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O Globo, Rio, p. 9
17/03/2017
Risco leva Poco das Antas a fechar portas

Risco leva Poço das Antas a fechar portas
Reserva adota medida após morte de macaco, e parques do Rio estão em alerta

Giselle Ouchana / Selma Schmidt

RIO - Primeira a ser criada no país e uma das mais importantes por ser habitat dos ameaçados micos-leões-dourados, a Reserva Biológica de Poço das Antas, que fica na divisa de Casimiro de Abreu - onde uma pessoa morreu e outra adoeceu com febre amarela - está fechada desde segunda-feira. Um bugio - um primata que pode chegar a 75 centímetros e nove quilos - foi encontrado morto perto do local. Apesar de acender um alerta, o animal não foi examinado porque, ao ser encontrado, no último dia 7, se encontrava em avançado estágio de decomposição.
Nesta quinta-feira, um outro macaco da mesma espécie teria sido recolhido com sangue na boca, desta vez, na Estrada dos Cambucás, que fica dentro da área de proteção. Por prevenção, todos os funcionários de parques municipais e estaduais do Rio serão vacinados nos próximos dias. Coordenadora regional do Instituto Chico Mendes (ICMBio), Andréa de Nóbrega, não descarta a possibilidade de fechar o Parque Nacional da Tijuca - onde fica o monumento do Cristo Redentor, maior símbolo da cidade - caso haja suspeita de contágio dos animais da mata pelo vírus da febre amarela.
- Se acontecer qualquer morte de primata no Parque da Tijuca, obviamente vamos tomar uma atitude. Ainda não temos um protocolo, mas estamos mapeando e acompanhando tudo. As medidas podem ser diferentes, dependendo da situação e localidade - afirmou Andréa, acrescentando que está sendo feito um monitoramento preventivo das espécies com o apoio da Fiocruz.
Na Reserva de Poço das Antas, desde segunda-feira ninguém entra, a não ser o próprio pessoal que trabalha na unidade. Os funcionários, além de vacinados, não ultrapassam o limite do setor administrativo, logo na entrada. As visitas educacionais e de pesquisadores, únicas autorizadas na área, estão suspensas, sem previsão de retorno. O Parque Nacional do Caparaó, na divisa dos estados de Minas e Espírito Santo, também tomou medidas drásticas com o avanço da doença na região: fechou por alguns dias e reabriu com restrições.
A cerca de vinte quilômetros de Poço das Antas, a Reserva Biológica União - que abrange os municípios de Casimiro de Abreu, Rio das Ostras e Macaé - também restringiu o acesso: apenas funcionários e pesquisadores que comprovem ter a vacina contra a febre amarela há pelo menos dez dias têm autorização para entrar. O macaco bugio encontrado morto no dia 7 estava na área rural do município de Rio das Ostras, entre as reservas União e Poço das Antas.
As restrições nas duas reservas foram determinadas pelo ICMBio, que poderá determinar o fechamento do Parque Nacional da Tijuca, onde estão o Corcovado e o Parque Lage, se a contraprova dos exames em cinco macacos encontrados mortos no município do Rio em outubro der positivo para febre amarela. A expectativa é que o resultado dos exames seja divulgado hoje. Os animais - quatro saguis e um macaco-prego - foram recolhidos em nos bairros de Copacabana, Jardim Botânico, Gávea, Engenheiro Leal e Manguinhos.
- É o tipo de medida que a gente só vai tomar no Rio se tivermos a certeza de que o vírus circula por aqui. Não podemos precipitar uma atitude de prevenção desse porte porque será muito impactante. No entanto, faremos se houver necessidade - observou Andréa, que já acionou a unidade do ICMBio em Brasília e o Centro Nacional de Primatas, na Paraíba, para, se necessário, auxiliarem na decisão de fechar ou não a área.
O subsecretário estadual de Vigilância em Saúde, Alexandre Chieppe, diz que não há evidência da circulação do vírus no município.
- Não trabalho só com exames. A Fiocruz tem 150 macacos em cativeiro e nada foi identificado neles - disse.
Entre os especialistas, as opiniões divergem. Professor de epidemiologia da UFRJ, Roberto Medronho recomenda que pessoas não vacinadas contra a febre amarela não frequentem os parques do Rio por precaução se o resultado da contraprova dos testes realizados nos cinco macacos for positivo. Já o infectologista Ricardo Igreja, professor da Faculdade de Medicina da UFRJ, defende que os parques continuem abertos sem restrições:
- Há vários parques no mundo onde existe a possibilidade de se pegar doenças. E ninguém fecha parque ou restringe a visitação por isso. Devemos orientar as pessoas que também precisam se prevenir. Para a febre amarela, há vacina.
SETOR DE TURISMO TEME DESISTÊNCIAS
Os especialistas lembram que os macacos são apenas hospedeiros do vírus. Os principais transmissores são os mosquitos Haemagogo e Sabethes, ambos silvestres e que podem ser encontrados na Floresta da Tijuca. Se eles picarem um macaco infectado e depois um humano, transmitem a doença. O Aedes aegypti, que vive nas áreas urbanas, também é um potencial transmissor. Por conta disso, o setor turístico se mostra apreensivo. O presidente regional da Associação Brasileira da Indústria Hoteleira (ABIH-RJ), Alfredo Lopes, teme desistências de viajantes:
- Estamos com 48% de ocupação dos hotéis e, em abril, teremos dois feriados. Certamente, os turistas vão perguntar sobre os riscos. O que lamento é a falta de velocidade do governo que não trabalha com medidas preventivas, só corretivas.
Reitor do Santuário Cristo Redentor, padre Omar Raposo também diz que a situação é preocupante:
- Mas a Igreja está integrada aos organismos de saúde pública e vai seguir as orientações do ICMBio. Hoje (ontem) a visitação (ao Corcovado) foi normal. Enquanto não houver qualquer decisão contrária, funcionaremos. Porém, tenho fé em Deus que a situação vai se acalmar e não será preciso fechar o Corcovado.

O Globo, 17/03/2017, Rio, p. 9

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