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Jornal Cruzeiro - http://www.jornalcruzeiro.com.br/
14/04/2017
Floresta ameacada

Analisar dados sobre o desmatamento da Amazônia divulgados periodicamente pela imprensa ou por institutos especializados é uma atividade complexa. Os critérios e as interpretações sobre o tema variam muito e o leitor fica sempre com dúvidas. É comum ficarmos sabendo em uma semana que caiu o índice de desmatamento no País e ler notícia com teor completamente oposto dias depois. Como o que move o desmatamento são interesses econômicos poderosos -- aumento da fronteira agrícola, mineração, garimpo, criação de gado, entre outros -- na maioria das vezes com o apoio velado dos governos estaduais, torna-se difícil mensurar o tamanho do estrago anual causado na floresta.

Não bastasse essa disparidade de informações, um grupo de cientistas dos Estados Unidos divulgou uma pesquisa, publicada pela revista Science Advances, mostrando que os dados de desmatamento da Amazônia, considerados pelo Brasil em suas estatísticas oficiais de perda de florestas e emissões de gases de efeito estufa, podem estar errados ou subestimados por não levar em conta outras formas de vegetação. Os cientistas comparam informações fornecidas pelo Prodes, o sistema de monitoramento por satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que produz o dado oficial anual, com um mapeamento feito pela Universidade de Maryland (EUA) no período de 2000 a 2013 em toda a Amazônia Legal. Os dois sistemas usam metodologias diferentes. Enquanto o Prodes monitora a perda total na floresta primária, somente no bioma amazônico, o modelo da universidade é mais amplo, pois considera todo tipo de perda de cobertura de árvores, incluindo por fogo e atividade madeireira, e em outras formas de vegetação, como florestas secundárias e em campos arbustivos, como o Cerrado com bosque, existente na área de transição entre floresta e Cerrado. Em 2013, por exemplo, as perdas detectadas pela universidade nas florestas secundárias e bosques arbustivos foram semelhantes ao desmatamento na floresta tropical primária e ficaram fora das estatísticas oficiais.

Mas não são somente as interpretações diferentes de imagens de satélites que podem prejudicar ainda mais a floresta que contém a maior biodiversidade do planeta. Em apenas dois dias, a articulação de parlamentares abriu no Congresso um caminho para reduzir a proteção de mais de um milhão de hectares, o equivalente a 1 milhão de campos de futebol, de florestas no Estado do Pará, quase 5% do que existe no Estado de área protegida.

O plano do governo federal era desafetar uma área muito menor de florestas preservadas para abarcar as curvas da futura ferrovia que deverá ligar os municípios de Sinop, no Mato Grosso e Itaituba, no Pará, num traçado paralelo à BR-163 e, por esse motivo, seria necessário alterar parcialmente o status de alguns trechos de Unidades de Conservação (UCs) na bacia do rio Tapajós, conforme projeto proposto pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Um dia depois de uma comissão mista do Congresso reduzir 660 mil hectares dessa região oeste do Pará, outro colegiado, formado por deputados e senadores aprovou em menos de dez minutos, na última quarta-feira, a alteração nos limites do Parque Nacional do Jamanxim e da Floresta Nacional e da Floresta Nacional de Itaituba II, na mesma região, que juntos perderam mais 442 mil ha. Os parlamentares alteraram as Medidas Provisórias 756 e 758 de tal maneira que deixa desprotegida essa área gigantesca, do tamanho do Estado de Sergipe, que já é marcada por conflitos fundiários, avanço do desmatamento, além de corte ilegal de árvores, garimpos clandestinos e grilagem de terras públicas. As emendas dos deputados transformaram áreas restritivas, como florestas nacionais e parques nacionais, em Áreas de Proteção Ambiental (APA), uma modalidade que tolera vários tipos de uso.

Os novos textos das MPs seguem para plenário da Câmara para votação e depois para o Senado e em seguida para sanção do presidente Temer. O ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho (PV-MA), diz que se a MP for aprovada, pedirá o veto do presidente. Ambientalistas de todo o país estão se mobilizando para evitar que essa parte da Amazônia também se transforme em áreas de pasto e garimpo, cenário de absoluta degradação ambiental e com aval do governo brasileiro.

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