...e o que eu tenho com isso?

A Rainha de Copas                                             Quando Alice, perdida no País das Maravilhas, encontra a rainha de Copas e deseja lhe fazer algumas perguntas, percebe que, para se manter ao seu lado, teria que correr continuamente, mas por mais que corresse, permanecia no mesmo lugar e essa era a única maneira possível de conversar com a rainha... A diversidade genética possui um papel semelhante, é ela que permite aos seres vivos continuarem correndo para permanecerem no mesmo lugar e sobreviverem. Isto é, como o ambiente em que vivemos é dinâmico, os seres vivos precisam mudar constantemente para permanecerem adaptados às condições do meio e, assim, sobreviverem.

É só olhar em volta e para dentro para perceber que muito do que nos é necessário e desfrutamos provêm da natureza: a madeira da mesa onde estamos trabalhando; o papel onde escrevemos; o alimento; a roupa que vestimos; a diversão nos parques, cachoeiras, praias e muitas outras. Da mesma forma, há outros processos que também são essenciais para nossa sobrevivência, são proporcionados pela natureza e não percebemos com tanta facilidade: regulação atmosférica, ciclagem de nutrientes, conservação dos solos, qualidade da água, fotossíntese, decomposição, etc. São processos que proporcionam condições para a manutenção da nossa espécie e são conhecidos como serviços ambientais ou ecológicos. Esses serviços não possuem etiquetas de preço, mas são extremamente valiosos e caros.

Mas a biodiversidade realmente está relacionada à nossa vida cotidiana?

Para que diversidade genética?

A população humana da área que hoje constitui a República da Irlanda caiu de 6.500.000 (1841), para 2.800.000 habitantes (1961). Tal declínio produziu enormes impactos na história do país e de seu povo e foi causado majoritariamente pela emigração. Cerca de 1,2 milhões de pessoas abandonaram a Irlanda e aproximadamente um milhão de pessoas morreram de fome nos anos 1845 e 1846, data da chamada “grande fome das batatas” e começo da grande emigração irlandesa. Entre 1853 e 1900, mais 3 milhões de pessoas deixaram o país.

A batata, nativa dos Andes, na América, era cultivada pelos incas quando os conquistadores espanhóis alcançaram a região. Por volta de 1570, a batata chega à Espanha, sem um grande sucesso inicial, chegando em 1631 à Inglaterra, onde ainda é cultivada apenas como uma curiosidade. Após 150 anos e uma boa campanha de propaganda feita por entusiastas da batata, finalmente ela se estabeleceu na Europa. Dessa época em diante, a história da batata nesse continente é um sucesso até a grande fome na Irlanda.

Nos primórdios do século XIX, a batata era um dos produtos mais cultivado na Europa continental e no Oeste da Inglaterra. Na Irlanda, a batata se converteu na base da economia e da dieta alimentar, principalmente para os camponeses, que não comiam nada além de batatas durante o longo inverno, que se apresentavam como um alimento bem equilibrado nutricionalmente. Entretanto, em 1845, uma doença atacou o plantio, destruindo-o completamente e causando uma fome sem precedentes.

Essa doença das batatas na Irlanda ilustra um dilema constante da agricultura, que por sua vez nos remete à questão da variabilidade genética. Para produzir a ‘melhor planta’, que proporcionará a máxima produção, agricultores e cientistas cruzam e selecionam as plantas durante gerações até obter a combinação certa de algumas características. Em seguida, desenvolvem todo o plantio a partir dessa forma melhorada; ou seja, todas as plantas possuem um único progenitor, são geneticamente uniformes. Troca-se a variabilidade genética pelo item alimentar perfeito. Entretanto, a falta de diversidade genética torna a variedade única muito suscetível a doenças: se algum fungo, vírus ou bactéria atacar as plantas com sucesso, pode devastar toda a colheita, uma vez que as plantas são, todas, geneticamente iguais e apresentam as mesmas condições de defesa e adaptação.

Os irlandeses cultivavam suas batatas a partir de uma ‘planta melhor’ única. Com o advento da doença, causada por um fungo, perderam não apenas toda a colheita de 1845, como também a possibilidade de reagir em seguida, plantando variedades resistentes. Nas populações naturais, ao contrário, a diversidade genética dos indivíduos assegura que alguns serão imunes à doença e que parte da colheita sobreviverá. Esses sobreviventes darão origem às plantas do ano subsequente que serão, por consequência, resistentes àquela doença.

