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Folha de S.P - http://arte.folha.uol.com.br
16/12/2013
A Batalha de Belo Monte

Um exército de 25 mil trabalhadores ergue no Pará a terceira maior hidrelétrica do mundo, uma obra controversa - pelo baixo rendimento da usina e pelo impacto no ambiente e nas populações de índios, ribeirinhos e habitantes de Altamira. A Folha passou três semanas na cidade para produzir a reportagem mais completa - com 24 vídeos, 55 fotos, 18 infográficos e um game- sobre o maior projeto de infraestrutura do Brasil

Capítulo 1 - Obra
Um projeto de R$ 30 bilhões

A explosão às 6h da manhã arranca uma camada de 9 m de espessura do bloco de migmatito numa área de 750 m² que já foi a morada de árvores centenárias na zona rural de Altamira e Vitória do Xingu (PA). Assentada a poeira, resta uma montanha de fragmentos dessa rocha dura, aparentada com o granito. À meia-noite, nem um pedregulho estará mais ali.

Duas escavadeiras se posicionam lado a lado, a 50 m uma da outra. Cinco levantamentos cada e, em menos de três minutos, enchem uma carreta com 32 toneladas de pedras. Sai um caminhão, encosta outro. Em 20 minutos, partem 18 caçambas cheias. Não há um segundo de descanso.

O ritmo frenético de homens e máquinas marca a construção de um canal de 20 km de comprimento, para dar passagem aos 14 milhões de litros de água por segundo desviados do rio Xingu -vazão quase 530 vezes maior que a do canal principal de transposição do São Francisco- que vão movimentar as turbinas da terceira maior hidrelétrica do mundo, e também uma das mais controversas: Belo Monte, da empresa Norte Energia S.A.

Quando estiver funcionando a toda força, a usina poderá produzir até 11.233 megawatts (MW) de eletricidade. Uma capacidade instalada suficiente para iluminar as casas de pelo menos 18 milhões de pessoas e ficar atrás só da hidrelétrica chinesa Três Gargantas (22.720 MW) e da paraguaio-brasileira Itaipu (14 mil MW).

Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), do Ministério de Minas e Energia, o Brasil precisa acrescentar 6.350 MW anuais de geração elétrica, até 2022, ao seu parque atual de 121 mil MW (70% produzidos por hidrelétricas). Se pudesse funcionar a toda carga o ano inteiro, Belo Monte garantiria quase um quinto da eletricidade adicional de que o país vai precisar, mas isso só tem chance de ocorrer em quatro meses do ano.

A maior parte da capacidade de geração (11.000 MW) da nova usina ficará instalada na casa de força principal, junto da vila de Belo Monte do Pontal, cuja obra já avançou 47%. A barragem propriamente dita, contudo, ficará 60 km rio acima, do outro lado da Volta Grande do Xingu, no sítio Pimental, pouco depois do ponto em que o canal captará água para encher os 130 km² do reservatório intermediário. Junto ao vertedouro da barragem de Pimental, seis turbinas poderão produzir até 233 MW na casa de força auxiliar.

O pico de 11.233 MW só poderá ser alcançado entre fevereiro e maio, quando o Xingu atinge suas vazões máximas. Nos outros meses, as turbinas serão progressivamente desligadas. Entre altos e baixos, espera-se que Belo Monte garanta uma média de 4.571 MW, ou apenas 41% de sua capacidade instalada.

"Para começar a gerar, isso tudo tem de estar concluído", diz a engenheira civil Roberta Martinelli Pimentel Pereira, 35, apontando para o canal onde poderiam acomodar-se facilmente 60 caminhões, lado a lado.

Belo Monte precisa começar a produzir energia em fevereiro de 2015, com a primeira turbina da casa de força auxiliar, mas isso vai atrasar uns três meses. Depois, de março de 2016 até janeiro de 2019, entram em linha as 18 turbinas da casa de força principal. Neste caso, nada pode atrasar. Na realidade, a Norte Energia trabalha com a hipótese de antecipar a montagem das turbinas principais, a partir da quarta ou quinta máquina, de modo a que todas estejam em operação antes do prazo contratual -o que trará ganhos consideráveis para o empreendedor.

No presente, o maior desafio de Roberta Pereira é domar as águas dos igarapés que cortam o curso do gande canal e completar, ainda em dezembro de 2013, a ensecadeira (barragem provisória, para manter a construção isolada do rio Xingu). A engenheira comanda 7.000 empregados e tem 12 anos "no trecho", como se refere às grandes obras de infraestrutura por que passou. A ensecadeira já tem fundações prontas e a maior parte do aterro alcançou a cota de segurança, 95 m.

Belo Monte fervilha 24 horas por dia, dois anos e meio após o início oficial de sua construção, em junho de 2011. Com um custo estimado em R$ 30 bilhões, o prazo para começar a produzir energia é apertado, apenas 44 meses. Em Itaipu foram 120 meses; a previsão para a hidrelétrica de Santo Antônio, no rio Madeira (RO), era de 52 meses, mas a usina começou a gerar energia nove meses antes.

Problemas de comunicação

As obras de Belo Monte atingiram o clímax em outubro, com 25 mil trabalhadores (87% deles homens). Três quartos dos mais de 5.600 municípios brasileiros têm população menor que esse exército de operários.

De cidades bem menores que os canteiros da usina vieram João, José, Antônio, Pedro e Joaquim (que pedem para não ter seus verdadeiros nomes revelados). Sentados domingo à tarde na calçada da avenida João Rodrigues, em Altamira, os cinco bebem vodca com soda. Chegaram há pouco mais de um mês e já pensam em ir embora. Belo Monte foi para eles uma decepção. "Nosso salário, em vista de outros Estados, tá aqui", diz João, com o dedo indicador perto do chão.

João não é barrageiro de primeira campanha. Em 2011, trabalhou na usina de Santo Antônio, no rio Madeira. Diz que lá sua renda mensal ficava entre R$ 1.700 e R$ 1.800. Em Belo Monte, o primeiro salário não passou de R$ 1.200. O teto de dez horas extras semanais negociado entre o Consórcio Construtor de Belo Monte (CCBM) e o Sintrapav (Sindicato dos Trabalhadores da Indústria da Construção Pesada do Pará) impede os operários confinados nos canteiros de trabalhar mais que 54 horas por semana -e, portanto, de ganhar mais.

Mais de dois terços dos trabalhadores vêm de fora de Altamira. O distanciamento da família é agravado pelo fato de nos canteiros só haver sinal da operadora Oi, que tem entre seus controladores a Andrade Gutierrez, líder das empreiteiras do CCBM (que conta ainda com Odebrecht e Camargo Corrêa). Quem tem celular de outras operadoras pena para falar com a mulher e os filhos. Os mais persistentes descobriram que há vestígios de sinal no morro da caixa-d'água perto do alojamento Canais, onde podem ser vistos com o aparelho amarrado em estacas fincadas no chão.

Segundo pesquisa Datafolha com 246 trabalhadores da obra entrevistados em Altamira, a maioria é de casados (51%), dos quais 40% têm mulher ou marido vivendo na cidade. Dois de cada três trabalham em Belo Monte há menos de um ano e pelo menos a metade não pretende ficar, instalou-se no local apenas em busca do emprego (38% já trabalharam em outras barragens).

Os alojamentos têm dormitórios para no máximo quatro pessoas, com ar-condicionado, banheiro interno e água quente. Dezenas de quartos compõem os "condomínios", em cada um dos quais só se entra com o crachá magnético correspondente. No pátio interno entre os condomínios, os quartos são isolados por alambrados. As opções de lazer são ver TV, ir à academia, jogar sinuca, dominó ou pebolim. Há espaço para cultos religiosos e aulas de informática. Um cinema com 200 lugares está para ser inaugurado.

De acordo com o Datafolha, 57% dos trabalhadores da usina moram nos alojamentos dos canteiros. A grande maioria aprova conforto (89% de ótimo e bom) e limpeza (84%) do local, assim como sua organização (71%) e as oportunidades de lazer (70%). Só a qualidade da alimentação divide opiniões: 45% de ótimo/bom contra 45% de regular.

Greves de trabalhadores (como a que parou toda a obra no final de novembro de 2013), protestos de índios, paralisações determinadas pela Justiça e problemas com licenças ambientais podem forçar a Norte Energia a atrasar o início da geração. Pelo contrato assinado com a União, a multa por descumprimento do prazo pode chegar a 2% do faturamento anual.

A Norte Energia ainda teria de comprar de outras empresas a energia que não entregar, ao custo diário de até R$ 1 milhão por turbina não acionada, dependendo do preço da energia na época. Esse prejuízo acabaria assumido pelos contribuintes, pois, apesar de planejado como empreendimento privado, Belo Monte no fundo é estatal (não é à toa que a Força Nacional de Segurança participa da vigilância na obra).

Em 2010, quando a Norte Energia venceu o leilão para construir Belo Monte, o grupo era pouco mais que um aglomerado de empresas médias de construção civil e energia (Bertin, Queiroz Galvão, J. Malucelli, Cetenco, Galvão Engenharia, Mendes Júnior e Serveng) com estatais lideradas pela Chesf (Companhia Hidrelétrica do São Francisco). Desde então, sua composição evoluiu para uma associação entre as estatais e fundos de pensão, que contratou para tocar a obra civil boa parte das empreiteiras perdedoras do leilão, agora reunidas no CCBM.

Piauí x EUA

Antônio Kelson Elias Filho, 55, é o diretor de obras da Norte Energia. Com seu sotaque mineiro, modos diretos e a voz poderosa, Kelson é o próprio comandante em chefe da megaconstrução. Distribui ordens o tempo todo, pessoalmente e por telefone. Ao recordar sua reação após a vitória no leilão sobre um consórcio dado como favorito, Kelson deixa claro qual era o estado de espírito da tropa improvisada ao assumir o domínio sobre Belo Monte: "O Piauí ganhou a guerra com os Estados Unidos. Agora tem de ocupar".

Tudo em Belo Monte é colossal. O canal de 20 km sob o comando da engenheira Roberta Pereira tem no mínimo 200 m de largura no fundo e pode ultrapassar 300 m na borda superior dos taludes. A água alcançará uma profundidade de 22 m, o equivalente a um prédio de sete andares. A barragem em Pimental terá 8 km. O coração da usina, em Belo Monte, vai abrigar 18 turbinas de 5 m de altura e 8,5 m de diâmetro em nichos escavados na rocha viva, com altura de 45 andares. O gerador movimentado pela turbina tem 22 m de diâmetro e precisa ser levado desmontado até a região, pela impossibilidade de transportá-lo numa peça só.

