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CB, Brasil, p. 14
17/06/2008
Rondonia, um estado devastado

Rondônia, um estado devastado
Relatório mostra que 38% do território da unidade federativa foram desmatados, superando índices observados em Mato Grosso e Pará. Conflitos sociais em áreas de preservação são cada vez mais graves

Renata Mariz
Da equipe do Correio
Mais de um terço de toda a superfície de Rondônia está devastada. O estado tem o maior índice, 38%, de desmatamento acumulado em toda a Amazônia Legal, formada por áreas de oito estados (veja quadro). Isso significa que, proporcionalmente, Rondônia devastou mais a floresta que Mato Grosso e Pará, tradicionalmente os campeões da destruição ambiental. Relatório divulgado ontem pelo Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), formado por cerca de 600 entidades da sociedade civil, faz o alerta: a devastação tem se descolado do eixo da BR-364, hoje dominado pela pecuária, rumo às unidades de conservação e terras indígenas rondonianas. Os conflitos sociais na área estão cada vez mais intensos, diz o documento.

As causas do desmatamento alarmante, segundo a engenheira florestal Ana Euler, colaboradora do GTA, têm relação direta com a falta de fiscalização e conivência do poder público. Ela ressalta que o Executivo e Legislativo locais reduziram, nos últimos 20 anos, cerca de 20 mil km² das áreas protegidas do estado, que somam hoje quase 90 mil km². "Essas porções retiradas das unidades de conservação são sempre alvo de grupos econômicos com fins de exploração comercial", destaca Ana. "As políticas públicas ambientais consideram Rondônia um estado perdido. Discordo dessa posição. Acho que precisamos tentar segurar pelo menos as unidades de conservação."

Em Rondônia, tais regiões representam pouco menos de 40% do estado. São quatro reservas extrativistas, oito florestas, duas áreas de proteção ambiental, 14 unidades de conservação e 24 terras indígenas. Segundo Nanci Maria Rodrigues da Silva, superintendente substituta do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no estado, a criação de porções de terra protegidas tem sido um eficaz instrumento de combate à devastação, mas a situação ainda é incontrolável em algumas áreas. A Floresta do Bom Futuro, que registrou taxa anual de desmatamento de 4,3% desde 2002, passa por uma situação grave. "Naquele local, só com a ajuda do Exército", afirma Nanci.

Justiça desrespeitada
Uma liminar da Justiça Federal, fruto de ação civil movida pelo Ministério Público (tanto federal quanto estadual, que costumam agir em conjunto em Rondônia), determinou, em agosto de 2004, a retirada de grileiros, madeireiros e demais invasores ilegais da Floresta do Bom Futuro, do Parque Estadual de Guajará-Mirim, da Reserva Extrativista Jaci-Paraná e da terra indígena Karipuna. Em respeito à determinação judicial, o Ibama providenciou uma operação imediata na região. E só assim conheceu a real dimensão do problema que se instalou ali. " Tivemos que usar até helicópteros para retirar os agentes de lá. Cortaram pontes, fizeram barreiras com tábuas de pregos nas estradas", conta Nanci.

A engenheira Ana compara a região onde se localiza a Floresta do Bom Futuro à Terra do Meio, no Pará, famosa pelos conflitos sociais. "É uma área sem regras, onde uma liminar da Justiça, de mais de três anos, não foi cumprida", constata. Por meio da assessoria de imprensa, o Ministério Público estadual confirmou que a determinação judicial ainda espera para ser atendida, devido às dificuldades enfrentadas pelo Ibama e pelas polícias envolvidas nas ações (guarda ambiental, Polícia Civil e Polícia Federal, dependendo da operação).

Outro grave problema em Rondônia, que culmina em violência nas comunidades tradicionais, são os constantes furtos de madeiras em terras indígenas. "Essas denúncias procedem e nós estamos trabalhando", diz Nanci. Uma das lideranças indígenas mais ativas do estado, Almir Surui foi obrigado a deixar sua terra depois que denunciou a exploração de madeireiras nas áreas indigenas e começou a ser ameaçado. O caso acabou denunciado à Comissão dos Direitos Humanos da Organização dos Estados (OEA).

O campeão

Proporcionalmente, Rondônia é recordista em desmatamento acumulado na Amazônia Legal, com 38% de todo o território devastado. Veja abaixo os índices de destruição em cada estado:
UF Área desmatada*
AC 12%
AM 2%
AP 2%
MT 22%
PA 19%
RO 38%
RR 4%
TO 11%

Percentual referente à área total do estado

CB, 17/06/2008, Brasil, p. 14