Histórias semelhantes podem ser contadas para muitos dos principais produtos agrícolas. E a salvação da lavoura, na maior parte dos casos, está na diversidade genética encontrada nas variedades selvagens. Além dessas variedades selvagens serem encontradas apenas em seu ambiente natural, muitas vezes espaços especialmente protegidos, elas necessitam continuar vivendo nesses ambientes para que permaneçam como um estoque genético potencial, fator de prevenção para futuras doenças. É o fato de continuar a viver no ambiente natural que permite ao organismo se modificar ao longo do tempo e se manter adaptado às condições ambientais que vão se alterando continuamente.

Fragilidades como essa não ocorrem apenas em relação a pragas naturais como no caso das batatas e os fungos, mas também em relação a alterações climáticas. Imagine que há uma planta adaptada a condições específicas de seu ambiente, como a um regime de chuva e a um determinado intervalo de temperatura e que é repentinamente exposta a outras condições: a temperatura sobe e as chuvas escasseiam, provocando secas mais prolongadas. Nossa espécie hipotética sofrerá bastante e, certamente, alguns indivíduos menos resistentes morrerão. Não obstante, graças à variabilidade genética entre os seus indivíduos, há alguns mais resistentes e que são capazes de sobreviver nessas novas condições ambientais. Estes se reproduzirão e gerarão novas plantas, adaptadas às novas condições, permitindo que a espécie sobreviva nesse local. No caso das mudanças climáticas, essa diversidade é essencial e pode significar a extinção ou não de uma espécie.

A natureza como farmácia e biblioteca

Há milhares de anos, os povos indígenas vêm utilizando plantas e animais de forma medicinal, na cura de muitas doenças com bastante êxito. Hipócrates prescrevia infusões de casca de chorão como analgésico. Atualmente, uma porção significativa dos remédios e outros produtos afins provém direta ou indiretamente de fontes biológicas. Na indústria farmacêutica, esses produtos correspondem a algo em torno de 25 a 50% do total de vendas. Na medicina natural, plantas ornamentais e vendas de sementes para agricultura, esses produtos equivalem a 100% das vendas globais. Produtos cosméticos naturais equivalem a 10% do mercado global de cosméticos. E, por fim, em todos os produtos e serviços da biotecnologia há envolvimento de derivados da biodiversidade.1

Recentemente uma pesquisadora da Universidade Federal de Pernambuco, testou com sucesso a eficácia do pó extraído da polpa do coco babaçu, na prevenção de úlcera gástrica decorrente de ingestão de álcool. A idéia de realizar esse experimento veio da utilização tradicional desse pó para evitar esse tipo de úlcera. Pesquisadores da Faculdade de Farmácia da Universidade do Amazonas também se inspiraram na sabedoria popular para averiguar as capacidades terapêuticas da caramboleira e comprovaram que a planta realmente reduz os níveis de açúcar no sangue e combate a diabetes do tipo não dependente de insulina.2A cada momento, novas drogas são descobertas nos ambientes naturais. Os exemplos envolvendo plantas incluem Reserpina, um tranquilizante e anti-esquizofrênico derivado de arbustos tropicais; quinodina, uma droga contra a arritmia cardíaca, e uma vinha, coletada inicialmente no Parque Nacional Korup em Camarões, que tem apresentado bons resultados na proteção de células humanas contra o vírus HIV. Os animais também têm fornecido substâncias promissoras: drogas anticancerígenas foram isoladas de asas de uma espécie de borboleta asiática e de pernas de um tipo de besouro de Taiwan. Uma rápida pesquisa pode mostrar que os exemplos se acumulam2.

Muitos produtos farmacêuticos dependem, inicialmente, da coleta de material da natureza - essa complexa e vasta biblioteca genética – para a extração de seu princípio ativo, podendo posteriormente ser sintetizado em laboratório.

A biblioteca abriga uma enormidade de medicamentos possíveis e curas potenciais. É necessário, porém, saber “ler” e encontrar nessa grande biblioteca, o “livro” certo e a “página” correta. Imagine um ambiente tão diverso como Amazônia, cheio de plantas, animais e microorganismos diferentes. Por onde começar a procurar o medicamento certo para uma determinada doença? Uma das maneiras utilizadas, com baixíssima – ou mesmo nenhuma eficiência -  é colocar mãos à obra e começar a procurar, testando planta por planta, animal por animal, fungo por fungo, bactéria por bactéria e assim por diante. Alguns institutos de pesquisa tentaram essa estratégia por alguns anos e falharam estrondosamente.