Sete dessas unidades geradoras começam a ser montadas na fábrica da Alstom em Taubaté (SP), a mais de 2.300 km de Altamira. A finalização da roda da turbina exige soldar três tipos de peça: o cubo (roda menor), fundido na Coreia do Sul; a cinta (roda maior), produzida na China; e as pás fabricadas em Piracicaba pela empresa brasileira Dedini. Ao contrário do gerador, a roda segue inteira -320 toneladas de aço inoxidável- para o Pará. Cada viagem deve tomar de três a quatro meses, de carreta até Santos, depois de navio até Belém e por fim de balsa até o porto construído em Belo Monte.

Só o contrato da Alstom, firma de origem francesa envolta em escândalos que lidera o consórcio para fabricar 14 das 18 unidades geradoras, vale R$ 1,3 bilhão. Ela entregará a primeira turbina da obra, para geração no início de 2016, na casa de força principal em Belo Monte. Os outros quatro conjuntos de turbina e gerador estão sendo fabricados em Suape (PE) pela Impsa, multinacional argentina contratada separadamente pela Norte Energia.

Arroz de avião

A logística da construção não tem sido fácil. A rodovia Transamazônica, aberta na década de 1970, ainda tem trechos não asfaltados nos 906 km que separam Altamira da capital, Belém, que se tornam intransitáveis no período de chuvas, de dezembro a junho.

A construção de 270 km de acessos da Transamazônica até os canteiros permitiu aumentar o ritmo das obras. Em 2011, quando ela começou, um caminhão levava quatro ou cinco horas para ir da Transamazônica ao sítio Pimental. Agora, leva 40 minutos.

Em julho de 2011, protestos fecharam a Transamazônica. Para alimentar os empregados, foi necessário fretar dois aviões, ao custo total de R$ 80 mil, que foram buscar em Belém toneladas de arroz e outros gêneros. Quando a carga chegou, havia comida só para três dias de alimentação.

A rubrica transporte representa em torno de 8% do custo total do projeto Belo Monte. "Se tivéssemos a Transamazônica asfaltada, teríamos uma economia de R$ 200 milhões, dos R$ 800 milhões já gastos com transporte", calcula Marcos Sordi, diretor administrativo do CCBM.

Na avaliação do consórcio, ao final de 2013 cerca de metade de toda a obra civil de Belo Monte estará realizada. Na barragem do rio Xingu, a parte que precisa ficar pronta em 2014 para acionar as turbinas na casa de força auxiliar de Pimental, as obras realizadas devem chegar a 47% do total. Os engenheiros afirmam que tudo está dentro do cronograma.

Caminho das pedras

O migmatito é um dos grandes segredos de Belo Monte. A abundância e a dureza da rocha permitiram aos engenheiros, após dez meses de testes, alterar o projeto original: em lugar de revestir o leito do canal com concreto, vão cobri-lo com pedra britada (pedregulhos de até 20 cm). Isso vai economizar 1 milhão de metros cúbicos de concreto e R$ 200 milhões no custo da obra, além de encurtar de 27 para 16 meses a construção do canal.

As pedras, no entanto, formam uma superfície mais rugosa que o concreto, o que faz com que a água avance do rio para o reservatório com velocidade menor, por força do atrito. E a velocidade da água é fundamental na geração da energia, para garantir que o volume adequado seja abocanhado pelas turbinas.

O princípio do funcionamento de uma hidrelétrica é que um grande volume de água desça o mais rapidamente possível do ponto mais alto para o mais baixo, a fim de girar turbinas que vão acionar os geradores. A energia é produzida pelo movimento circular de um rotor com enrolamento de cobre no interior de outro circuito imóvel do mesmo metal (o estator) -exatamente o processo inverso de um motor elétrico, que consome eletricidade para produzir movimento, enquanto o gerador converte a energia mecânica em elétrica.

Para compensar a perda de velocidade da água no canal revestido com pedras, foi necessário "alargar o cano", ou seja, aumentar sua seção (em 35%). São mais árvores para retirar, migmatito para explodir, escavadeiras para levantar e caminhões para transportar. Kelson diz que foi tudo calculado para o balanço entre receita e despesa ser positivo. "Não brinca. Se chegar à conclusão de que é negativo, melhor não mudar."

A Norte Energia depende ainda do Ibama para saber, de fato, quanto Belo Monte vai produzir de eletricidade. Por contrato, ela precisa gerar 4.571 MW em média, ao longo de cada ano (meros 41% de sua capacidade instalada), sendo que 70% dessa energia garantida vai para o sistema integrado. Como o reservatório que alimentará a casa de força principal é relativamente pequeno, a água que for reservada no período de cheia não bastará para gerar nem 10% da capacidade quando chegar o auge da seca. Uma das condições do Ibama para conceder a licença de operação da usina é que a Volta Grande do Xingu tenha uma vazão mínima tanto no período de vazante quanto no de enchente, para manter em boa saúde os ecossistemas, abaixo da barragem de Pimental.

Quem disputa a concessão de uma hidrelétrica tem como principal fonte de receita futura a venda de energia para o sistema interligado nacional. No caso de Belo Monte, o governo estimou em 2008 que uma tarifa de R$ 83 por MWh (megawatt-hora) seria suficiente para cobrir todos os custos e dar lucro. Venceria quem oferecesse a menor tarifa.

Quando há disputa, a empresa precisa oferecer um desconto sobre essa tarifa -desde que as simulações indiquem que ela pode ganhar mais com a comercialização de energia, mesmo com margem de lucro menor, se fizer a obra a custo mais baixo. Por outro lado, se a obra sair mais cara que o orçado pela vencedora do leilão, ou se a usina não gerar energia na quantidade e no prazo previstos, é ela quem arca com o prejuízo.

"O que vale para o consumidor é o preço final. O que consideramos nas nossas hipóteses é irrelevante", diz Maurício Tolmasquim, presidente da EPE (Empresa de Planejamento Energético), estatal responsável por definir os parâmetros dos editais da licitação.

Contas duvidosas

Em abril de 2010, a Norte Energia venceu a concorrência pela concessão de Belo Monte oferecendo um valor 6% menor (R$ 78) que o preço de referência. O custo da obra estimado pela Norte Energia, contudo, era 30% superior ao máximo previsto pelo governo. Para o mercado, não parecia possível recuperar o investimento com a tarifa oferecida. Uma decisão da Eletrobras tomada meses depois do leilão reforçou essa suspeita.

A Eletrobras, holding estatal que controla a Chesf, firmou um contrato com a Norte Energia para comprar, por R$ 130 o MWh, a energia excedente que Belo Monte puder vender no mercado. Esse preço da eletricidade extra vendida no mercado livre varia diariamente e, na média dos últimos dez anos, ficou em R$ 79. Portanto, a estatal-mãe deu uma bela ajuda à filha, que a usou para convencer o BNDES a liberar um empréstimo subsidiado de R$ 22,5 bilhões.

"A isso se dá o nome de energia limpa e barata", ironiza Célio Bermann, professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP. Para o especialista, Belo Monte está acima da média mundial de US$ 1 mil por MW instalado e vai ocasionar despesas para o contribuinte com os subsídios implícitos no financiamento e na comercialização da energia.

A Norte Energia depende ainda do Ibama para saber, de fato, quanto Belo Monte vai produzir de eletricidade. Por contrato, ela precisa gerar 4.571 MW em média, ao longo de cada ano (meros 41% de sua capacidade instalada), sendo que 70% dessa energia garantida vai para o sistema integrado. Como o reservatório que alimentará a casa de força principal é relativamente pequeno, a água que for reservada no período de cheia não bastará para gerar nem 10% da capacidade quando chegar o auge da seca. Uma das condições do Ibama para conceder a licença de operação da usina é que o rio Xingu tenha uma vazão mínima nas cheias para manter em boa saúde os ecossistemas na Volta Grande, abaixo da barragem de Pimental.

Belo Monte tem, no entanto, um atributo que pesou na decisão de seguir em frente com a sua construção: poderá gerar energia em abundância nos períodos do ano em que as usinas hidrelétricas do Sudeste e do Centro-Oeste, principais regiões produtoras, operam com restrições para não esgotar seus reservatórios. Em 2012, foi necessário gerar 14,3 mil MW em média, ao mês, acionando usinas térmicas, o que custou ao país R$ 12 bilhões a mais que a geração hidrelétrica.

Para os altamirenses, a eletricidade de Belo Monte ainda é uma ficção. Por ora, a usina só lhes trouxe seguidas interrupções de energia. A rede elétrica de distribuição, com seus fios e transformadores das décadas de 1970 e 1980, não suporta o aumento do consumo.

No verão amazônico, quando as temperaturas quase não baixam dos 35"C, os clientes em busca de sistemas de ar condicionado não podem ser atendidos na Climatech, porque os aparelhos da loja não funcionam e o local se transforma numa estufa. "Estamos fazendo a maior usina do Brasil e não temos energia", lamenta Evaldo André, 33, dono da empresa, que deve a própria prosperidade a Belo Monte: em dois anos a firma passou de 5 para 25 funcionários.

Capítulo 2 - Ambiente
A Volta Grande do Xingu

O barramento do Xingu vai diminuir a vazão da chamada Volta Grande, com suas corredeiras, canais e pedrais espraiados por cerca de 140km. Venha com a Folha conhecer esse ambiente fluviak único e o que pode acontecer com ele, seus peixes e as populações que dependem deles.

Giliarde Jacinto Pereira Juruna, 31, levanta-se da mesa ao meio-dia em ponto. O prato de acari-bodó -um peixe cascudo assado na brasa- pode esperar. É sábado e chegou a hora de ligar o gerador (durante a semana, a máquina só funciona quando a noite chega). "É para gelar alguma coisa, o pessoal fica mais em casa", justifica. Futebol e cerveja: programa de fim de semana de índio, também.

Há quem trabalhe, contudo. Gelson Juruna pega o bote de alumínio, o tubo para respirar e as "vaquetas" (hastes de madeira para desentocar peixes das pedras) e sai pelo braço do rio Xingu que banha a aldeia Muratu da Terra Indígena Paquiçamba, no miolo da Volta Grande. Com sorte, voltará com até 40 bois-de-bota (Panaque nigrolineatus), um dos mais cobiçados peixes ornamentais. O boi-de-bota vive nas ramas, a vegetação das corredeiras, e pode ser vendido por R$ 12 cada um aos aquários de Altamira -ou R$ 480 de renda extra num sábado.

