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O ECO
06/12/2007
Uma ilha continente

Era uma noite de sexta-feira com céu excepcionalmente claro. Passava das onze. Ana Leonor e eu tínhamos caminhado cerca de cinco horas na trilha Border Track do Parque Nacional de Lamington, na divisa entre os estados australianos de Queensland e Nova Gales do Sul. Havíamos montado acampamento por volta das seis da tarde, antes de escurecer. Dentre as várias opções onde é permitido levantar a barraca, escolhemos um lugar com água próximo e uma bela vista. Àquela altura, já tínhamos cozinhado e comido a nossa sobremesa em forma de chocolate suíço. Antes de dormir nos sentamos na beira do penhasco, admirando o panorama da planície lá em baixo, iluminada pelos raios de prata de uma esplêndida lua cheia.

Eles apareceram de surpresa. Não fizeram barulho ao chegar nem ao partir. Não foram agressivos nem descorteses. Mas foram firmes. Eram dois guardas-parques inconfundivelmente uniformizados. Mostraram suas identificações e pediram para ver nossa permissão de acampamento - só um pequeno número de montanhistas pode dormir na Border Track em cada noite. As permissões são emitidas com antecedência, mediante reserva e pré-pagamento da taxa de pernoite. Estávamos de acordo com a lei. Mostramos nossa papelada, passamos mais café para os guardas, jogamos um pouco de conversa fora e depois fomos dormir. Quer dizer, nós fomos dormir. Eles continuaram seu trabalho, percorrendo a trilha e checando outros acampamentos. Segundo nos disseram, fazem essa ronda todas as semanas em dias aleatórios. É comum flagrar gente pernoitando sem licença ou em lugares diferentes daqueles designados pela administração do Parque. Nesses casos, os incautos são obrigados a desmontar acampamento e são escoltados para fora do Parque. As barracas são confiscadas e só são devolvidas após o pagamento de polpudas multas.

De outra feita, após sair de uma floresta para um descampado na Trilha Tsitsikama, na África do Sul, dei de cara com cerca de oito guardas-parques, todos eles uniformizados. Estavam trabalhando com enxadas, pás, machados e motosserras. Faziam a manutenção da trilha, recuperando degraus, limpando a drenagem, substituindo placas de sinalização avariadas. Tratava-se de um lugar ermo. Os guardas haviam caminhado seis horas até chegar lá. Iam dormir duas noites no local, depois de trabalhar de sol a sol.

No Zimbabwe, acompanhei um time de guardas-parques preparando uma tocaia para prender caçadores ilegais. No Quênia, presenciei o trabalho dos guardas-parques em uma mega operação de translocação de cem elefantes da Reserva de Shimba Hills para o Parque Nacional de Tsavo a centenas de quilômetros de distância. Na Floresta da Tijuca, treinei 28 guardas-parques, escolhidos entre voluntários da Guarda Municipal, a fazer manutenção de trilhas, recolher lixo, atender turistas no Corcovado, e fazer reflorestamento com espécies nativas.

Já tratei desse assunto aqui em O Eco inúmeras vezes. De qualquer ângulo que se veja, a profissão guarda-parque é complexa, pesada e variada. Pede uma hierarquia semelhante à militar, muita boa vontade, energia e comprometimento com a causa. Acima de tudo, guarda-parque tem que gostar de mato.

Nesse aspecto, o Brasil está vivendo um momento histórico. O presidente do Instituto Estadual de Florestas do Rio de Janeiro, André Ilha, um sujeito que já deu incontáveis provas de que gosta de mato, associou-se ao Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Janeiro (CBMERJ), uma corporação que também já cansou de mostrar ter amor à floresta. Do casamento saiu o Serviço de Guarda-Parques do Estado do Rio de Janeiro, cujo decreto de criação será assinado pelo Governador Sérgio Cabral dia 20 de dezembro, com a presença da Ministra Marina Silva.

Previsto para ter um efetivo de 200 oficiais e soldados, lotados nos Grupamentos de Defesa Florestal e Meio Ambiente dos Bombeiros, o Serviço vai começar a operar mais modestamente. Serão 20 homens no Parque Estadual da Ilha Grande. Em 2008, após a abertura de concurso no Corpo de Bombeiros o contingente previsto será atingido e a aplicação dos guardas se estenderá a todos os parques, reservas biológicas, estações ecológicas e outras unidades de proteção integral do Estado. Além da prevenção e combate a incêndios florestais, busca e salvamento, interpretação natural, histórica e cultural e fiscalização de todas as infrações administrativas observadas, inclusive desmatamentos e invasões, espera-se que o Bombeiros também ponham a mão na massa e façam manuntenção de trilhas, reflorestamento e atendimento ao visitante.

Para que a vitória seja completa, agora é fundamental pensar no treinamento e capacitação desses soldados, sargentos e oficiais. Os Bombeiros Fluminenses já contam com a infra-estrutura física de belas e bem aparelhadas academias. No Brasil, o Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais e a Fundação Boticário têm alguma experiência na formação de guardas-parques e no, estrangeiro, o Kenya Wildlife Service (KWS), que tem uma parceria alentada com o CBMERJ, já se colocou à disposição de André Ilha para recebê-lo nas suas escolas de formação e mostrar como é feito o treinamento dos guardas-parques africanos, que por sinal assim como os bombeiros também são organizados em uma estrutura militar. A hora é de juntar a estrutura e o conhecimento existentes no Brasil à oferta do KWS e montar um curso que faça o melhor proveito do Decreto de 20 de dezembro. Mas para quem já conseguiu a criação do Serviço Guarda Parques isso não deve ser problema. A vitória de André é tão significativa que, tal como a Austrália, sugiro promovê-lo de Ilha à Continente.