Algumas vezes, as descobertas de usos dos recursos naturais na manutenção da saúde humana acontecem por acaso. Por exemplo, pesquisadores da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Campos, RJ), investigavam as proteínas presentes nas sementes de plantas da família botânica leguminosa (como o feijão, por exemplo) tóxicas para insetos. Como parte do trabalho, seqüenciaram uma proteína e descobriram surpresos que tal proteína era idêntica à insulina animal. Fizeram vários testes, inclusive com ratos diabéticos e provaram que existe uma insulina de origem vegetal. Essa descoberta também comprovou o valor do uso popular da planta pata-de-vaca (Bauhinia spp.), uma árvore da mesma família taxonômica, no combate à diabetes2.

Outra forma de abordar a questão – um pouco mais exitosa – tem sido observar determinadas características de animais, por exemplo. Esse é o caso dos pesquisadores da Universidade de São Paulo que identificaram um antibiótico produzido pela aranha-caranguejeira. O antibiótico, chamado gomesina, é extremamente eficiente no combate a 24 espécies de bactérias, nove fungos e cinco leveduras. Os pesquisadores afirmam que já conheciam a ação de substâncias antimicrobianas em insetos e que tiveram a idéia de estudar as aranhas imaginando que como as aranhas têm uma vida longa, deveriam possuir um sistema imunológico eficiente2.

Outra maneira eficiente de não se perder na vasta biblioteca, é descobrir quem conhece os “livros”. Quem nunca tomou chazinho de boldo para facilitar a digestão de uma comida pesada? Ou um chá de quebra-pedras para evidentemente quebrar as pedras dos rins e expulsá-las mais facilmente? Ou ainda, usou arnica para ajudar na cura de uma contusão? Esse conhecimento é a chave para a compreensão da biblioteca, ou seja, é a maneira de relacionar determinadas espécies de animais, plantas ou microorganismos à cura de certas doenças. Uma parte desse conhecimento é de domínio geral, como os exemplos acima citados; outra porção, entretanto, é ainda de domínio restrito e faz parte do patrimônio cultural de muitos povos indígenas e comunidades de caiçaras, seringueiros, castanheiros, ribeirinhos e outras populações tradicionais.

No Brasil, como no resto do mundo, há um crescente interesse nos fitoterápicos, ou seja remédios derivados diretamente de plantas. Esse mercado movimenta atualmente algo em torno de 700 milhões de dólares por ano, o que equivale a 7% do mercado de medicamentos no país.3

Muitos outros conhecimentos tradicionais, no entanto, não fazem parte ainda da “sabedoria popular” e são exclusivos de alguns grupos humanos. O acesso e a utilização desses conhecimentos deve ser feita com o consentimento daqueles que os possuem e com o compromisso da repartição dos benefícios advindos desse uso. Por exemplo, um povo fictício conhece, a centenas de anos, uma raiz infalível no tratamento de hipertensão arterial. A tal raiz é tão boa que basta usá-la poucas vezes que a pressão do sangue diminui e assim se mantém por semanas. Evidentemente, esse é um conhecimento muito útil para a humanidade e certamente haveria inúmeros laboratórios interessados em produzir um remédio à base da raiz. Porém, não seria justo, se uma empresa farmacêutica qualquer simplesmente levasse tal raiz para sua sede, transformasse a raiz em um remédio, patenteasse o ‘novo’ medicamento e embolsasse os milhões de dólares que adviriam da comercialização do remédio.

Afinal, assim nosso povo fictício não ganha nada por ter compartilhado seu conhecimento com a humanidade e a empresa farmacêutica, que apenas usou um conhecimento já existente, ganha muito. Mais justo seria que o povo fictício detentor daquele conhecimento tivesse uma parcela dos ganhos derivados da venda do remédio feito com tal raiz.

O balanço natural: o controle de pragas e doenças

Para além dos bichinhos bonitinhos e em geral, identificados com os que provocam repulsa e nojo, está um conjunto de animais que desempenha um papel fundamental: o controle de pragas e doenças. Esse grupo inclui, por exemplo, mariposas responsáveis pelo controle de um cacto na Austrália; moscas que debelaram a infestação de mariposas nos coqueiros do Fidji e besouros que deram fim a uma planta prejudicial aos plantios na Califórnia.

A escala do controle biológico de pragas é significativa: nos últimos 100 anos, cerca de 300 pragas de insetos foram controladas por 560 espécies de inimigos naturais desses insetos. Estima-se que aproximadamente 40%  dos programas de controle biológico
de insetos e 30% dos programas de controle de plantas indesejáveis são bem sucedidos. Os procedimentos são, em geral, muito baratos e uma  vez estabelecido, o controle biológico se mantém, evitando novos gastos de tempo e de dinheiro2.