O boi-de-bota, conhecido no exterior como "royal pleco", é um dos vários peixes loricariídeos -os populares cascudos- que ocorrem neste trecho do Xingu. Bem mais valioso é o acari-zebra (Hypancistrus zebra), o "zebra pleco", que chega a valer R$ 40 a unidade para quem o capturar (o que ninguém admite fazer, porque a coleta da espécie vulnerável está proibida). E há muitos outros acaris para pegar e vender: amarelinho, bola-azul, onça, aba-laranja...

A variedade de padrões das manchas dos peixes de poucos centímetros faz a alegria dos aquaristas. São adaptações à também enorme diversidade de habitats oferecida pelos pedrais do Xingu, como são conhecidos os labirintos de rochas, areia e vegetação em que se espraiam as águas verdes do rio na Volta Grande.

A grande transparência é um convite à seleção sexual, daí a exuberância das listras e bolinhas, para atrair a atenção das fêmeas. A profundidade e a velocidade variáveis da água garantem nichos de temperatura diversa, assim como as rochas oferecem todo tipo de toca, e a vegetação, de alimento. Cada espécie, ali, é também uma especialista.

Os geólogos não sabem ao certo por que o rio faz aquela curva abrupta para o leste na altura de Altamira. A guinada se dá bem na linha divisória entre a bacia sedimentar do Amazonas, terreno mais recente e fácil de erodir, ao norte, e um embasamento de rochas mais resistentes, ao sul. Mas isso não explica o volteio do Xingu, pois outros afluentes do Amazonas, como o Tapajós a oeste, passam em linha quase reta pela mesma transição.

Uma das hipóteses em estudo desde 2010 por André Oliveira Sawakuchi, do Instituto de Geologia da USP, é que o leito de rochas duras como o migmatito tenha sofrido uma elevação recente (em termos geológicos, bem entendido: menos de 65 milhões de anos). Ou, mesmo, que o embasamento ainda esteja sendo levantado, ou ainda que uma elevação de migmatito estivesse soterrada pelas rochas sedimentares e a erosão do rio apenas tenha exumado a elevação.

É como se o rio se desviasse por encontrar pelo caminho uma ilha de rochas muito mais resistentes e precisasse achar um caminho para contorná-la, formando um conjunto de corredeiras de complexidade e tamanho únicos (elas são mais comuns em rios de vazão menor). "Chama a atenção do geólogo, ainda, o padrão geométrico dos canais do rio na parte encachoeirada", explica Sawakuchi. Ele supõe que as águas estejam se espalhando pelas linhas criadas por fraturas geológicas no embasamento, orientadas no sentido noroeste, criando o emaranhado de canais e ilhas da Volta Grande, paraíso dos cascudinhos e seus pescadores.

Essa paisagem vai mudar muito com o fechamento da barragem de Pimental, dentro de um ano. Ele vai achatar a amplitude notável dos pulsos de enchente e seca do Xingu, cuja vazão pode ultrapassar 20.000 m³/s entre dezembro e maio e despencar para 400 m³/s por volta de agosto/setembro, nos piores anos (ainda assim, cerca de dez vezes a vazão do Tietê em seu trecho paulistano).

Várias das espécies de peixes dependem das cheias para se alimentar e reproduzir, invadindo a floresta inundada (igapós) para comer frutas e desovar em ambientes protegidos. Quando as turbinas da casa de força principal em Belo Monte estiverem funcionando, a partir de 2016, o vertedouro de Pimental garantirá uma vazão mínima na Volta Grande de 700 m³/s na seca, mas as cheias se limitarão a 4.000 m³/s e 8.000 m³/s, em anos alternados, a chamada "vazão sanitária".

Catarata de problemas

Os loricariídeos e seus pedrais, no entanto, estão longe de ser o único obstáculo no curso de Belo Monte. O Estudo de Impacto Ambiental (EIA) da hidrelétrica, aprovado em 2010 pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), tem 35 volumes. Demorou quatro anos para ficar pronto.

O nome sugere uma preocupação exclusiva com o ambiente natural, mas o estudo inclui também todos os impactos sociais da obra. Dos efeitos sobre o modo de vida dos índios ao saneamento básico em Altamira, do reassentamento de quem vivia em palafitas que serão inundadas ao impacto da explosão populacional nas cidades da área de influência, quase todas as mazelas passadas e presentes pedem solução naqueles milhares de páginas.

O processo de licenciamento pelo Ibama resultou num Projeto Básico Ambiental, o famigerado PBA, também ele de proporções amazônicas. São dezenas de programas, alguns com duração de mais de três décadas, que consumirão mais de R$ 4 bilhões dos R$ 30 bilhões que custará Belo Monte.

A lista de precondições -"condicionantes", no jargão socioambiental- estabelecida pelo Ibama para dar a licença de operação da usina até o final de 2014 ocupa nove páginas. Tem 40 itens, da construção de escolas e postos de saúde à instalação de redes de água e esgoto em Altamira e Vitória do Xingu, do monitoramento da qualidade da água e das populações de peixes ao detalhamento de um sistema de transposição de barcos no barramento de Pimental. Nunca na história da construção de barragens no Brasil um empreendedor teve de se ocupar com um programa de mitigação tão ambicioso e, como seria de esperar, problemático.

Índios, ribeirinhos e moradores de Altamira se queixam de não terem sido suficientemente consultados sobre o aproveitamento do Xingu. O governo federal responde dizendo que realizou 142 eventos, incluindo quatro audiências públicas (em Belém, Altamira, Vitória do Xingu e Brasil Novo), que reuniram 6.000 pessoas; 30 reuniões em aldeias (1.700 participantes); e 61 em comunidades (2.100 presentes). A ausência de consulta adequada a todos os povos indígenas é uma das razões alegadas em duas dezenas de ações que o Ministério Público Federal move contra Belo Monte.

A construção da hidrelétrica está dentro do cronograma, mas no entorno dela as obras andam devagar. Por conta dos atrasos no cumprimento das condicionantes, o Ibama -que mantém uma equipe de oito pessoas dedicadas a fiscalizar Belo Monte- já multou a Norte Energia duas vezes, em fevereiro de 2012 (R$ 7 milhões) e em outubro de 2013 (R$ 5,8 milhões). Ambas as multas são objeto de recursos administrativos.

Em relatório de vistoria em julho, a equipe afirmou que o "descompasso" poderá atrasar a licença de operação da usina, que a Norte Energia deve pedir no próximo mês de julho. Se ela não for concedida até dezembro de 2014, a empresa não poderá fechar a barragem de Pimental e começar a gerar energia em meados de 2015.

Ninguém espera que a diretoria do Ibama dê esse passo. A União está de ambos os lados do balcão. O consórcio Norte Energia é quase todo estatal e terá prejuízo se a obra atrasar. O BNDES, que ao financiar R$ 22,5 bilhões do empreendimento se tornou um sócio, contratou uma auditoria socioambiental para monitorar o cumprimento das precondições, mas não divulga seus relatórios, sob a alegação de sigilo comercial.

No próprio Ibama já se ouve que alcançar 50% de saneamento básico (redes de água e esgoto) em Altamira em meados de 2014 pode ser considerado satisfatório. Isso apesar de o corpo d'água que banha a cidade e recebe os dejetos de uma população 40% maior deixar de ser um rio corrente para se tornar um reservatório, com o fechamento da barragem de Pimental.

Madeira desperdiçada

Quem circula pelos três canteiros de obra da hidrelétrica -Pimental, Canais/Diques e Belo Monte- topa aqui e ali com gigantescas pilhas de madeira. Elas são de dois tipos: bota-foras de resíduos fino e grosso (galhos e troncos sem valor para serrarias) e pátios de toras, várias delas enegrecidas por um ou dois anos a céu aberto. A Norte Energia alega que a maior parte do material é de madeira "branca" (sem densidade para uso na construção civil) ou de espécies cujo processamento exige autorização do Ibama, como castanheiras.

Belo Monte não vai devastar uma área de floresta inteiramente virgem, pois a região da Volta Grande foi desmatada em pelo menos 50% para a prática da agricultura e da pecuária depois da abertura da rodovia Transamazônica, nos anos 1970. Sobraram apenas fragmentos de mata primária, principalmente nas ilhas formadas pelos canais do Xingu.

Mesmo assim, o volume envolvido na "supressão vegetal", segundo o eufemismo preferido pelo Ibama, é suficiente para influir no mercado regional de madeira. Só nos 130 km² do reservatório intermediário, uma conta grosseira aponta que serão derrubados 3 milhões de árvores.

Megaconstruções como a de Belo Monte consomem muita madeira na confecção de formas para concretar as estruturas das casas de força e dos vertedouros. O Ibama pressiona a Norte Energia e o Consórcio Construtor de Belo Monte (CCBM) para que a obra utilize de preferência a madeira do próprio desmatamento. Só em meados de 2013, contudo, teve início a montagem de duas serrarias nos canteiros, com capacidade para processar 80 m³ de toras por dia cada uma. Como resultado, até dezembro de 2012 a obra já havia demandado no mercado um total de 17,7 mil m³ de madeira, quando poderia estar vendendo.

Para Juan Doblas, especialista em geoprocessamento do Instituto Socioambiental (ISA) em Altamira, essa demanda extraordinária pode contribuir para estimular, em lugar de conter, o mercado ilegal na região. Embora a Norte Energia afirme ter comprovação da origem legal da madeira, Doblas acredita na posibilidade de que ao menos parte dela possa estar sendo extraída clandestinamente de unidades de conservação e terras indígenas -como Cachoeira Seca, área da etnia arara- e "esquentada" com autorizações de manejo florestal de áreas distantes dali.

Relatório da ONG Imazon divulgado em novembro de 2013 constatou que, de 2011 para 2012, a exploração madeireira não autorizada aumentou 151% no Pará. Um terço da área com extração clandestina se concentra em Trairão e Uruará -este último um dos municípios incluídos na área de influência de Belo Monte. O Pará foi o campeão de desmatamento na temporada 2012-2013, com 2.379 km² (41% do total amazônico) e um crescimento de 37% em relação ao ano anterior.

Peixes e chips

O responsável pela gestão ambiental da Norte Energia é o engenheiro Antônio Neto, 54. Sob seu comando estão nada menos que 55 ações do Projeto Básico Ambiental que abrangem o meio físico (águas superficiais e subterrâneas, erosão) e o meio biótico (seres vivos). Oito módulos de 5.000 m² foram demarcados para estudo de transformações nos habitats, que serão acompanhados por seis anos a fim de monitorar, a cada seis meses, as populações de aves, insetos e mamíferos (preguiças, macacos, antas, capivaras, ariranhas, lontras e iraras), assim como a flora (crescimento de árvores, sementes, flores).

