As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos.

OESP, Viagem, p.V2
10/08/2004
Mamiraua, exemplo a ser ressaltado

Mamirauá, exemplo a ser ressaltado
A edição americana da revista Condé Nast Traveler, uma das publicações especializadas mais acatadas e lidas no mundo inteiro, elegeu a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá o melhor destino de ecoturismo do mundo; outra revista, a Smithsonian, colocou o lugar entre os três destinos finalistas do Prêmio Susteinable, que promove anualmente; e o respeitável e prestigiado The New York Times, por sua vez, recomendou uma visita ao local, que em anos anteriores recebeu famosos como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em 1999, e o empresário Bill Gates.
A reserva foi vencedora também do Equator Prize 2004. Entregue em fevereiro, em Kuala Lumpur, na Malásia, o prêmio foi criado para reconhecer comunidades de países em desenvolvimento no cinturão tropical que demonstrem, em termos práticos, esforços simultâneos e bem sucedidos para conservar a biodiversidade e reduzir a pobreza.
Deve-se a criação da Reserva de Mamirauá pelo governo do Amazonas, em 1995, à sugestão do pesquisador paraense José Márcio Ayres, do Museu Emílio Goeldi, morto em 2003. Em 1983, este biólogo nascido em Belém começou a realizar trabalhos de pesquisa na região do Lago Mamirauá, onde encontrou um macaco chamado uacari-branco, primata de cara vermelha que daria origem a sua tese de doutorado. Ayres defendeu a criação de uma estação ecológica para preservar aquela área e, com isso, evitar a extinção daquele raro primata que só existe lá.
A 450 quilômetros a oeste de Manaus, no município de Tefé, a reserva tem uma área de 1,1 milhão de hectares. Quando de sua criação, era a única área de várzea protegida e surgida com a finalidade de promover pesquisas e de preservar os recursos naturais, usando-os com racionalidade e evitando a degradação da flora e da fauna. As 54 comunidades que vivem na região foram mantidas e engajadas no projeto. Colaboram com o trabalho dos cientistas e ajudam na fiscalização da reserva. Em compensação, a população tem o direito de explorar parte dos peixes e da madeira disponíveis, devidamente orientada a usar tais recursos com o sentido de preservá-los para as gerações futuras.
É o verdadeiro desenvolvimento sustentável capaz de garantir o desenvolvimento da região amazônica sem destruí-la.
Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) têm realizado vários projetos de pesquisa naquela região, voltados para o estudo de algumas espécies de peixes acompanhadas por radiotelemetria. É a primeira pesquisa do gênero em rios amazônicos, na qual muitos deles receberam rádios de freqüência UHF que permitem seguir as migrações e a organização social dos grupos. Trata-se de um trabalho importante, coordenado no seu início pela bióloga do Inpa Vera Ferreira da Silva. No mundo todo existem apenas quatro espécies de golfinhos de água doce e duas delas desenvolvem-se em Mamirauá. Tal fato já rendeu várias teses, além de trabalhos de alunos de graduação.
Na reserva têm sido realizados vários estudos ecológicos pioneiros sobre o pirarucu (um dos peixes mais saborosos da região) e o peixe-boi, além do jacaré e de plantas de florestas inundadas. Foram descobertas também 19 espécies, sendo 15 enguias-elétricas, dois primatas, um pássaro e uma vespa na reserva, que na época da seca (de agosto a outubro) pode proporcionar um espetáculo inesquecível para o visitante, com o sobrevôo de cerca de 5 mil pássaros em grupo. Esta é uma síntese da história da Reserva de Mamirauá, surgida, como dito anteriormente, graças à idéia do biólogo José Márcio Ayres, cuja morte representou uma enorme perda para a Amazônia.
A Reserva Sustentável de Mamirauá mostra que é possível conciliar o desenvolvimento com a preservação da natureza e isso somente é possível com a pesquisa e o estudo contínuo da região, que é conhecida por sua heterogeneidade. Para tal, faz-se imprescindível a aplicação de tecnologias específicas e adequadas às peculiaridades dessa imensa e rica região do Norte do País, alvo da cobiça internacional desde o século 17. Por isso, é importante a função desempenhada pelo Inpa, cujo trabalho é pouco conhecido pela população brasileira, mesmo lidando com escassos recursos financeiros.
Somos daqueles que sempre acreditam que o Amazonas pode ser um dos mais procurados destinos de ecoturismo do planeta, tanto que, em 1973, quando na presidência da Emamtur, cuja extinção considerei um grande equívoco, foi implementado o Programa de Interiorizarão do Turismo (Prointur), voltado basicamente para o turismo de natureza. Naquele momento, foram selecionados dez municípios nos quais conseguimos o apoio das administrações municipais e dos legislativos, embora, na época, turismo fosse uma atividade que não despertava o interesse do poder público.
Porém, não é suficiente a existência de atrativos naturais. É imperioso um planejamento estratégico de desenvolvimento do turismo a longo prazo com firmeza, determinação e inteligência. Essa continuidade tem sido a principal razão do sucesso do turismo na Bahia, que, ao longo de quase 30 anos, mantém uma mesma política no setor, seguida por diferentes governos estaduais.
Turismo não se faz com discursos, mas sim com muito trabalho sério. E com muito profissionalismo.

OESP, 10/08/2004, p. V2