Manejo do fogo

Além dos desafios financeiros, outras dificuldades devem ser enfrentadas após a criação de uma unidade de conservação. Essas dificuldades estão relacionadas com decisões sobre os procedimentos a serem adotados no manejo e gestão da unidade. Aqui, o desafio reside na falta de conhecimento sobre a totalidade dos processos que geram e mantêm a biodiversidade, cuja integridade deve ser preservada, e a necessidade concomitante de ação. Esse é o desafio de toda a biologia da conservação: não é possível esperar a obtenção todos os dados para começar a agir – manejar e gerir –, pois a biodiversidade está continuamente ameaçada, inclusive nas áreas protegidas.

  / Araquém Alcântara - www.terrabrasilimagens.com.br

A presença – ou a ausência – proposital do fogo nas unidades de conservação ilustra bem a necessidade de ação chocando-se com as limitações do conhecimento sobre a complexidade dos ecossistemas. Em vários parques africanos, o fogo fazia parte da dinâmica do ecossistema antes da criação da área protegida. Com o estabelecimento dos parques, vieram as políticas de supressão de incêndios e consequentemente, as alterações na vegetação, que se refletiram em modificações, muitas vezes indesejáveis, na fauna. Um exemplo é o Parque Nacional Kruger, na África do Sul: após seu estabelecimento, que trouxe a exclusão dos nativos e caçadores, a freqüência dos incêndios decresceu. Como resultado, áreas anteriormente abertas foram invadidas por arbustos, reduzindo a possibilidade de herbivoria e, por conseguinte, a fauna. Foi necessária a reintrodução de queimadas para trazer de volta a fauna.

Há outros casos, como as florestas de coníferas de altitudes médias e elevadas das montanhas de Sierra Nevada na Califórnia, onde a proteção ao fogo, adotada desde 1890 tem tornado a área mais densa e sombreada, causando uma redução no número de plântulas de sequóia. Essa estratégia tem transformado também o chaparral presente em áreas mais baixas onde a vegetação aumentou em densidade, a quantidade de combustível cresceu, espécies intolerantes ao fogo se disseminaram e a diversidade vegetal diminuiu.

O famoso incêndio de 1988, no Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos trouxe como benefício uma intensa discussão acerca do papel do fogo naqueles ecossistemas e acerca das políticas de manejo de fogo adotadas para a unidade. A supressão do fogo começou, em Yellowstone, em 1886, 14 anos após a criação do Parque, e durou até 1972, quando o Parque modificou sua política, deixando que incêndios de causas naturais, dentro de certos critérios, ocorressem. Em 1988, o fogo consumiu aproximadamente 45% (400.000 ha) do Parque Nacional de Yellowstone, logo após um cenário climático típico da região. Dados históricos indicam que grandes incêndios acompanham o ciclo de florestas antigas em um ciclo de 200 a 300 anos. Há evidências da ocorrência de incêndios de proporções similares no começo do século XVIII, antes da ocupação da área pelos descendentes dos europeus, outros, porém, chamam atenção que, mesmo que a escala do incêndio de 1988 seja considerada natural, a ação humana modificou os padrões. Houve um acirrado debate, por exemplo, sobre se o combustível acumulado durante um século de supressão, antes de 1972, teria aumentado as dimensões dos incêndios de 1988.

Parque Nacional de Yellowstone  / Frank Kovalchek

A importância dos distúrbios naturais para a manutenção da diversidade de paisagens em Yellowstone já havia sido documentada. O incêndio de 1988 não trouxe danos significativos para nenhuma das espécies ali presentes, apesar de, naturalmente, alguns padrões espaciais se alterarem. Entretanto, é importante assinalar que, apesar da tentação de se afirmar que as paisagens do parque voltaram a ser o que eram há algumas centenas de anos, as paisagens de Yellowstone nunca serão iguais às de 1872, assim como estas nunca haviam sido equivalentes aos cenários anteriores, pois, mesmo sem a influência do homem, as paisagens de Yellowstone continuaram a se modificar em função das mudanças climáticas, da evolução, da emigração, da imigração e da extinção de espécies1.