O monitoramento de peixes será feito com biotelemetria, chips implantados nos peixes para registrar fluxo de migração em 800 km de rio, até o município de Senador José Porfírio, abaixo da casa de força principal no sítio Belo Monte. Oito postos fixos foram instalados no entorno da usina, para registrar quantos peixes passam e de quais das quatro espécies "chipadas": surubim, pirarara, pacu-de-seringa e curimbatá.

Além disso, a Norte Energia montou laboratório no campus da UFPA em Altamira para estudar comportamento, alimentação e reprodução do peixe ornamental acari-zebra. O plano é desenvolver tecnologia para reproduzi-lo em cativeiro (o que já se faz na Alemanha), como forma de recompor a renda dos pescadores.

Neto diz não ter ideia do que vai acontecer com a queda da vazão média na enchente para os picos de 4.000 m³/s e 8.000 m³/s em anos alternados, nem com as espécies que dependem do pulso de cheia: "Se alguém diz que sabe o que vai acontecer, está mentindo". Em outras palavras, Belo Monte é um grande experimento com a fauna e a flora da Volta Grande - para não falar das populações que têm o rio como fonte de sustento ou de lazer e das muitas dúvidas sobre a eficiência energética e econômica do empreendimento.

Experimento de risco

O risco de esse experimento no ambiente único de 100 km da curva do rio dar errado aumenta com uma deficiência científica básica, a falta de controle sobre as variáveis.

Na margem direita do Xingu, a cerca de 10 km da barragem de Pimental e outro tanto da Terra Indígena Paquiçamba, está para brotar mais um empreendimento de grande impacto -Belo Sun, maior mina de ouro do Brasil. A empresa de capital canadense planeja processar 94 milhões de toneladas de minério na Volta Grande, a partir de 2016, e extrair dele um total de 142 toneladas de ouro puro ao longo de 13 anos. Para comparação: estima-se que 100 toneladas tenham saído do garimpo de Serra Pelada, em uma década de funcionamento.

Apesar de a área de influência direta de Belo Sun se sobrepor à de Belo Monte, os estudos de impacto ambiental dos empreendimentos não só não levam em conta um ao outro como estão sendo fiscalizados por órgãos diferentes: o Ibama, no caso da hidrelétrica, e a Secretaria de Meio Ambiente do Pará, no caso da mina. O estudo de impacto da mineração, no entanto, baseia-se em dados sobre a vazão do Xingu que não consideram a presença da usina. Mineradoras geram montanhas de rejeitos, em geral armazenados em lagoas sujeitas a rompimento em época de chuvas fortes.

A equipe que fez o estudo de Belo Sun não contava com antropólogos, apesar da proximidade das terras indígenas. O Ministério Público e organizações não governamentais já se prepararam para tentar barrar o licenciamento na Justiça, por falta de consulta a comunidades indígenas e por acreditar que, havendo impacto sobre elas, a competência caberia ao órgão federal (Ibama), não à secretaria estadual. Outra enxurrada de processos deverá erguer-se contra Belo Sun, que teve no entanto aprovada sua licença prévia no Conselho Estadual do Meio Ambiente do Pará, em caráter provisório, no começo de dezembro.

Para o Planalto, o governo do Pará e as prefeituras da região, o que conta é o fluxo bilionário de investimentos, a criação de milhares de empregos (ainda que temporários) e a sensação de progresso que galvaniza a região. Na propaganda eleitoral na TV, valem mais as imagens de um laboratório de reprodução de acaris-zebra, ou de uma Altamira livre dos urubus após a remediação do lixão, do que o futuro imponderável dos pedrais do Xingu.

Capítulo 3 - Sociedade
Altamira invadida

População urbana aumenta de 100 mil para 140 mil em dois anos e transforma cidade num caos de acidentes de trânsito, violência e carestia. Por outro lado, o local também vai receber milhares de casas e o saneamento básico que nunca teve. Leia nesta reportagem tudo o que se fez e deixou de fazer para atenuar o impacto da obra na vida da cidade

Todos os sábados, em especial após o dia de pagamento, centenas de trabalhadores ocupam a descuidada orla de Altamira em busca de diversão. A música tecnobrega faz tremer as caixas de som dos botecos à beira das tranquilas águas verdes do Xingu. Bebe-se muito.

Mulheres, algumas delas prostitutas, dançam funk. As brigas são comuns, com emprego de facas e gargalos de garrafa pelos homens e puxões de cabelo pelas mulheres. Os bêbados, se não caem pelas areias ou pelas calçadas, banham-se no rio que recebe o esgoto da cidade sem tratamento.

A "corrida do ouro" que tomou conta de Altamira desde a instalação dos canteiros de obras da usina hidrelétrica de Belo Monte, em 2011, deixou marcas profundas na cidade. Nem todas ruins: vários setores do comércio florescem, há emprego para todos e os salários aumentaram.

"Caos", porém, é a palavra mais usada pela população, mesmo entre os que defendem o empreendimento: no trânsito, na segurança pública, nas panes energéticas quase diárias que liquidam eletrodomésticos -resultado da demanda criada pela própria obra, que consome o mesmo que 54 mil residências, paga uma conta de luz mensal de R$ 2,3 milhões e usa geradores das 14h às 17h para minorar o problema.

A população da cidade, que era de quase 100 mil pessoas no Censo de 2010, saltou para pelo menos 140 mil. O número total de operários previstos para o pico da obra era de 18 mil, porém chegou a 25 mil neste segundo semestre.

A construção de Belo Monte tem impacto sobre 11 cidades, mas Altamira, principal polo urbano da região, é de longe a mais afetada. Como 92% da obra fica no município vizinho de Vitória do Xingu, com um décimo da população de Altamira, há uma distorção: nos últimos dois anos a prefeitura de Vitória recolheu R$ 121 milhões de ISS, enquanto a de Altamira ficou com R$ 12,7 milhões.

Não surpreende, assim, que os moradores de Altamira julguem Belo Monte de forma bem mais crítica que os trabalhadores da usina, segundo pesquisa Datafolha com 435 pessoas na cidade. Enquanto 88% dos empregados aprovam a construção, entre residentes esse contingente cai para 57% -ainda assim, a maioria.

É clara a percepção de que o principal aspecto positivo da obra está na geração de empregos (apontada por 66% dos moradores), mas também de que esse benefício pode ser efêmero: 44% dizem acreditar que a cidade ficará pior quando terminar a construção, parcela quase igual à dos que dizem que ficará melhor (43%). Não por acaso, o mesmo número (43%) dos que acreditam que a Norte Energia só está cumprindo parcialmente as prometidas melhorias e compensações para Altamira.

Promessa e dívida

Para obter a licença de operação da usina, ficou estabelecido que a Norte Energia deverá cumprir dezenas de ações de cunho social e ambiental, um investimento de R$ 5 bilhões na infraestrutura da cidade e municípios da região.

"É o maior projeto socioambiental em curso no mundo", afirma Cassandra Molisani, superintendente da área na empresa. "Na história das hidrelétricas no Brasil não existe notícia de uma lista tão extensa e tão detalhada como a que foi feita para Belo Monte."

Muitas das obras estão atrasadas, e os serviços públicos, saturados. O único hospital de portas abertas da cidade passou a atender também os novos moradores. "Estamos 150% lotados o tempo inteiro", afirma o secretário municipal de Saúde, Waldecir Maia. Um novo hospital está em construção, com capacidade para cem leitos, mas deveria ter sido entregue em 2012 e só ficará pronto em 2014.

A estrutura é quase a mesma que atendia uma população de 100 mil habitantes. São 16 unidades básicas, quatro delas construídas pela Norte Energia, sendo que duas já existiam em outros endereços. "Em minha cabeça isso tudo já devia estar pronto desde quando o consórcio chegou", diz o secretário.

José Lazaro Ladislau, gerente de Saúde da Norte Energia, atribui a sobrecarga do hospital à atenção primária deficiente no município. Concorda, porém, que houve atraso no hospital, por dificuldade do município em achar o terreno e demora na adequação do projeto às normas da Vigilância Sanitária.

"De toda forma, a estrutura atual é suficiente para atender 200 mil pessoas, de acordo com os padrões do SUS", diz o gerente. O secretário Maia discorda: "Estatisticamente, pode até ser, mas convido a Norte Energia a passar um dia no hospital comigo. Quanto à atenção primária, um bom começo seria se cuidassem disso nos canteiros, sem mandar o trabalhador para a cidade".

"Estamos já para o final de 2013, mais de dois anos da empresa na região, e as condicionantes mais fortes estão se iniciando agora, praticamente", queixa-se o prefeito Domingos Juvenil (PMDB), eleito em 2012. A Norte Energia se defende dizendo que a prefeitura demorou para designar áreas e aprovar projetos de construção. Marcelo Salazar, da ONG Instituto Socioambiental (ISA) em Altamira, afirma que a prefeitura está despreparada para lidar com o aumento populacional: "É uma negociação assimétrica. A prefeitura não conta com uma estrutura para dialogar com a Norte Energia".

"Toda a pressão acumulada de um passivo que vem de décadas aparece à tona", diz a superintendente Cassandra Molisani. Ela cita como exemplo as obras de remediação do lixão da cidade e a construção de aterro sanitário. "Não existe outro igual no Pará. Altamira era conhecida como a cidade dos urubus, um problema que se arrastava havia pelo menos 25 anos."

Armas brancas

A guarnição de três policiais militares do Grupo Tático Operacional (GTO) impõe respeito nas ruas poeirentas de Altamira, com seus uniformes negros, submetralhadoras e a picape Amarok com adesivo de doação da Eletronorte. "Não saio com esta viatura e este equipamento [bate a mão no cano da arma] para passear", avisa o cabo Carlos Gonçalves, que está no comando. Do posto de gasolina em que a reportagem o encontra, ao meio-dia, o grupo ruma para um dos "baixões" da cidade, margens alagáveis dos igarapés em que se concentram as batidas policiais e as casas de madeira sobre palafitas.

Num barraco semidestruído, entre os últimos da passarela precária, os PMs detêm um homem magro e tatuado, sem camisa, conhecido como Messias. "Já puxou nove anos [de cadeia] e saiu", anuncia o cabo. Sob a casa, em meio ao lixo acumulado, os soldados encontram duas facas e um cachimbo de crack e decidem levar Messias para a delegacia. A companheira traz uma camisa do São Paulo Futebol Clube para o detido vestir. Os militares revistam o barraco defronte, onde uma jovem jaz entorpecida no sofá imundo e permanece indiferente ao entra e sai de policiais e repórteres.