Como a presença dos inimigos naturais das pragas depende da existência de ambientes naturais, a rápida devastação da vegetação já está produzindo consequências negativas. Os plantios de eucaliptos no país, por exemplo, têm sido afetados por essa situação. Como, em geral, toda a vegetação natural é removida para esses plantios, com ela se vão também os inimigos naturais das lagartas desfolhadoras de eucaliptos, obrigando os interessados a introduzir artificialmente inimigos naturais coletados em outros lugares ou fazerem uso de inseticidas, aumentando, em ambos os casos,  o custo da produção.

Outras alternativas também têm sido concebidas para controlar as pragas de forma natural. Uma delas, bastante interessante, baseia-se na idéia de que quando não há inimigos naturais à vista, o jeito é providenciar um ‘amigo’ resistente. Outra é a ideia de lançar no ambiente organismos potenciamente transmissores de doenças, como o mosquito da degue ou da malária,  estéreis para competir com os outros e diminuir as taxas reprodutivas desses insetos. Todas essas alternativas são possíveis somente porque há áreas naturais, que funcionam como o estoque mundial de agentes de controle biológico conhecidos ou ainda por conhecer. Sua devastação compromete as possibilidades atuais e futuras de utilização de novas soluções de controle biológico de pragas e de doenças.

Biodiversidade e clima e clima e biodiversidade

Se levássemos em conta apenas o balanço entre as radiações solares incidentes, absorvidas e reemitidas, a temperatura da Terra seria 30 graus mais baixa do que é. Devido à presença de alguns gases, entre os quais o mais abundante é o dióxido de carbono (CO2), a atmosfera permite que as radiações solares entrem, mas impede que todo o calor saia. Esse chamado efeito-estufa é, naturalmente, muito benéfico para a vida na Terra. O aumento de emissões de gases responsáveis por esse efeito é que vem causando problemas, inclusive o aquecimento global. Com o acréscimo desses gases na atmosfera, ela se torna menos permeável ao calor que sai e, consequentemente, a Terra se torna mais quente.

Um serviço ambiental essencial para a nossa sobrevivência, é a manutenção da composição gasosa da atmosfera. Os ecossistemas naturais atuam diretamente sobre o ciclo de carbono. A fixação de CO2, produto da fotossíntese, e a produtividade das plantas decrescem com a redução da diversidade de espécies. Como essa fixação é parte do balanço de dióxido de carbono na atmosfera, sua diminuição pode trazer consequências graves para o clima global e para a manutenção dos outros processos derivados da biodiversidade. Ou seja, a biodiversidade é importante na manutenção da estabilidade climática.

Por outro lado, as mudanças climáticas podem ter um efeito significativo sobre a biodiversidade. Atualmente, a maioria dos cientistas concorda que as mudanças climáticas provocadas pelo homem trazem riscos e ameaças para a sociedade e para os ecossistemas. Como o planeta reagirá aos efeitos das mudanças climáticas e quais são os cenários derivados do aumento do efeito estufa são questões fundamentais a serem respondidas. Os pesquisadores têm usado modelos computacionais para prever a resposta do clima ao crescente efeito estufa e para produzir, com base em dados do passado e do presente, cenários futuros possíveis.

Mudanças já documentadas como as alterações na composição atmosférica, como o aumento da concentração de dióxido de carbono (CO2) e metano; bem como as transformações no clima da Terra, como temperatura, precipitação, nível do mar, nível do gelo e eventos extremos como ondas de calor e secas, podem ter efeito sobre a biodiversidade.

Já há efeitos documentados sobre a distribuição geográfica das espécies, sobre as interações entre elas, sobre fenômenos biológicos como crescimento das plantas, floração, reprodução animal e migração, e sobre as respostas evolutivas dos organismos.

Referências

  1. LAIRD, L.A. e KATE, K. ten. 2002. "Biodiversity prospecting: the comercial use of genetic resources and best practice in  benefit-sharing". In: LAIRD, S.A. (Ed. ). Biodiversity and traditional knowledge: equitable  partnerships in practice. Earthscan, Londres.
  2. BENSUSAN, N. 2006. Conservação da biodiversidade em áreas protegidas. Editora FGV, Rio de Janeiro. 176p.
  3. Ciência Hoje, vol. 28, nº 167. Dezembro/2000. p.42.