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O Globo, Amanha, p. 10-11
13/11/2012
Plantas ameacadas

Plantas ameaçadas
Jardim Botânico do Rio de Janeiro elabora lista com espécies na
rota da extinção. Objetivo é criar o Livro Vermelho da Flora Brasileira

RAFAELLA JAVOSKI
rafaella.javoski@oglobo.com.br

Quase 200 anos depois de a flora brasileira ter sido catalogada pelo biólogo alemão Carl Philipp von Martius, o Centro Nacional de Conservação da Flora (CNCFlora), órgão pertencente ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro, resolveu revisitar materiais já publicados sobre o acervo de plantas nacional. Há três anos o órgão vem atualizando o catálogo, que soma hoje 42 mil espécies. Pesquisa daqui, investiga de lá, descobriu-se que, pelo menos, 4.708 delas estão ameaçadas de extinção. O trabalho já está concluído, e a Lista Oficial das Espécies Ameaçadas da Flora Brasileira está sob os cuidados do Ministério do Meio Ambiente. O Livro Vermelho, que é a apresentação acadêmica do estudo, vai ser editado pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro e deve ser publicado no máximo até fevereiro de 2013.
Com 20% da diversidade de plantas no mundo, o Brasil está entre os países com mais espécies. De acordo com o coordenador do CNCFlora, Gustavo Martinelli, essa foi uma das grandes dificuldades enfrentadas pela equipe. O que também gerou problemas são as constantes mudanças nos nomes das plantas, além da dimensão continental do país, que possibilita a existência de lacunas em regiões que não têm levantamento:
- O mogno é uma espécie madeireira famosa e sofre uma pressão enorme de retirada da floresta devido ao seu alto valor econômico. É preciso que haja uma fiscalização para o replantio, já que uma muda pode levar até 50 anos para se tornar comercialmente interessante. Se nada for feito, algum dia vamos perder essa matéria prima. É possível usar, mas desde que também seja feita uma recuperação com reflorestamento.
Desmatamento e destruição devido ao uso são, segundo Martinelli, os principais motivos pela redução das espécies. No material elaborado pelos 25 especialistas do CNCFlora - que contaram, ainda, com a ajuda de 200 pesquisadores, taxonomistas e cientistas que contribuíram virtualmente com o trabalho - a flora nacional foi catalogada em nove categorias, as mesmas que são adotadas pela International Union for Conservation of Nature (IUCN, sigla em inglês). As categorias são: extinta, extinta na natureza, criticamente ameaçada, em perigo, vulnerável, quase ameaçada, menos preocupante, deficiente de dados e não avaliada.
Fauna versus flora
A ação faz parte da Estratégia Global para a Conservação de Plantas (GSPC), um dos programas estabelecidos na Convenção sobre a Diversidade Biológica (CDB), aprovada em 1992. Na ocasião foram estabelecidas diversas metas para um período de dez anos para que a perda da diversidade pudesse ser freada. Em 2010, na Convenção de Diversidade Biológica, definida em Nagoya, uma emenda foi aprovada pelos governos de todos os países participantes para o período de 2011 a 2020. O encontro terminou com a definição de um conjunto de 16 metas.
O trabalho, realizado pelo CNCFlora, já está disponível para consulta pública desde 2010 e recebe constantes atualizações já que a estimativa mundial é a de que existam no Brasil de 55 a 65 mil plantas. Para que esse número seja alcançado, a comunidade científica mantém as pesquisas e trabalhos de campo. Diferentemente dos animais ameaçados de extinção que, constantemente, são lembrados em campanhas - os exemplos mais recentes são o tatu-bola, eleito a mascote da Copa de 2014, e o muriqui, que está disputando o título das Olimpíadas de 2016 - a flora brasileira costuma ser relegada a segunda plano ou mesmo ignorada.
Concluída a primeira etapa, os pesquisadores agora buscam encontrar soluções para recuperar as espécies e tirá-las da lista. Devido às variadas características, ações diferentes devem ser elaboradas para cada uma. Em geral, as mais comuns são a produção de mudas e reintrodução no habitat. Em alguns casos, porém, o problema está relacionado ao polinizador, que pode ter desaparecido, e não à planta.
Apesar de a recuperação da flora não ser uma realidade no Brasil, há exemplos de ações neste sentido no país, mesmo que a passos curtos. Um deles é o pau-brasil, que está incluso na categoria "em perigo". Martinelli destaca a criação da Unidades de Conservação Parque Nacional do Pau-Brasil, em Porto Seguro, na Bahia, que tem 11.590 hectares. Apesar disso a espécie continua ameaçada já que a procura é grande para a confecção de instrumentos musicais.
O Ministério do Meio Ambiente reconhece a importância deste documento, que será o primeiro passo para reverter o quadro. A diretora do Departamento de Conservação da Biodiversidade, Daniela de Oliveira avalia os benefícios do estudo:
- Desta forma poderemos saber onde investir. Não só o Ministério, mas o Jardim Botânico e o Instituto Chico Mendes trabalharão juntos para desenvolver planos de ação. Nosso objetivo é que não haja mais extinção.

O Globo, 13/11/2012, Amanhã, p. 10-11