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G1 - http://g1.globo.com/
06/03/2018
Coral com poder devastador ameaca destruir santuario marinho no litoral de SP

Coral com poder devastador ameaça destruir santuário marinho no litoral de SP
Pesquisadores correm contra o tempo para conter a proliferação do coral-sol no Parque Estadual da Laje de Santos, localizado a 40 quilômetros da costa.

Por José Claudio Pimentel, G1 Santos
06/03/2018 05h15 Atualizado há 19 horas

colorido nos costões rochosos do Parque Estadual Marinho da Laje de Santos (PEMLS), a 40 quilômetros das praias do litoral de São Paulo, esconde o poder devastador de uma espécie invasora que coloca em risco o equilíbrio da biodiversidade do santuário. Segundo apurado pelo G1, pesquisadores correm contra o tempo para impedir uma ainda maior expansão do coral-sol.

Além da laje, o parque é composto por formações rochosas submersas (parcéis) e por rochedos, conhecidos como Calhaus. Trata-se do primeiro parque marinho do Estado, que é considerado um berçário de centenas de espécies de animais. A pesca é proibida e a área é disputada pelo turismo de mergulho e pela pesquisa científica.

O coral-sol, nativo do Oceano Pacífico, chegou ao país na década de 1980, provavelmente incrustado em plataformas utilizadas na exploração de petróleo. As estruturas eram fabricadas no exterior e rebocadas para serem utilizadas na costa brasileira. Desde então, apesar dos esforços, sua proliferação jamais foi plenamente contida.

Os registros mais preocupantes estão na Bahia, no Espírito Santo, no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Santa Catarina. A aparente beleza do coral é proporcional à capacidade de destruição, já que no processo natural de proliferação, que não é impedido pela falta de predadores neste oceano, elimina ou altera a diversidade na vida local.

Somente em meados de 2012 a espécie foi encontrada na área da Laje de Santos. "Acreditamos que ela tenha chegado pela corrente marítima. A reprodução dela ocorre por meio de larvas, que provavelmente vieram do Norte e formaram a primeira colônia", explica o gestor do parque, José Edmilson de Araujo Melo Junior.
A hipótese do gestor é baseada na ocorrência do coral-sol no Refúgio de Vida Silvestre (Revis) de Alcatrazes, na costa de São Sebastião (SP), onde foi encontrado um ano antes. Em 2017, foram retiradas 20 mil colônias do local, após uma força-tarefa realizada pela equipe do núcleo de gestão integrada do arquipélago.

Segundo Junior, no Parque da Laje de Santos, assim que identificado o problema, foi traçado um plano de manejo para que ele fosse contido. Nos últimos cinco anos, equipes executaram métodos semelhantes utilizados em toda costa. É um trabalho manual feito por mergulhadores, com talhadeira e martelo, que os retira do costão.

"Foram diversas saídas com este objetivo, que foram bastante exitosas. Infelizmente, o trabalho de eliminação não ocorre por completo, então o coral acaba voltando, por isso a necessidade de ações repetitivas. Mas a nossa preocupação aumentou quando localizamos uma nova colônia, já na base da pedra da laje, na região das piscinas", diz.

A bioinvasão não está mais restrita a um ponto, afirma o gestor. "Agora começamos uma corrida contra o tempo. Se o coral se espalhar mais, é capaz de mudar por completo a diversidade do parque marinho. Ao ocupar o lugar de outros corais, por exemplo, altera a presença de peixes e de outros animais que se alimentavam ali".

Para o oceanógrafo Marcelo Kitahara, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e colaborador do Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo (USP), a situação na laje é reversível. Ele é um dos mais importantes estudiosos da espécie no Brasil e o trabalho dele em Alcatrazes têm chamado atenção pela eficácia.

"O manejo tem que ser feito com muito cuidado, pois qualquer fragmento que fica faz o coral se regenerar. O trabalho subaquático é complexo e é muito difícil", afirma. Na Laje de Santos, ele já identificou as duas espécies do coral-sol: Tubastraea tagusensis e Tubastraea coccinea. A área de maior foco de invasão tem 50 metros quadrados.

Junto com a gestão do parque, o oceanógrafo prepara a capacitação de mergulhadores e monitores ambientais locais para executar trabalhos contínuos. No Arquipélago de Alcatrazes, ele já verificou que ações subsequentes em alvos únicos são mais eficazes do que um mutirão simultâneo em pontos diversos. "É trabalhar a estratégia", diz.

"É preciso conter o coral em um costão para ir a outro. Os resultados são melhores. Colônias adultas tiramos com marretas, enquanto as jovens podemos fazer por um sugador, que desenvolvemos especialmente para isso", explica. Eventualmente, novas técnicas ainda em estudo poderão ser desenvolvidas na laje.

As condições climáticas afastaram o primeiro mutirão desta nova etapa no último mês, mas a perspectiva é que cientistas, pesquisadores, mergulhadores e voluntários executem o novo plano de manejo até o início de abril. "O problema existe, em um parque que é único no Brasil. Por isso, temos que ter atenção sobre o fato".

Enquanto o trabalho em campo é realizado, a equipe de Marcelo Kitahara estuda outras formas de conter a invasão. Nos laboratórios, acadêmicos e estudantes se reúnem para compreender a genética das duas espécies do coral e estudar formas de conter a regeneração e a rápida reprodução, que acaba sendo devastadora.

"Imagine se a Serra do Mar [maior porção de Mata Atlântica do País] fosse dominada por Pinheiros [espécie não nativa]. Além da paisagem, toda a interação entre os animais mudaria ali.É a mesma coisa que acontece hoje embaixo d'água, com esses corais. E estamos aqui para estudá-los e contê-los", finaliza.

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