As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos.

O Globo, Segundo Caderno, p. 2
30/08/2017
Amazonia

Amazônia
A região permaneceu décadas nesse limbo entre o medo do desconhecido e a meta do domínio produtivo

Fred Coelho

A região da Amazônia já alimentou tantos imaginários, por tantos séculos, que não se faz aqui necessário falar sobre sua importância para o mundo. A metáfora do "pulmão" ainda engendra uma série de imagens em que a respiração de uma civilização inteira, de alguma forma, passa por ali. Euclides da Cunha, no início do século XX, escreve sobre a imponência da floresta e a impossibilidade de dar conta dela - não só pela sua escala monumental, mas também pela sua permanente mobilidade das formas.
Era uma época em que apenas escritores e pesquisadores estrangeiros falavam da região. Com exceção de pouquíssimos brasileiros, não se escrevia ou pensava sobre a floresta. A ideia de progresso científico e civilização material passava necessariamente pela urbanidade industrial europeia. Nesse cenário, a Amazônia era um território para se assegurar e um espaço selvagem impenetrável. Com diversas populações das mais diferentes partes do mundo, uma fauna e uma flora infinitas e uma série de riquezas para serem exploradas, a região permaneceu décadas nesse limbo entre o medo do desconhecido e a meta do domínio produtivo.
Em tempos sem a menor possibilidade de se pensar em preservação - seja da natureza, seja dos territórios indígenas e suas populações - o que restava para a Amazônia era a sina de "ser integrada" ao país. A ocupação de suas regiões através da agricultura, da mineração, do extrativismo ou da pecuária foram massivas como saída para transformar o "espaço vazio". Era o território, e não a vida de seus habitantes, que alimentava políticas públicas e decisões governamentais. A ideia era fazer da especificidade da região uma parte primária do capitalismo industrial. Em suma, dar uma "utilidade" dentro da cadeia produtiva de um país que desejava o progresso maquínico e fóssil.
Durante o período do regime militar, a Amazônia tornou-se mais ainda essa fronteira de práticas extrativistas modernas e arcaicas. Em 1972 um pequeno livro de Flavio Alcaraz Gomes foi publicado para louvar a construção da Transamazônica. Na opinião do jornalista, a estrada que ligaria a região até o Nordeste iniciava uma "redescoberta do Brasil". Dois prefácios, um do ministro da agricultura, Luiz Fernando Cirne Lima, e outro do ministro dos transportes, Mario Andreazza, davam o tom oficial da publicação. Para o primeiro, "o ex-inferno verde subjugado e seu ventre fértil à mostra é o resultado da grande guerra que a paz nos legou". Tal guerra, da máquina contra a natureza, do homem contra a mata, é ratificada em sua perspectiva "colonizadora", nas palavras de Andreazza: "Já é fato consumado que só as rodovias Transamazônica e Cuiabá-Santarém, implantadas através de regiões virgens amplamente favoráveis à agricultura, à pecuária e à mineração, constituem a espinha dorsal de vigoroso plano de colonização que o Governo implanta na Amazônia".
A lógica de ocupação populacional extrativista e a exploração econômica de riquezas minerais legou à região da Amazônia uma série de impasses políticos e econômicos que, até hoje, perduram. O avanço da soja sobre a floresta, as ocupações fundiárias irregulares, os assassinatos por posse de terras, os madeireiros e garimpeiros ilegais são consequências diretas dessa ideia de integração a ferro e fogo do "espaço vazio". A região ainda viveu, durante décadas, as controvérsias de enclaves internacionais irregulares. Foi Castelo Branco que, em 1966, criou o lema nacionalista "integrar para não entregar". Ironicamente, hoje se pede para não deixar o governo Temer entregar.
Nos anos 1980, o ambientalismo cresceu como bandeira de grupos locais e internacionais que lutavam pelas florestas e suas populações. Mesmo assim, comunidades indígenas e comunidades ribeirinhas permanecem em situações de perigo e precariedade. A "conquista da selva", para usar outra expressão de Cirne Lima, ainda ressoa positivamente em algumas cabeças que não ligam para o fato de uma região inteira preservada da "guerra com o inferno verde" ser vendida para exploração de minérios. As respostas do governo soam idênticas ao período dos militares em seu verniz tecnocrata, porém radicalmente diferentes quando o assunto é a "soberania nacional". Foram os militares, aliás, que fecharam em 1984 a Reserva Nacional de Cobre e seus Associados (Renca), a mesma que o atual governo quer leiloar. O intuito, naquela época, era que apenas o Estado brasileiro explorasse a área. E hoje?
Parece que, em tempos de capitais transnacionais, a presidência não se preocupa em manter isso. Muito menos se responsabilizar pelas consequências possíveis de tal gesto. O dinheiro obtido através de leilões, por maior que seja, sumirá no imediatismo de ajustes e não trará nenhuma melhoria para a região, para a natureza e para o mundo. E os que agora assinam tal medida, um dia vão embora deixando como legado algo muito maior do que sua presença nociva e passageira entre nós.

O Globo, 30/08/2017, Segundo Caderno, p. 2

https://oglobo.globo.com/cultura/amazonia-21761076