Leia mais sobre o Projeto Fogo, que estuda os efeitos de diferentes regimes de queima sobre a estrutura e funcionamento dos ecossistemas do Cerrado brasileiro clicando aqui.Se por um lado os focos de incêndio são vistas como ameaças persistentes às áreas naturais protegidas (veja os focos de calor diários que incidem na Amazônia Legal clicando aqui), a questão do fogo e seu manejo está na ordem do dia nas unidades de conservação localizadas em fitofisionomia de cerrado. Apesar do fogo ser considerado como um dos elementos determinantes da diversidade de paisagens do cerrado, na maioria dos casos a estratégia adotada tem sido a supressão total de incêndios nesses parques. Por exemplo, no Parque Nacional de Brasília, apesar das inúmeras recomendações para que se incorpore o manejo do fogo às práticas da unidade, presentes, inclusive, no Plano de Manejo, elaborado em 1979 e em sua revisão datada de 1994, a política oficial continua sendo a total supressão do fogo.

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Essa estratégia altera o regime de fogo característico do cerrado e, por conseguinte, ameaça a biodiversidade do Parque, a grosso modo, de duas formas: 1. a ausência do fogo pode prejudicar processos tais como colonização, estabelecimento de novos indivíduos e competição e 2. pela ocorrência inevitável de grandes incêndios, devido ao excesso de material combustível acumulado. Esses incêndios, que têm sido frequentes, podem causar a morte de indivíduos que não estão preparados para tal intensidade de fogo.

A polêmica sobre a conveniência de supressão, ou não, de incêndios é alimentada pela relativa falta de dados sobre o papel do fogo no cerrado. No entanto, apesar disso, os gestores das unidades de conservação devem tomar uma decisão e adotar uma determinada prática de manejo. Inúmeras outras questões apresentam situação similar, especialmente quando se trata da biodiversidade nos trópicos.

Acacia tortilis e as savanas africanas2

Um exemplo africano ilustra bem a angústia dos gestores de unidades de conservação. Trata-se das áreas protegidas do leste da África, muitas delas criadas para a conservação de uma paisagem vista por nós como típica desse continente e como a imagem da natureza virgem e intocada: as savanas com suas árvores em forma de guarda-chuva e os grandes herbívoros. Há fortes evidências, entretanto, de que a freqüência dessas árvores não é ‘natural’: elas não estavam ali há 100 anos ou, pelo menos, não eram tantas. A presença de tais árvores, a maioria Acacia tortilis, em grandes áreas de savana, parece ser resultado direto da introdução da peste bovina na África, em torno de 1895, consequência da introdução de gado oriundo da Ásia na região. A doença causou índices de mortalidade catastróficos entre os ungulados nativos (veados, alces, bisões, girafas, etc.) e introduzidos (gado bovino). Seus efeitos sobre os ecossistemas foram complexos e uma das conseqüências foi a propagação dessas árvores, antes restritas a certas áreas, que se espalharam rapidamente por locais onde anteriormente seu estabelecimento era limitado pela combinação entre herbivoria e fogo. Toda vez que uma plântula de Acacia começava a crescer, tinha suas folhas devoradas pelos ungulados. Com a diminuição das populações desses animais, essas plântulas não eram mais objeto de herbivoria e... viraram árvores.

Mais tarde, os ungulados nativos desenvolveram resistência à peste bovina e as vacinas empregadas lograram controlar a doença entre os animais domésticos. Como conseqüência direta do aumento de suas populações, esses animais voltaram a suprimir o estabelecimento das árvores em forma de guarda-chuva, devorando as plantas jovens. Desta forma, poucas árvores se estabeleceram nos últimos 50 anos. Como resultado, hoje há poucas árvores jovens para substituir aquelas, de idade entre 60 a 80 anos, que estão morrendo. Esse processo tem apresentado aos gestores das unidades de conservação um dilema: não sabem se protegem as pequenas plantas de Acacia, colaborando para manter a paisagem atual, ou se permitem que elas sejam suprimidas, descaracterizando essa paisagem, mas se aproximando das paisagens anteriores à chegada da peste bovina na África.

 

Referências

  1. CHRISTENSEN, N.L., J.K. AGEE, P.F. BRUSSARD, J. HUGHES, D.H. KNIGHT, G.W. MINSHALL, J.M. PEEK, S.J. PYNE, F.J. SWANSON, J.W. THOMAS, S. WELLS, S.E. WILLIAMS & H.A. WRIGHT. 1989. "Interpreting the Yellowstone fires of 1988". BioScience 39: 678 - 685.
  2. SPRUGEL, D.G. 1991. "Disturbance, equilibrium, and environmental variability: what is ‘natural’ vegetation in a changing environment?" Biological Conservation 58: 1- 8.