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OESP, Viagem, p. V2
07/06/2005
Viajar e preservar florestas

Viajar é preservar florestas

Antônio Paulo Pavone

O Brasil possui centenas de unidades de conservação. Estão incluídos nesta categoria parques, reservas, florestas nacionais e outras áreas naturais de interesse do ponto de vista da preservação da fauna e da flora, além da paisagem e das comunidades tradicionais. Algumas dessas unidades são consideradas Patrimônios Naturais da Humanidade, caso do Parque Nacional de Foz do Iguaçu, da Amazônia, do Pantanal Mato-Grossense e da Serra da Capivara.
Este último, situado no Piauí, tem enorme interesse também do ponto de vista arqueológico, pois é considerado um dos maiores museus da pré-história americana a céu aberto do mundo. Até mesmo São Paulo, o Estado mais desenvolvido do País, dá um bom exemplo quando a palavra de ordem é a preservação da natureza. Existem, em território paulista, 26 parques estaduais, um mosaico estratégico na luta pela salvaguarda dos últimos resquícios da mata atlântica.
Extensos trechos da Serra do Mar, na vertente que vai do Estado do Rio ao Paraná, representam hoje talvez a derradeira chance de frear a destruição total da floresta-mãe. E quantos brasileiros sabem disso? Quantos deles visitaram um pedacinho desses paraísos? Alega-se, com razão, que a Amazônia é distante, difícil e cara. Custa menos ir para a Disneylândia, argumentam os mais pragmáticos. Mas, por que não podemos baratear a viagem natural? Por que não lançar uma bolsa ecoturismo ou um programa qualquer que facilite o acesso aos parques e reservas naturais abertos à visitação?
É só conhecendo que se preserva. Quem ouve falar da mata como algo distante acaba afastando-se dela e pode esquecer que ela existe. Quem não sabe o que é a preservação da floresta, corre o risco de ser iludido pela falácia da terra devastada em nome do progresso. A criança que nunca viu uma galinha corre o risco de confundi-la com uma pomba.
Boas notícias apontam para o crescimento das florestas em muitos países da Europa. Alguns deles haviam chegado próximo a zero de cobertura vegetal e agora estão vendo a mata rebrotar. Isso em apenas quatro décadas. Bastou deixar a natureza trabalhar em paz. E por que os viajantes não podem desfrutar dessa paz e, ao mesmo tempo, contribuir para que ela seja longa? Unir o turismo, como empreendimento econômico, à preservação do meio ambiente deveria ser a meta principal de qualquer governo, seja aqui, na Espanha ou na Nova Guiné. Mas nadando contra a corrente da onda verde, o que constatamos nesses primeiros anos de governo é uma total pasmaceira no segmento de turismo ambiental. Nada de novo no front, pois se trata da mesma posição adotada por governos anteriores.
As bases para uma Política Nacional de Ecoturismo nunca saíram do papel, desde o seu lançamento. Isso ocorreu há mais de uma década, com toda pompa e circunstância, no Parque Nacional da Serra da Canastra. Empreendimentos pontuais da iniciativa privada e de ONGs representaram o único avanço nesses dez anos quase perdidos para o ecoturismo brasileiro. Vale citar como melhor modelo a Pousada Flutuante Uacari, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável de Mamirauá, em Tefé, no Amazonas. Lá, o visitante pode entrar em contato com os animais e as plantas do igapó (mata alagada), observar botos, bandos de primatas e centenárias sumaúmas. A comunidade local aprendeu a ser guardiã desse bem incalculável e recebe do turismo a sua parte da renda. Tudo isso com o mínimo impacto ambiental. Viajar é preservar florestas.
Antônio Paulo Pavone é jornalista especializado em ecologia e meio ambiente, autor do livro 'Viagens Verdes, 21 Roteiros de Ecoturismo'

OESP, 07/06/2005, Viagem, p. V2