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03/10/2017
Projeto de trilhas de longo curso brasileiras comeca a sair do papel

Oiapoque é um município localizado no extremo norte do estado do Amapá e do Brasil. Chuí, na direção oposta, é o ponto mais ao sul do país. Entre eles existem mais de 4 mil quilômetros - em linha reta. Esse caminho imaginário entre dois extremos brasileiros está em vias de não ser mais tão fictício assim. Aos poucos, a partir de trilhas regionais menores, está nascendo a grande Trilha Oiapoque x Chuí. O traçado ainda não está definido, nem precisa. A ideia é que o percurso se construa de forma espontânea e gradual, na medida em que, localmente, se implementem as trilhas, que funcionam como atrativos locais, porém são pensadas para se encaixarem no traçado maior. "É como se estivéssemos construindo um grande quebra-cabeças", explica o coordenador geral da Coordenação Geral de Uso Público e Negócios (CGEUP) do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Pedro da Cunha e Menezes.

As sementes para construção de um sistema brasileiro de trilhas de longo curso já estão germinando. Entre os dias 21 e 24 de setembro, a Floresta Nacional (Flona) de São Francisco de Paula, no Rio Grande do Sul, recebeu uma oficina de sinalização e manejo de trilhas. A capacitação, oferecida pelo ICMBio, ajudará os atores locais, gestores e voluntários, a construírem o Caminho das Araucárias. O trajeto partirá da Floresta Nacional de Canela, passará pela unidade em São Francisco de Paula e seguirá em direção ao norte, até o Parque Nacional de São Joaquim (SC), passando pelos parques nacionais gaúchos de Aparados da Serra e da Serra Geral. O trecho de 10 quilômetros da Flona é o primeiro do percurso oficialmente implementado e sinalizado dentro do padrão que deve orientar todas as travessias brasileiras, para uniformizar a linguagem: uma pegada amarela sob uma base preta, ou vice-versa, para indicar o sentido oposto. O modelo já é usado na Trilha Transcarioca e no Caminhos da Serra do Mar, no estado do Rio de Janeiro; na Trilha Chico Mendes, na Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre; e na Floresta Nacional de Brasília, no Distrito Federal.

"Essa é uma articulação de vários setores governamentais ou não, que inclui desde os usuários até as universidades da região. Um projeto desta magnitude só se concretiza com a participação de todos setores-atores envolvidos desde sua concepção", frisa Edenice Brandão, gestora da Flona. Edenice explica ainda que a travessia, na qual a araucária (Araucaria angustifolia) é a grande protagonista, deve se expandir em outras direções. "Existem outros caminhos históricos na região que estão sendo resgatados e serão incluídos, na medida do possível, no projeto Caminho das Araucárias".

A trilha é um organismo vivo, como frisa Pedro Menezes. "A definição do percurso não será feita pelo ICMBio, dentro de um escritório. Nós iremos fomentar, com foco nas nossas áreas, a implementação de caminhos que se encaixem nesse traçado maior. Ele será definido de baixo para cima. Na medida em que as unidades manifestem seu interesse em implementar trilhas no seu perímetro. E o percurso pode mudar, ir melhorando", explica o coordenador. Fora do âmbito do ICMBio, essa implementação acontecerá através de instituições parceiras, sejam elas do município, do estado, ONGs ou entidades privadas.

No total, são quatro eixos que começarão a esquadrinhar os caminhos das trilhas de longo curso no Brasil. Além de Oiapoque x Chuí, o Caminho de Cora Coralina ou Trilha Missão Cruls ligará a Chapada dos Veadeiros com o município de Goiás Velho, uma caminhada de aproximadamente 500 quilômetros que está sendo implementada com apoio do governo estadual. No Paraná, a Travessia Peabiru (nome provisório), conectará o Parque Nacional do Iguaçu ao litoral paranaense, e já começou a sair do papel no entorno da unidade de conservação. E um nome familiar aos mineiros, a Estrada Real, atualmente percorrida por automóveis e bicicleta, irá ganhar uma trilha em paralelo para ser percorrida também a pé, uma iniciativa que será discutida junto com o Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais (IEF-MG).

O diretor de Meio Ambiente da Confederação Brasileira de Montanhismo e Escalada (CBME), Nelson Brügger, comemora o nascimento do Caminho das Araucárias e a gradual abertura das áreas protegidas aos seus mais aficionados usuários: os montanhistas. "As trilhas de longo curso são muito boas para resgatar essa cultura de montanhismo que se perdeu com uma visão de áreas protegidas pouco democráticas", acredita Nelson. O diretor crê ainda que as unidades e a própria conservação da natureza vão ganhar um aliado com as trilhas. "A grande importância desses projetos é que eles permitem o diálogo entre as gestões e os praticantes, e constrói uma rede de apoio à conservação dessas áreas", ressalta.