A única delegacia da cidade conta com 17 funcionários. O número de detenções por lesão corporal aumentou 40% de 2010 para cá, segundo Cristiano Marcelo do Nascimento, superintendente regional da Polícia Civil. "Houve [também] um grande aumento de furtos e roubos, numa proporção de 30% a 40%, com quadrilhas que vieram do Amapá, de Mato Grosso ou [da cidade] de Santarém."

Em 2011, ano em que começou a obra de Belo Monte, a polícia prendeu 22 traficantes. Só nos primeiros cinco meses de 2013 foram 104, a maioria por porte de crack. O número de adolescentes apreendidos saltou 196% nos cinco primeiros meses de 2013, em comparação com o mesmo período de 2012.

Outro problema que se agrava são as mortes em acidentes de trânsito. A malha viária permaneceu a mesma, apesar da frota de veículos ter aumentado em três anos de 10 mil para 40 mil -68% de motocicletas. As calçadas são poucas, a poeira é muita. "Antigamente havia quatro óbitos por ano. Hoje são três ou quatro por mês", informa Flavio Carneiro, diretor do Departamento Municipal de Trânsito.

Avanços e atrasos

No comando de uma escavadeira de R$ 1,3 milhão e 74 toneladas, a operadora Aparecida Torres, 28, conta que abandonou o cargo de professora numa escola municipal de Altamira para descarregar duas balsas de areia por dia, no canteiro Belo Monte. "Eu ganhava R$ 1.600 e hoje ganho R$ 3.200. Sinto falta da sala de aula, mas ali eu não tinha perspectiva. Agora pago minhas contas e posso fazer uma poupança."

Pelo menos uma dezena de academias de ginástica se instalaram em Altamira nos últimos dois anos, com mensalidades de até R$ 150. É a força da classe média que desponta na cidade graças às obras de Belo Monte. "As vendas no comércio aumentaram 35% em média", festeja Odair Pinho, vice-presidente da Acepa (associação comercial) em Altamira.

Os salários dispararam, sintoma da escassez de mão de obra que sufoca as atividades tradicionais da região, como o plantio de cacau. "A diária do trabalhador estava em torno de R$ 25. Hoje vai de R$ 40 a R$ 50, e mesmo assim está difícil de encontrar gente ", reclama José Carlos da Silva, presidente da associação dos produtores e feirantes de Altamira.

O custo de vida aumentou, com os imóveis puxando a fila: uma casa de 80 m² no centro, que antes valia R$ 200 mil, hoje não sai por menos de R$ 400 mil. Só a Norte Energia alugou 123 imóveis na cidade (em diferentes períodos). O preço dos alimentos também anda salgado: "O que custava um real na feira hoje custa três", resmunga o comerciante Elivan Gomes, 50, entre as barracas do Mercado Municipal.

Altamira nunca teve uma rede de coleta de esgoto. A distribuição da água atende no máximo 40% das casas. Valas negras nas ruas e poços nos quintais eram a regra da cidade -até a chegada de Belo Monte.

Mais de dois anos depois de iniciada a construção da usina, em Altamira as obras de saneamento básico ainda estão longe de serem finalizadas. As estações elevatórias e as de tratamento de esgoto ainda estão sendo construídas. Mesmo assim, Marcelo Dias, superintendente das obras de entorno da Norte Energia, está otimista e acredita que conseguirá cumprir o prazo, julho de 2014.

"Houve um atraso para o início das obras, por conta de uma complexa negociação com a prefeitura e a Cosanpa [Companhia de Saneamento do Pará], que vai operar o sistema", afirma. Por toda parte da cidade se veem hoje valas para a contrução de redes de água e esgoto, o que só piora o trânsito caótico.

Desenraizados

João Benedito da Silva Balão, 70, viveu quase a vida toda na Volta Grande. Tinha um sítio que dava para o rio no local onde hoje circulam caminhões e tratores do canal em construção. Recebeu R$ 700 mil pela terra, comprou uma casa para os filhos em Altamira e um terreno em Medicilândia, a cerca de 80 km do Xingu.

"Eu vendia arroz, farinha, feijão. Estava acostumado a viver na beira do rio e tinha pouca vontade de sair, mas não teve jeito", conta. "Hoje a solidão que sinto é a maior do mundo. Tenho saudade demais. É um castigo que Deus tá botando. Vai destruir todos os bichos, paca, veado, caititu, cutia. Vai tudo morrer".

A Norte Energia contabiliza a aquisição de 1.100 propriedades na área rural, onde hoje estão instalados os canteiros ou em áreas vizinhas. A defensora pública Andreia Barreto calcula que cerca de 2.000 famílias que viviam de pesca e agricultura tenham sido atingidas e a grande maioria, indenizada. "Algumas foram bem pagas, outras não. Muita gente perdeu seu meio de trabalho e um modo de vida a que estavam acostumados. Não sabem o que fazer com o dinheiro", afirma.

Os que não aceitaram as ofertas foram desapropriados, com o valor depositado em juízo. Segundo Luiz Zoccal, superintendente de Assuntos Fundiários e Relocação da Norte Energia, essa é a situação de 4% das negociações.

O grande ponto de divergência diz respeito à cotação das benfeitorias, como as plantações de cacau comuns na região. Zoccal explica que o valor tem variado de acordo com a cotação do produto no mercado internacional. "Houve uma revisão no caderno de preços. O cacau já chegou a valer R$ 10 o quilo, agora está entre R$ 4,50 e R$ 5,50."

Maria do Socorro de Oliveira, 69, vivia em 200 hectares vizinhos a uma estrada ampliada para a passagem de caminhões e tratores no canteiro Pimental. Tinha 4.700 pés de cacau. Cada árvore foi cotada a R$ 12, o que a deixou contrariada, pois um vizinho que vendeu o terreno antes recebeu mais que o dobro pelo pé de cacau.

Terminou desapropriada. "Fui à cidade para uma consulta médica e, quando voltei, a casa estava demolida." Enquanto aguarda uma decisão sobre a indenização, vive com a filha e os netos numa casa de palafita em Altamira. Para ajudar nas contas, a família aluga a varanda, onde funciona um bar.

No perímetro urbano de Altamira, a Norte Energia cadastrou 7.790 famílias em áreas que serão alagadas, muitas delas em palafitas. Elas terão de deixar suas casas até julho do ano que vem. Cerca de 4.100 optaram pelo reassentamento em casas que começaram a ser construídas pela Norte Energia na metade de 2013, e as outras serão indenizadas. A defensora Andreia Barreto acredita que o número esteja subestimado.

Há queixas contra o modelo único das casas de 63 m² em lotes de 300 m², com três dormitórios (uma suíte), dois banheiros, sala com cozinha americana. Os primeiros panfletos espalhados pela empresa em Altamira mostravam três tamanhos, 60 m², 69m² e 78 m², e casas feitas de alvenaria. Ao final, por força dos atrasos, a Norte Energia optou pelo concreto alveolar, apesar do custo 20% maior -segundo a empresa, esse tipo de concreto em que se injetam bolhas de ar permite maior "conforto térmico", com redução de até 5"C em relação ao meio externo.

O reassentamento das famílias está entre as ações compensatórias mais atrasadas de Belo Monte. A previsão original era iniciar a construção das casas em 2011, mas houve atrasos, mais uma vez, na escolha e na destinação de terrenos pela prefeitura.

Um dos maiores dramas urbanos é o dos 300 oleiros que vivem numa área de 2 km² que será alagada. "Esta é a única atividade permanente que vai acabar para sempre. Estamos à mercê da sorte", protesta Marconi Ribeiro, do sindicato da categoria. "A argila daqui é boa justamente porque estamos em uma área de alagamento durante as cheias. Não tem como nos reassentar em local próximo a Altamira."

São todos posseiros, que pretendem exigir R$ 200 mil de indenização cada um, apesar da falta de papéis para comprovar a ocupação. As tratativas com a Norte Energia mal começaram. A inundação está prevista para dezembro de 2014.

A conversão de Lula

"Que o país precise de mais energia e tenha de implantar usinas, eu entendo. Mas não do jeito que está sendo feito", lamenta dom Erwin Kräutler, bispo do Xingu há 32 anos. "E agora não tem mais volta. O PT é uma das maiores decepções de minha vida. Lula mentiu para mim, quando disse que o projeto só sairia se fosse em benefício de todos, sem meter goela abaixo da população."

Houve um racha nas organizações do movimento social quando Lula visitou a região de Belo Monte em 2010 e defendeu a construção da usina. Até então, a luta era contra sua implantação.

A FVPP (Fundação Viver, Produzir e Preservar) , uma das ONGs mais tradicionais, mudou de lado: "Passamos a aceitar o projeto como uma realidade, até porque ele foi revisto. Sua versão original era muito mais danosa. Achamos que era hora de desistir da defesa apaixonada. Fomos muito criticados, mas decidimos entrar em um espírito de negociação", justifica João Baptista Uchoa Pereira, coordenador da fundação.

A FVPP passou a se dedicar com mais intensidade a sua missão original, de suporte à agricultura familiar. Com mais de 20 anos de atuação, atende 10 mil agricultores e tem 70 entidades associadas. "Belo Monte é sempre uma preocupação. Traz coisas boas, como a possibilidade de transformar o município, e coisas ruins", diz o coordenador Uchoa Pereira. Odair Pinho, da associação comercial, concorda: "Muitas melhorias acabarão implantadas. Mas um novo desafio vai surgir: muita gente ficará sem emprego".

Capítulo 4 - Povos indígenas
Índio não quer mesada

Cerca de R$ 5 bilhões serão destinados para obras de compensação social e ambiental de Belo Monte, parte deles para melhorar as condições de vida de nove povos indígenas, plano que no entanto deixou de fora os ribeirinhos. Acompanhe a Folha numa viagem às terras dos jurunas e dos arauetés e à Reserva Extrativista Rio Xingu

Não é preciso deixar a zona urbana de Altamira para dar de cara com a questão indígena deflagrada pela usina de Belo Monte. A poucas quadras do centro, na rua Coronel José Porfírio, a sede local da Fundação Nacional do Índio (Funai) é o retrato acabado de uma repartição pública sob estresse: paredes encardidas, poucos funcionários à vista, quatro camionetes Mitsubishi novas, uma delas batida, e uma kombi caindo aos pedaços.

A multidão de índios se espalha pelos terraços e jardins, vários recostados em redes. A maioria é de mulheres e crianças, muitas crianças, que defecam sem cerimônia pelo terreno encravado no campus da Universidade Federal do Pará em Altamira. Na terça-feira de setembro em que a reportagem da Folha esteve pela primeira vez na Funai de Altamira, as mulheres não paravam de chegar em busca dos papéis para receber o salário-maternidade do INSS. Só naquele mês foram 400 índias em busca do benefício.

