brasil - PPG7. Durante anos, moradores da Reserva Extrativista do Alto Juruá foram capacitados por professores e alunos de instituições como a UNICAMP, USP, UFAC, UnB, UFV, dentre muitas outras, e se tornaram verdadeiros pesquisadores da Floresta, capazes de desenvolver e aplicar métodos de monitoramento da biodiversidade e da qualidade de vida. Os resultados desses trabalham estão em parte relatados na Enciclopédia da Floresta (Companhia das Letras) e também em diversas publicações, como o Manual de Monitoramento Ambiental Usando Borboletas e Libélulas, publicação escrita em linguagem que pretende ser acessível a seringueiros e ribeirinhos e, ao mesmo tempo, manter o rigor científico demandado pelo Monitoramento Ambiental

Unidade de Conservação pra criar gado?

Mas o que parecia ser uma promissora lição para o mundo desandou. Interesses políticos locais e o fim do projeto do PPG7 desarticularam a rede pesquisadores da Floresta. Aos poucos, o número de professores e alunos presentes na RESEX Alto Juruá diminuiu. Alguns novos projetos foram lançados e até bem sucedidos, como por exemplo o Atlas Histórico do Rio Bagé, produto de pesquisa cooperativa com as populações locais que foi financiado pelo Instituto Internacional de História Social (SEPHIS). Mas nenhuma iniciativa estruturante foi implementada. Nem uma acreana e seringueira, à frente do Ministério do Meio Ambiente, conseguiu reavivar a economia extrativista no extremo Ocidental da Amazônia.Tristemente, a falta do desenvolvimento de políticas públicas estruturantes que sustentassem o projeto de Monitoramento e Gestão participativos resultou no aumento do desmatamento e de práticas incompatíveis com o conceito de RESEX. No Juruá, todos sabem que hoje o que mais cresce dentro da Reserva é a criação de gado. Precisa dizer mais alguma coisa?

Em toda a crise há uma esperança

Não há festa nem presente no aniversário de 20 anos da RESEX Alto Juruá. Talvez ele até passe esquecido, justamente como aconteceu com o Parque Nacional da Serra do Divisor: simplesemente ninguém se lembrou. Será que o Acre ainda pode ser considerado a vanguarda do socio-ambientalismo? Talvez ainda haja tempo para uma nova guinada histórica, desta vez para resgatar o modelo de Reserva Extrativista antes que ele vá para o ralo juntamente com todos os ideais que representa. O Instituto Chico Mendes (ICMBio) acaba de nomear um novo quadro técnico para o Alto Juruá, especialmente concursado para atuar na Amazônia. São profissionais extremamente capacitados e competentes. Seria uma oportunidade fascinante de oxigenar o modelo cujo postulado central é a viabilidade de promover Conservação e Desenvolvimento Humano. Jogar essa oportunidade no lixo é consagrar a visão daqueles que querem tirar as pessoas do meio da Floresta Amazônica com o pretexto de proteger a Natureza. A dúvida que paira no ar neste momento é: serão que os novos e competentes técnicos, tão necessários no Juruá neste momento histórico, e efetivamente lotados em Cruzeiro do Sul, de fato chegarão para trabalhar junto aos povos da Floresta... ou se perderão em algum gabinete com ar-condicionado numa cidade grande?