Além disso, com a consolidação do uso público, as unidades de conservação ganham um aliado que tem se provado essencial: o voluntário. "A própria definição de montanhismo envolve essas atividades de manejo e voluntariado em áreas naturais. Porque os montanhistas fazem isso há mais de 100 anos, só que antes a gente fazia e ninguém ficava sabendo. Hoje isso é valorizado", acrescenta Nelson.

Na sinalização da Flona São Francisco de Paula, assim como na implementação e manutenção da Trilha Transcarioca, percurso de 180 quilômetros, a mão de obra voluntária tem se provado fundamental. Esses voluntários representam atores locais que irão se tornar os principais fiscais da unidade de conservação, com a vantagem de ter um alcance que vai para além daquela UC e, enquanto cidadão, virar um defensor do patrimônio natural na sociedade. "A conservação ganha aliados na sociedade civil que irão lutar e fazer pressão para que aqueles corredores de trilha sejam mantidos", comenta Pedro.

Do ponto de vista econômico, o professor de turismo da Universidade de Caxias do Sul, Michel Bregolin, conta que a construção local de trilhas cria novos produtos turísticos que podem gerar renda para comunidades do interior que normalmente ficam à margem de processos de desenvolvimento. "Uma questão muito importante nessa proposição de trilhas de longo curso é a capacidade de mobilização dos atores em nível regional para efetivação de pequenos trechos que, dentro de alguns anos, vão compor uma trilha de longo curso. Isso permite que, de uma certa maneira, se criem novas possibilidades de oferta de serviços para os visitantes, principalmente trabalhando com o turismo de base comunitária", explica o professor. "Na França, por exemplo, onde existe uma trajetória maior com relação às trilhas de longo curso, praticamente toda pequena comunidade rural busca ter uma pequena trilha ou tenta se integrar a esses processos para ter uma mobilização econômica e se colocar enquanto desenvolvimento turístico".

Uma das trilhas de longo curso mais icônicas do mundo, a Appalachian Trail, nos Estados Unidos, possui cerca de 3.500 quilômetros. Percorrê-la inteira pode levar de 5 a 7 meses. Porém, essa não é a única forma de usufruir do percurso. Em todos os 14 estados americanos pelos quais passa a travessia, há trechos que podem ser feitos em um único dia. Ou seja, dentro dessa grande embalagem da Appalachian, que funciona em âmbito nacional, existem múltiplos produtos menores, que funcionam como atrativos no âmbito local.

Além de futuros atrativos turísticos regionais e nacionais, as trilhas funcionarão como extensos corredores ecológicos. Essa conexão de áreas naturais serve como passagens de fauna e facilitam a troca e variabilidade genética das espécies. Encarregado de uma missão maior de conectividade, que inclui até mesmo a conexão institucional, o Programa Conectividade de Paisagens, do Ministério do Meio Ambiente (MMA) também reconhece as trilhas como ferramentas importantes.

O diretor do Departamento de Áreas Protegidas do Ministério do Meio Ambiente, Warwick Manfrinato, um dos principais articuladores do programa, explica que "a trilha de longo curso é uma ferramenta, das mais eficientes, para você criar uma visão de conectividade, especialmente para o usuário, porque você dá concretude para conexão em nível local". O programa ainda está sendo desenhado e só deve ficar pronto em novembro, mas o ICMBio ocupa uma das cadeiras nas reuniões do projeto, ocupada por vezes pelo próprio Ricardo Soavinsky, presidente do ICMBio.

A participação do presidente no processo de abertura das unidades de conservação ao turismo e, consequentemente, da implementação de trilhas e travessias, é reconhecida por Pedro. "O maior desafio é começar a entender que o uso público não é algo que só impacta, se ele for bem pensado, também é uma ferramenta de conservação. Com o Ricardo Soavinsky o ICMBio deu um salto nisso, porque ele também vê isso".

Construir uma trilha como a Oiapoque x Chuí, com potencial de ser, não apenas maior, mas o dobro da Appalachian Trail, com certeza leva tempo. Mas a partida, em escala local, já foi dada. As primeiras peças - e quilômetros - do quebra-cabeças já estão na mesa.

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