Várias famílias aproveitam a viagem da aldeia à cidade, que pode consumir várias horas, ou mesmo dias, para vender algum artesanato e comprar alimentos industrializados. "Até farinha estamos comprando", lamenta Giliarde Juruna, líder da aldeia Muratu na terra Paquiçamba.

O cultivo da mandioca e a fabricação da farinha são a grande contribuição dos índios para a culinária brasileira. Depender dos brancos para pô-la na cuia é o sintoma mais grave da dependência que os povos da região afetada pela hidrelétrica desenvolveram em relação à usina de Belo Monte e à empresa Norte Energia.

Os jurunas de Paquiçamba e os araras da Volta Grande são os únicos grupos que o estudo ambiental de Belo Monte incluiu na área de impacto direto, pois suas terras se encontram nessa curva do Xingu que a barragem fará quase secar na maior parte do ano. Outras sete terras indígenas foram designadas para o setor de influência indireta, o que em princípio lhes daria menos direito a compensações previstas no Projeto Básico Ambiental (PBA) de Belo Monte.

A briga dos caiapós

Dessa lista não fazem parte os mundurucus e os caiapós do grupo do lendário chefe Raoni Metuktire, justamente os que mais barulho fizeram em torno de Belo Monte. Os primeiros nem vivem na bacia do Xingu, e sim na do Tapajós, mas paralisaram a obra de Belo Monte mais de uma vez para tentar arrancar do governo federal a reversão do plano de construir cinco hidrelétricas naquele outro afluente do Amazonas.

O grupo de Raoni habita uma região do Xingu a cerca de 500 km da Volta Grande, mas esses caiapós parecem convencidos de que o Planalto não desistiu de construir mais barragens rio acima (apesar de resolução de 2008 do Conselho Nacional de Política Energética determinar que a de Belo Monte seria a única no Xingu). Desde a década de 1980 eles se destacam na resistência ao aproveitamento do rio.

"O baixo rendimento hidrelétrico de Belo Monte deve gerar pressões por novos barramentos no Xingu", afirma Marcelo Salazar, coordenador do Instituto Socioambiental (ISA) em Altamira. "Rezo para que o compromisso do governo de não mexer mais no rio seja cumprido, mas há uma coleção de experiências com compromissos assumidos e não cumpridos no caso de Belo Monte."

Dotô Takakire, caiapó da terra Baú-Mekragnotire e coordenador técnico da Funai em Novo Progresso (PA), repete em português claro a ameaça consagrada por sua tia Tuíra há quase um quarto de século, quando encostou o terçado no rosto do engenheiro José Antônio Muniz Lopes, da Eletronorte: "Governo faz consulta, mas constrói de qualquer jeito. Na próxima construção [de outras barragens no Xingu], vai ter guerra".

Belo Monte, para os índios, tornou-se um fato consumado -e desagregador. Mesmo entre os caiapós a atuação da Norte Energia causou divisões. O subgrupo caiapó dos xicrins, da Terra Indígena Trincheira Bacajá, transformou-se em grande cliente da empresa, que durante mais de um ano -de 2011 a 2012, quando ainda não estava contratada a execução do PBA indígena- distribuiu R$ 30 mil por mês a cada aldeia na forma de mercadorias. Até camionetes Mitsubishi Triton podem ser vistas em áreas indígenas. A mesada pacificadora recebeu o nome enganoso de "Plano Emergencial".

Outros caiapós do Pará chegaram a negociar com o setor elétrico, mas as tratativas naufragaram em março deste ano. Numa carta endereçada à holding Eletrobras, renunciaram à promessa de R$ 4,5 milhões anuais, "dinheiro sujo", para 26 comunidades: "A palavra de vocês não vale nada. Acabou a conversa", diz o texto. "Nosso rio não tem preço. O Xingu é nossa casa, e vocês não são bem-vindos."

Os xicrins, embora excluídos da área de impacto direto de Belo Monte, temem pela saúde de seu rio, o Bacajá, que desemboca na Volta Grande. Com a redução drástica da vazão do Xingu abaixo da barragem de Pimental, o regime do Bacajá também deve mudar, mas não se sabe bem de que modo. "Havia uma manifestação contra Belo Monte, [mas] nossos parentes [xicrins] aqui na Volta Grande aceitaram a construção. Não podemos fazer mais nada", conforma-se Dotô Takakire diante da capitulação.

Dívida impagável

O Brasil tem quase duas centenas de etnias indígenas, com línguas e costumes diversos, mas um traço comum é a aversão à avareza. Expostos ao fluxo de mercadorias encorpado pela Norte Energia, que nada tem de sovina, pedem sempre mais.

"Os índios se deixaram levar. Teve muito cacique que foi comprado", sentencia Elza Xipaya, da Funai em Altamira. "Índio se compra, mas não se vende", ressalva o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, do Museu Nacional da UFRJ. "Os índios da Volta Grande estavam cada vez mais esquecendo que eram índios. Com Belo Monte, descobriram que juridicamente são índios e passaram a lutar por seus direitos. Por mais paradoxal que seja isso, é positivo, eles surgem com identidade política."

Viveiros de Castro conviveu durante a década de 1980 com os arauetés, um dos povos na área de influência indireta da usina (o que não quer dizer que essa influência seja inofensiva). Com a "compressão tecnológica do espaço" oferecida pelas telecomunicações e viagens de voadeira (lancha) e avião, constata o antropólogo, há cada vez mais índios nas cidades e cada vez mais brancos em áreas indígenas.

Os recursos despejados nas aldeias pelo Plano Emergencial deflagram o "clássico e mortífero impacto causado pela mitigação do impacto", diz Viveiros de Castro. Seu estudante de doutorado Guilherme Heurich, que vive parte do ano na aldeia Paratati dos arauetés, é da mesma opinião: "A maneira pela qual as casas foram construídas mostra que a suposta compensação dos danos causados pela barragem é, na verdade, outra forma de impacto. Ao serrar madeira dentro da terra indígena e trazer toneladas de material de construção para as aldeias, as ações da Norte Energia são o verdadeiro impacto e não a compensação, como deveriam ser".

Heurich se refere às casas de madeira que a empresa acaba de erguer na aldeia Paratati, seis horas de voadeira rio acima de Altamira, nesta época do ano, se for usado um motor de 90 cavalos. As construções de tábuas, com 8 m x 10 m de área, chão de cimento queimado e telas de fibrocimento contrastam, lado a lado, com as casas de barro e palha de babaçu. Esta cobertura resulta em casas bem mais frescas, mas a palha precisa ser trocada a cada cinco anos. O Ministério Público, mediador da negociação com a Norte Energia, sugeriu que se usassem telhas de barro, mas isso atrasaria a construção, e os arauetés não quiseram esperar.

As tábuas são de castanheira, uma árvore cuja derrubada está proibida, ao menos fora de terras indígenas. Kamarati, líder da aldeia Paratati, diz que a escolha da castanheira foi dos próprios índios e que só foram empregadas árvores caídas ou que produziam pouco.

O engenheiro ambiental Fernando Augusto Di Franco Ribeiro, 36, superintendente interino de assuntos indígenas da Norte Energia, explica que a construção de casas para todas as aldeias dos nove povos indígenas afetados não é fruto nem do Plano Emergencial (encerrado em 2012) nem do PBA, que só decolou neste segundo semestre, mas sim de uma negociação à parte. Uma negociação nem sempre tranquila: os assurinis da terra Koatinemo e os xicrins de Trincheira Bacajá, por exemplo, exigem construções de alvenaria, mas isso está fora de cogitação pela Norte Energia.

Qualquer semelhança com o Plano Emergencial não é coincidência, mas padrão de relacionamento: a empresa dá o que quer, e os índios acabam aceitando.

Lista de compras

A mesada do Plano Emergencial, além de estimular a proliferação de aldeias (havia duas dos arauetés, agora são seis), originou as chamadas "listas de compras", que incluíam de motores de popa a iogurte, de rádios a camas box. "Apareceu um caminhão de índio", conta Elza Xipaia, coordenadora técnica da Funai que ficou encarregada de administrar as listas. "Desandou nossa estrutura, não tinha mais sossego. Hoje a Funai está aí, um caos. Tudo depende da Norte Energia."

Para complicar a situação, no final de novembro de 2013 surgiram relatos de índios isolados na região, para os lados da terra Xipaya. A Frente de Proteção Etnoambiental do Médio Xingu, braço da Funai de Altamira chefiado por Luciano Pohl e encarregado de 11 aldeias de três povos de contato recente, conta com apenas sete pessoas e está soterrada em burocracia. Uma simples expedição para verificar os relatos (que só encontrou pegadas) implicou o distanciamento de um funcionário por pelo menos uma semana.

Nas aldeias antigas, as roças de mandioca começaram a desaparecer. Nas novas, as casas de farinha nem chegavam a ser construídas. Com a mudança dos hábitos alimentares em favor dos gêneros adquiridos na cidade, paradoxalmente, a desnutrição aumentou.

O Plano Emergencial foi suspenso em 2012 sob críticas de todos os lados. O geólogo Pedro Bignelli, 52, que foi diretor de Licenciamento do Ibama e hoje coordena a área indígena na Norte Energia, está no comando da tentativa de obter um armistício e pôr nos trilhos o programa de melhoramento das aldeias. "Falei com os xicrins: vocês estão se transformando em pessoas dependentes, como cadeirantes", relembra. "Foi uma reunião tensa, mas eles entenderam."

A Norte Energia assumiu outras obras civis previstas no PBA indígena, como pistas de pouso, saneamento, atracadouros, estradas, poços artesianos, postos de saúde e escolas. Mas a maioria dos programas em que se desdobra o plano será gerenciada por uma empresa contratada, a Verthic, que conta com remanescentes do grupo chefiado por antropólogos encarregado de estudar os impactos sobre as populações indígenas.

O cabeça da Verthic é Fernando de Freitas Vicente, 35, administrador de empresas que enxerga méritos no Plano Emergencial. Para ele, fazia sentido, já que não havia nada no lugar, mas a forma com que foi executado foi trágica. "A ideia era fortalecer a Funai para cuidar do impacto, enquanto não deslanchava o PBA. Funai e Norte Energia não têm competência, só dinheiro", afirma Vicente, que relata ter visto fardos de arroz e feijão das listas de compras usados como degraus em barrancos de rio nas aldeias. "O processo de Belo Monte, apesar dos pesares, é uma mudança de águas", diz o administrador, referindo-se ao ineditismo do PBA indígena.

Um rio de porcos

Não há fardos nos barrancos da aldeia Paratati, na Terra Indígena Araweté. Crianças e mulheres, entre elas a enfermeira do local, ficam com a água pela cintura lavando roupa. Meninos e meninas saem de vez em quando para subir numa árvore e pular no Xingu.

No alto da rampa que leva às casas, sobem rolos de fumaça. São vários pedaços enegrecidos de queixadas (porcos selvagens) que estão sendo moqueados. Dezenas foram mortos em sua hora mais vulnerável: o momento em que a vara inteira, que pode somar duas centenas de animais, atravessa o rio. Herculano Costa Silva, 46, o ribeirinho que acompanha a reportagem a Paratati após convite por rádio do cacique Kamarati, traz de presente três melancias de sua roça, e recebe em troca três quartos de queixada. "Toda hora o índio socorre a gente", conta Silva.

O ribeirinho já teve a casa queimada por grileiros, em 2001. Mudou-se para Altamira, para São Félix do Xingu, pulou de garimpo em garimpo, mas acabou voltando para a terra em que nasceu e se criou. Foi um dos que lutaram pela criação da Reserva Extrativista Rio Xingu, que hoje abriga 59 famílias numa faixa de terra ao longo do rio. Na assinatura do ato de criação, em 5 de junho de 2008, Dia do Meio Ambiente, discursou em Brasília ao lado do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A amizade com os índios da aldeia Paratati não impede Silva de se queixar com amargor da discriminação dos moradores da Resex, que não foi incluída no PBA da Norte Energia. A área fica bem defronte aos arauetés, do outro lado do Xingu, portanto seus moradores estão sujeitos aos mesmos impactos sofridos pelos índios, mas nada devem receber de benefícios pela construção de Belo Monte.

"Somos da mesma carne humana", ressente-se o ribeirinho. O posto de saúde e a escola recém-construídos na comunidade Gabiroto, ainda desprovidos de funcionários municipais, foram financiados com recursos obtidos de outras fontes, como o Fundo Vale a as fundações Rainforest (Noruega) e Moore (EUA).

Apesar dos olhos claros de um ou outro morador de Paratati, são todos obviamente índios para quem chega de fora, com exceção da dezena de operários que montam as casas de madeira. Os homens trajam calções e bermudas coloridas e quase confundem com os trabalhadores. As mulheres, porém, envergam o tradicional saiote vermelho das arauetés, que elas mesmas tecem do algodão que plantam e tingem. Algumas também trazem a mesma cor no rosto e nos cabelos, coloridos com tintura à base de urucum.

Quem é índio?

A aldeia araueté Paratati é muito diferente do que se encontra na aldeia juruna Muratu, da Terra Indígena Paquiçamba, que poderia ser facilmente confundida com uma comunidade de ribeirinhos. As casas de madeira ordenadas em fileiras, todas na cor lilás, nada têm a ver com o labirinto de moradias novas e velhas em Paratati. Em Muratu se pode chegar de carro, boa parte do percurso em estrada asfaltada pela Norte Energia, o travessão 27 da Transamazônica, que corta a área de obras da hidrelétrica.

Por toda parte se veem os sinais deixados pelo Plano Emergencial da Norte Energia -para o bem e para o mal. Há uma escola novinha de alvenaria, mas em setembro ainda estava fora de uso, por falta de professor.Na areia da praia espalhavam-se vários objetos, de barcos de alumínio, redes de pesca e motores de popa a pedaços de brinquedos, embalagens plásticas e roupas de criança.

A única reclamação do cacique Giliarde Juruna contra o Plano Emergencial, contudo, foi ter acabado: "Era para continuar, R$ 30 mil por mês, até o PBA começar. Dizem que começou, mas para mim não começou". Sem as doações, a aldeia teve de retomar as roças e agora se prepara para construir uma casa de farinha.

Os jurunas estão irritados com a lentidão do processo para aumentar a terra indígena, de modo a que tenham acesso ao reservatório da usina para pescar. E também com a indefinição quanto a construir uma ponte sobre o canal de Belo Monte, para que possam seguir usando o travessão 27 para chegar a Altamira. Sem ela, terão de fazer a volta pelo travessão 55, que sai 28 km adiante na Transamazônica.

O líder da aldeia diz que os jurunas da Volta Grande ainda são alvos de preconceito por não parecerem índios, o que dificulta o reconhecimento de seus direitos, apesar de habitarem uma terra indígena homologada desde 1991. "Digo que sou índio e pronto. Ponho a mão no peito. Quem conhece nós sabe que somos índios. Não dependo de ninguém."

Tribo urbana

No caso dos índios da cidade, que não têm o vínculo com terras tradicionalmente ocupadas, resta o recurso à genealogia. Altamira se formou no trecho do Xingu onde havia aldeias xipaias e curuaias, etnias que se diluíram na mistura com os migrantes de outras partes do Brasil.

Como as exigências socioambientais para Belo Monte previam reassentar também os índios não aldeados, de repente muita gente que morava em áreas urbanas que serão alagadas passou a se dizer índio, na esperança de conseguir uma casa da Norte Energia, indenização em dinheiro ou carta de ou carta de crédito.

Elza Xipaya, ela própria uma remanescente, formou uma associação de índios da cidade para que fossem reconhecidos pela Funai. Quando a Norte Energia começou a cadastrar os descendentes indígenas urbanos, ela foi alistada como uma espécie de consultora. "Tinha a responsabilidade de não deixar entrar índio falso", conta. Passou a trabalhar com a socióloga Mayra Pascuet e a bióloga Mariana Favero, que iniciaram o cadastramento e depois formaram a empresa Apoena, encarregada pela Norte Energia de acompanhar o reassentamento dos indígenas urbanos.

Os critérios para separar índios de não índios são autodeclaração e reconhecimento pelo grupo, por meio de entrevistas e reconstituição de genealogias. Nos casos de etnias de lugares distantes, a equipe recorreu a escritórios regionais da Funai. O cadastro iniciado há cinco anos foi fechado em janeiro de 2013, com 654 famílias indígenas na área urbana e outras 98 na área rural.

Declaração de independência

Não só as casas da Norte Energia motivam índios e não índios, aldeados ou urbanos, a sair em busca de um quinhão dos recursos que Belo Monte carreou para a região. Além dos mais de R$ 4 bilhões do PBA, há R$ 500 milhões destinados pelo governo federal ao Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável do Xingu (PDRSX). Só neste ano estão sendo distribuídos R$ 40 milhões para projetos de capacitação e melhoria de comunidades.

Na primeira semana de setembro houve reunião do PDRSX em Altamira. O caiapó Dotô Takakire, de camisa social listrada e bota pontuda de vaqueiro, defendeu a concessão de R$ 600 mil para construir uma casa de apoio de 300 m² em Castelo dos Sonhos (distrito de Altamira que fica a 950 km da sede do município).

Com a casa, ficaria mais fácil para as 255 famílias de cinco aldeias da Terra Indígena Baú-Mekragnotire obterem serviços do Estado, como Bolsa Família, salário-maternidade e aposentadoria. O projeto foi aprovado.

Na entrada do auditório da Associação Comercial onde se realizou a plenária do PDRSX, um retrato do 16o presidente americano, Abraham Lincoln, cita uma frase sua que parece talhada para caracterizar a relação entre índios e não índios na esteira de Belo Monte: "Não poderás ajudar aos homens de maneira permanente se fizeres por eles aquilo que eles podem e devem fazer por si próprios".

Capítulo 5 - História
Quatro décadas de luta

Belo Monte vai alagar 516 km² em áreas rurais e urbanas, bem menos que os mais de 1.200 km² previstos nas versões anteriores do projeto da hidrelétrica que motivaram forte reação de índios e repercussão internacional já nos anos 1980. Mergulhe com a Folha nesse passado de controvérsias e polêmicas que quase tornou inviável o empreendimento

A hidrelétrica de Belo Monte começou a nascer com um diálogo corriqueiro, no ano de 1972, entre um balseiro do Xingu e um jovem engenheiro canadense, John Dennis Cadman. "Qual é a cota aqui?", perguntou Cadman. "Não sei, moço. Mas aqui tem maré."

Aos 32 anos, Cadman visitava Altamira após um congresso de geologia no Pará. Escolheu o passeio pela recém-iniciada rodovia Transamazônica, que ladeava a cidade, para tirar a limpo algo que o intrigava desde os tempos de estudante na Universidade Princeton, nos EUA, quando viera ao Brasil para um programa de trabalho voluntário: por que o rio Xingu descrevia aquele arco de 140 km para o leste e em seguida retomava o rumo norte para desaguar no Amazonas?

"Eu vi o rio com 4 km de largura. É muito rio", diz o engenheiro aposentado, com sotaque ainda forte. Nas mãos, o atlas comprado em 1961 em que estudara a chamada Volta Grande do Xingu.

Muito rio, para um engenheiro, significa potencial energético promissor. Mas seria preciso verificar outra variável: haveria ali também algum desnível importante no Xingu? É uma informação essencial para quem pretende construir uma usina hidrelétrica, porque a queda-d'água é decisiva para gerar uma grande quantidade de energia.

Cotas e quedas

Ao chegar de avião a Altamira, Cadman havia perguntado ao piloto qual era a cota do aeroporto, ou seja, sua altitude em relação ao nível do mar. "Acho que é 100", foi a resposta. Na linha máxima da enchente, o rio ficava apenas 5 m abaixo do nível do aeroporto, algo que Cadman estimou descendo um barranco que separava a pista da água.

Seu plano era sair de Altamira e percorrer 50 km da Transamazônica até um vilarejo chamado Belo Monte do Pontal, logo depois da Volta Grande. O balseiro que esperava o grupo recebeu a pergunta do engenheiro com alguma surpresa. A resposta sobre a maré foi a primeira que lhe ocorreu na hora, mas, para Cadman, a intuição do barqueiro bastou para fornecer uma pista segura.

"Estimei que [a vila] devia estar perto da cota cinco. Foi a primeira vez, então, que vi que tinha uns 90 m de queda nessa Volta Grande", conta o homem que ficou conhecido como o "pai" de Belo Monte. Nas quatro décadas desde o diálogo, uma sucessão de acasos e o lobby dos setores empreiteiro e elétrico tornou Belo Monte uma realidade, mesmo contra a grande oposição dos índios, do setor ambiental e até de parte dos especialistas em energia.

Os estudos do potencial energético do Xingu começaram oficialmente em 1975 e demoraram quase cinco anos. Para levantar a topografia, era necessário fazer clarões na selva e tirar fotos aéreas. Quando ficaram prontos, os estudos de potencial hidrelétrico passaram a enfrentar dois problemas, um técnico e outro político.

Cadman, já então funcionário da estatal Eletronorte, tornou-se o responsável por fiscalizar o contrato com a empresa CNEC (Consórcio Nacional de Engenheiros Consultores), encarregada dos estudos. As primeiras duas soluções apresentadas, conta Cadman, eram tecnicamente ruins: alagavam floresta em excesso e encareciam a obra por localizá-la em terrenos inapropriados, sem a estabilidade necessária.

"No primeiro lugar escolhido, Koatinemo, saltei com um martelo [de geólogo] na mão e o pessoal falou: 'Não precisa, que esse rocha quebra na mão.' Eu pensei: ai, meu Deus."

O segundo obstáculo pareceu então ao engenheiro bem mais fácil de transpor: o alagamento de parte das áreas onde viviam índios. Mas o país mudara muito naqueles cinco anos.

A novidade da ecologia

Belo Monte tornou-se o maior símbolo de um movimento que surgiu e cresceu com a abertura política: o ambientalismo, ou "ecologia", como se dizia na época. Construir usinas na Amazônia -entre elas Tucuruí e Balbina- ao estilo dos tempos da ditadura, com graves impactos sociais e ambientais, passou a acarretar custos políticos para o governo federal.

"Na década de 1980 é que surgiu esse negócio de meio ambiente. Porque antes não tinha nada. Surgiu com a [resolução] Conama 001, de 1986", conta José Antônio Muniz Lopes, hoje diretor de Transmissão da Eletrobras, naquele tempo um engenheiro que trabalhava com linhas de transmissão da Chesf.

Se Cadman é o pai de Belo Monte, Muniz pode ser chamado de padrinho. O engenheiro maranhense batalha desde 1985 pela usina e se exalta quando fala de sua importância para o país: "Eu dizia já naquela época que o Brasil só tinha uma alternativa, Belo Monte ou energia nuclear. Agora, tem de fazer as duas".

Muniz, Cadman e o uruguaio Dario Gomes, então chefe dos engenheiros da Eletronorte, chegaram a uma solução mais viável só em 1988. A barragem de Kararaô seria construída pouco antes da boca do Bacajá no Xingu, para tentar preservar o rio dos xicrins, não inundar a terra Paquiçamba dos jurunas e diminuir o impacto sobre a Volta Grande. O alagamento seria de 1.200 km² a 1.500 km² (no projeto atual, o lago tem 516 km²).

Pouco adiantou. Nessa altura já estava disseminada a imagem da guerra movida pelo poderoso Estado contra um grupo indefeso de índios, uma luta de Davi contra Golias que atraiu atenção e simpatia em várias partes do mundo. Os políticos brasileiros que ainda se identificavam com a esquerda ficaram contra a usina, inclusive o líder do PT na época, Luiz Inácio Lula da Silva. Os caiapós ganharam como aliado um dos mais populares roqueiros da época, o britânico Sting.

Em 1989, ano da primeira eleição direta para presidente da República no país após a ditadura militar, a Igreja Católica e várias organizações não governamentais realizaram o primeiro Encontro de Povos da Floresta em Altamira. Muniz foi escalado pelo governo para defender Kararaô.

O engenheiro conta nunca ter visto tantos índios num só lugar, nem tantos jornalistas. Sua apresentação era a mais aguardada. Orientado por José Porfírio de Carvalho, um dos indigenistas mais destacados do país, Muniz conta que estava tranquilo. Tinha a informação de que os índios fariam de tudo para humilhá-lo, talvez até ameaçar bater, mas recebeu a garantia de que não iriam machucá-lo.

Foi com essa orientação que ele se manteve sereno durante as vaias e pequenas agressões que recebia durante sua fala. Muniz anunciou que a usina não teria mais o nome indígena de Kararaô, em respeito aos índios. A situação desandou quando a índia Tuíra puxou um terçado, começou a gritar e encostou a arma em seu rosto.

A imagem do facão na bochecha do engenheiro correu o mundo (Muniz guarda a capa da revista "Manchete" até hoje). No fim do encontro, perguntou se tinha ido bem. Uma antropóloga mais nova começou a chorar, narra o diretor da estatal.

Aquela fotografia serviu de epitáfio para Kararaô. Mas Cadman, o canadense, conta que os estudos pararam também por outra razão: a terceira solução de projeto para a usina ainda parecia inviável. Uma estrutura de concreto caríssima teria de ser construída para desviar o curso do rio e depois ficaria sem função. Além disso, não havia dinheiro para continuar os estudos, ao final da "década perdida" de 1980, e forjar uma solução nova, mais barata e ambientalmente aceitável.

A sorte entrou em cena mais uma vez. Cadman foi deslocado para a área ambiental da Eletronorte e, em 1992, convocado para defender a usina num seminário ambiental no Hotel Glória, no Rio de Janeiro. Para cumprir a missão de tentar acabar com a resistência ao projeto, Cadman recebeu um pacote de slides recém-preparados por desenhistas da companhia.

Um desses desenhos previa uma estrutura inédita na obra. Remetia ao primeiro projeto na Volta Grande, a chamada solução Koatinemo, em que um canal perto de Altamira desviaria água para a usina, abandonada por se localizar na região de rochas frágeis. Só que no slide o desenho impreciso localizava o canal em outro lugar. "O cara inventou um canal", conta o engenheiro.

Cadman voltou a Brasília e foi olhar os mapas para verificar se seria possível fazer um canal noutro local, sem alagar áreas indígenas. Uma área de rochas estáveis havia sido identificada nos estudos, e o engenheiro canadense deu-se conta de que seria factível uma quarta solução. Kararaô começava a ganhar as feições que lhe dariam uma nova identidade e um novo nome: Belo Monte.

Recuo Estratégico

Após alguns meses de cálculos, Cadman foi chamado por Muniz: a alternativa dos canais passara a ser vista como a única capaz de destravar a usina. "Estamos botando todas as fichas nesse projeto. Não tem plano B", Cadman lembra ter ouvido de Muniz.

Estudos foram contratados na década de 1990 para aprimorar o novo conceito, mas o país passava por mais um aperto na economia. Belo Monte, com seu histórico complicado e preço alto, parecia longe de ser prioridade.

Em 2001, com o apagão que marcou o final do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, nova reviravolta devolveu o projeto aos trilhos. Tornara-se crucial retomar a construção de usinas hidrelétricas. Com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência em 2002, ascenderam ao comando do setor energético, em 2003, técnicos que defendiam a hidreletricidade, entre eles a atual presidente, Dilma Rousseff, que foi nomeada ministra de Minas e Energia. O dinheiro para infraestrutura começou a voltar, mas faltava controlar a resistência socioambiental contra Belo Monte -afinal, Lula tinha tomado parte importante nela.

Segundo Cadman, uma reunião no início de 2006 marcou a vitória dos barrageiros. Os representantes do setor elétrico se aglutinaram de um lado da sala de reuniões do Palácio do Planalto, com Dilma ao lado da cadeira do presidente. Do outro lado da mesa, os representantes do setor ambiental, liderados pela então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Os barrageiros ganharam de enxurrada.

Muniz, o do terçado, já tinha galgado a cúpula da Eletrobras. A resistência dos índios recobrou força. Ao tentar expor as vantagens do novo projeto, outro engenheiro da Eletronorte, Paulo Resende, viveu uma reprise do episódio de uma década antes e terminou atingido por um golpe de facão no braço durante audiência pública para debater Belo Monte, em 20 de maio de 2008.

Nesse mesmo ano, o Conselho Nacional de Política Energética autorizou a construção da usina, mas com uma condição: que fosse a única do rio Xingu. Um recuo estratégico em relação aos objetivos iniciais da guerra.

Os primeiros projetos, ainda na década de 1980, previam até cinco usinas acima de Kararaô/Belo Monte. Isso garantiria um aproveitamento melhor da energia do rio. Papel especial caberia à barragem Babaquara, pouco antes de Altamira, que permitiria acumular mais água.

Flávio Miguez, decano dos engenheiros reunidos no influente Comitê Brasileiro de Barragens, afirma que Belo Monte sempre teve um calcanhar de aquiles: seu baixo fator de capacidade. Ou seja, o fato de que só conseguiria gerar, a cada ano, menos da metade da energia que suas turbinas seriam teoricamente capazes de produzir, havendo água suficiente.

A situação só piorou com o projeto dos canais, já que o lago de acumulação ficou com um quarto do previsto nos primeiros projetos e não haveria outros reservatórios rio acima para liberar água para regularizar o fluxo. "Os reservatórios do Xingu foram eliminados, e o de Belo Monte, diminuído. O benefício a que se renunciou é superior a R$ 3 bilhões por ano, em média."

Nem mesmo a oposição de celebridades como o diretor de cinema James Cameron e a atriz Sigourney Weaver foram capazes de reverter a decisão de Lula. O leilão de concessão de Belo Monte foi realizado em 2010.

Duas das maiores empreiteiras do país, Andrade Gutierrez e Odebrecht, lideravam grupos de empreendedores que concorreriam pela concessão da usina. Semanas antes do leilão, o consórcio da Odebrecht anunciou sua desistência, alegando que o custo da obra fora por ela calculado em R$ 30 bilhões, 50% mais que a estimativa oficial da época. A tarifa máxima aceita pelo governo para a venda de energia seria insuficiente para cobri-lo.

Declaração de guerra

Após 35 anos de estudos e polêmicas, teria sido péssimo para o governo federal conceder seu maior projeto de energia sem concorrência. Entraram então em campo dois soldados do Planalto: Valter Cardeal e Adhemar Palocci. Eram os representantes diretos de duas figuras fortes da República: Dilma Rousseff, já ministra da Casa Civil e candidata à Presidência, e Antônio Palocci, ex-ministro da Fazenda, deputado federal, coordenador da campanha da futura presidente e irmão de Adhemar.

O reforço para a batalha de Belo Monte levou à formação de um consórcio -embrião da empresa Norte Energia- capitaneado pela estatal Chesf (subsidiária da Eletrobras) com a participação de construtoras pequenas e médias. O grupo liderado pela Andrade Gutierrez deu seu lance no leilão com um desconto baixo, de apenas 4% sobre o preço máximo. O consórcio paraestatal da Chesf ofereceu desconto maior (6%) e saiu vencedor.

O Piauí ganhara a guerra com os Estados Unidos.

http://arte.folha.uol.com.br/especiais/2013/12/16/belo-monte/